
Quando pensamos em terremotos, frequentemente imaginamos destruição: rachaduras, prédios desabados, paisagens alteradas. No entanto, o verdadeiro processo de transformação do planeta continua muito depois do terremoto. Após um terremoto, as áreas afetadas passam por um período de deformação pós-sísmica, durante o qual a crosta terrestre tenta se adaptar às novas tensões geradas pelo movimento.
Até agora, os geólogos presumiam que esse processo de “recuperação” era relativamente contínuo e uniforme. Mas uma nova pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicada na revista Science, revela uma história muito mais complexa.
“Se você observar a crosta superficial antes e depois do terremoto, não verá nenhuma mudança permanente. Mas na crosta intermediária, os efeitos persistem”, explica Jared Bryan, autor principal do artigo e aluno de pós-graduação do Departamento de Ciências da Terra, Atmosféricas e Planetárias do MIT.
O Caso Ridgecrest: um laboratório natural
Para analisar o comportamento da crosta antes, durante e depois de um terremoto, os pesquisadores se concentraram na sequência do terremoto de Ridgecrest (Califórnia, 2019), o mais intenso no estado nas últimas duas décadas. Esse sistema de falhas “jovem” gerou dois grandes terremotos — de magnitudes 6,4 e 7,1 — e dezenas de milhares de réplicas no ano seguinte.
A equipe utilizou dados sísmicos globais, mas eliminou os sinais produzidos pelos próprios terremotos de Ridgecrest. Em vez disso, eles observaram como ondas geradas por outros eventos ao redor do planeta passavam pela área antes e depois do terremoto.

“O que é um sinal para alguns é ruído para outros”, brinca Bryan, referindo-se à reutilização desse “ruído sísmico” — causado por ondas do mar, tráfego ou atividade humana — como fonte de informações valiosas.
Usando uma técnica chamada função receptora, os cientistas mediram a velocidade de propagação das ondas sísmicas, um parâmetro que depende da densidade e da porosidade das rochas. Essas informações permitiram que eles construíssem mapas básicos do subsolo antes e depois do terremoto, revelando uma dinâmica surpreendente:
- A crosta superficial (cerca de 10 km de profundidade) se recuperou rapidamente, em questão de meses.
- A crosta intermediária, por outro lado, não foi imediatamente danificada, mas começou a mudar assim que a crosta superior começou a “se curar”.
“O que foi inesperado foi a rapidez com que a crosta superficial se curou e o acúmulo complementar que ocorre mais profundamente durante a fase pós-terremoto”, observa Bryan.
O mistério da energia e da “cura” profunda
Entender como as diferentes camadas da Terra se reparam é essencial para entender o balanço energético de um terremoto, ou seja, como a energia liberada é distribuída: parte é convertida em ondas sísmicas, parte em novas fraturas e parte é armazenada elasticamente no ambiente.
Esse equilíbrio ajuda os geólogos a modelar como os danos à crosta se acumulam e se dissipam ao longo do tempo.
Mas o novo estudo deixa várias questões em aberto. O córtex profundo realmente se recupera? Ou permanece permanentemente alterado? Segundo os autores, há dois cenários possíveis:
- Que zonas profundas se regeneram muito lentamente, em escalas de tempo geológicas.
- Que elas nunca retornem ao seu estado original.
“Ambas as opções são fascinantes, e nenhuma delas era o que esperávamos”, admite Frank.
O que ainda precisa ser descoberto
A equipe do MIT planeja continuar as observações para determinar em que profundidade essa mudança se torna mais evidente e comparar os resultados com outras zonas de falhas mais antigas ou mais ativas.
“Talvez em mil anos possamos confirmar se ela realmente se recuperou”, brinca Bryan.
O que parece claro é que a Terra nem sempre cura suas feridas da mesma maneira. Sob nossos pés, o planeta continua se adaptando, lentamente, aos golpes que inflige a si mesmo.
Referência da notícia
Crustal stresses and damage evolve throughout the seismic cycle of the Ridgecrest fault zone. 18 de setembro, 2025. Bryan, et al.
