ENQUANTO A MÍDIA INDEPENDENTE TENTA MANTER SUA AUTONOMIA, VOZES MÍSTICAS GANHAM ESPAÇO COM PREVISÕES QUE, POR COINCIDÊNCIA OU CONVENIÊNCIA, REFORÇAM DISCURSOS FAVORÁVEIS AO PODER POLÍTICO VIGENTE.
Nos últimos anos, o Brasil assistiu a uma crescente presença de videntes, sensitivos e “profetas” modernos em programas de TV, redes sociais e portais de entretenimento. A princípio, o fenômeno parece inofensivo: previsões sobre o futuro, interpretações espirituais e curiosidades esotéricas. Mas, sob o olhar da análise política, esse movimento pode revelar algo mais profundo — e mais estratégico.

Fontes de comunicação espiritual são tradicionalmente vistas como alheias à política. No entanto, há indícios de que parte dessas vozes vem sendo favorecida por algoritmos e plataformas alinhadas a determinados discursos, especialmente aqueles que normalizam crises políticas ou econômicas e reforçam a imagem de estabilidade governamental.
Em paralelo, a mídia independente, que costuma denunciar irregularidades ou contradições do poder público, enfrenta redução de alcance e questionamentos de credibilidade.
A dinâmica é sutil: enquanto jornalistas independentes lutam por espaço, os videntes ganham audiência apresentando previsões sobre “nova era de prosperidade”, “governos guiados por forças superiores” ou “líderes predestinados”.
Não se trata, necessariamente, de uma ação coordenada pelo governo, mas de uma convergência simbólica de interesses. Quando uma previsão “diviniza” a liderança atual ou sugere que o rumo do país é inevitável, ela atua como uma narrativa tranquilizadora, deslocando o foco do debate crítico.
Especialistas em comunicação apontam que o discurso do “não político” — isto é, o de quem diz não ter lado — é o mais eficiente veículo de influência.
Quanto mais uma figura pública insiste em não se alinhar a ninguém, maior é a tendência de o público enxergá-la como neutra.
E é justamente nesse ponto que o misticismo pode se transformar em instrumento de poder.
Assim, mesmo sem documentos ou provas diretas, é plausível afirmar que há um alinhamento funcional, ainda que informal, entre a retórica espiritualista e as estratégias de manutenção de narrativa governamental.
O que antes era profecia, hoje é conteúdo — e conteúdo é poder.
“DESENHANDO” O EXPOSTO
Vamos destrinchar o raciocínio em três níveis: o comportamental, o estratégico-comunicacional e o sociológico.
1. Nível comportamental: o discurso da “isenção”
Quando alguém que tem visibilidade pública — seja um vidente, comentarista ou analista — reafirma repetidamente que é isento ou neutro, isso pode servir a dois propósitos opostos:
- (a) Isenção genuína: ele tenta se proteger de rótulos, porque sabe que o ambiente é polarizado e teme ser atacado.
- (b) Estratégia de camuflagem: ele quer manter aparência de imparcialidade enquanto comunica mensagens alinhadas a determinado grupo ou poder.
Esse tipo de negação reiterada (“não tenho lado”, “não sou político”, “não apoio governo nenhum”) pode, paradoxalmente, ser um indício de alinhamento indireto, principalmente quando o conteúdo produzido repete narrativas convenientes a um lado do espectro político — mesmo sem citar explicitamente o governo.
2. Nível estratégico: “vidência” como instrumento narrativo
Historicamente, em vários países, discursos místicos ou proféticos já foram usados para:
- legitimar líderes (“ele é o escolhido”, “a profecia o favorece”);
- naturalizar crises (“era previsto”, “faz parte do destino coletivo”);
- induzir conformismo (“as forças superiores já decidiram o caminho”).
No contexto brasileiro atual, é plausível — ainda que não comprovado — que alguns perfis autoproclamados videntes estejam sendo impulsionados nas redes justamente porque suas mensagens ajudam a moldar o imaginário popular em favor de determinadas interpretações da realidade.
Isso pode acontecer sem vínculo direto com o governo, mas com afinidade ideológica ou benefício indireto por reforçar narrativas oficiais.
3. Nível sociológico: a confiança no “não político”
A sociedade brasileira, cansada de políticos e instituições, tende a dar crédito a vozes alternativas — pastores, gurus, influencers espirituais, videntes — por enxergá-los como “fora do sistema”.
E é justamente isso que torna tais figuras valiosas na guerra de narrativas:
- elas atingem públicos desiludidos com a política;
- e influenciam opiniões sem parecer que estão fazendo política.
Logo, mesmo que não exista um contrato direto ou um documento comprovando uma aliança entre governo e videntes, a convergência de interesses simbólicos e narrativos pode sim produzir um alinhamento funcional, ainda que informal e invisível.
