O Departamento de Justiça dos EUA (Estados Unidos) modificou a acusação contra o presidente venezuelano deposto Nicolás Maduro (PSUV, esquerda), eliminando a afirmação de que ele liderava a suposta organização de tráfico de drogas denominada “Cartel de los Soles”. A nova versão da acusação foi divulgada na 3ª feira (6.jan.2026), após a captura do mandatário venezuelano. Eis a íntegra (PDF – 557 kB).
A partir disso, deixa de existir a possibilidade de Maduro liderar a organização, uma vez que a acusação já não caracteriza o suposto grupo como uma instituição estruturada, hierárquica e coesa, mas como um sistema difuso de “clientelismo”.
A revisão se dá depois de anos de questionamentos sobre a existência real do cartel. Críticos afirmam que a organização seria, na verdade, um termo para descrever autoridades militares e civis corruptas ligadas ao narcotráfico.
O documento recente descreve o “Cartel de los Soles” como referência a um “sistema de patronagem” e uma “cultura de corrupção” na Venezuela. Os lucros do narcotráfico iriam, segundo o documento norte-americano, “para oficiais civis, militares e de inteligência corrompidos, que operam em um sistema de patronagem administrado por aqueles no topo –referido como Cartel de los Soles ou Cartel dos Sóis, uma referência à insígnia solar afixada nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente”.
Apesar da retirada, os promotores mantêm as alegações de que Maduro participou de uma conspiração de narcoterrorismo, além de crimes como importação de cocaína, posse e conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos.
A alegação original sobre o “Cartel de los Soles” surgiu em uma acusação apresentada contra Maduro em 2020. Ela apresentava uma narrativa sobre uma conspiração de vários anos. O documento afirmava que o grupo realizava ações como fornecer armas às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e tentava “inundar” os EUA com cocaína “como uma arma”. Eis a íntegra (PDF – 362 kB).
Já em julho de 2025, o Departamento do Tesouro estadunidense designou o suposto cartel como organização terrorista. Eis a íntegra (PDF – 112 kB, em inglês). Posteriormente, em novembro, Marco Rubio, atual secretário de Estado, orientou seu departamento a fazer o mesmo. Eis a íntegra (PDF – 322 kB).
A Avaliação Anual de Ameaças de Drogas da DEA (Agência de Combate às Drogas) e o Relatório Mundial sobre Drogas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime nunca mencionaram o “Cartel de los Soles” em seus documentos oficiais que detalham as principais organizações de tráfico.
O CARTEL DE LOS SOLES
O chamado Cartel de los Soles é apontado por autoridades norte-americanas como uma rede de corrupção ligada ao narcotráfico dentro das Forças Armadas da Venezuela. Segundo acusações dos EUA, integrantes do alto escalão militar e político teriam facilitado o transporte de cocaína por território venezuelano, em parceria com grupos armados da região, como as Farc. Os norte-americanos chegaram a sustentar que o esquema funcionaria como um cartel estruturado, liderado por Maduro.
Especialistas e críticos, porém, afirmam que o termo não se refere necessariamente a uma organização criminosa formal. A expressão veio a tona na década de 1990 como uma designação coloquial, usada pela imprensa e por investigadores venezuelanos para descrever militares corruptos —em alusão aos sóis exibidos nas insígnias de oficiais de alta patente. A acusação reformulada pelo Departamento de Justiça dos EUA adota esse entendimento e passa a tratar o Cartel de los Soles como um sistema difuso de clientelismo e corrupção, sem hierarquia definida.
Em outros países da América Latina, o caso é visto com cautela. Relatórios de organismos internacionais e agências antidrogas da região não reconhecem o Cartel de los Soles como um cartel formal, e o tema costuma ser tratado mais como um problema estrutural de corrupção estatal do que como uma organização criminosa transnacional nos moldes de cartéis mexicanos ou colombianos.
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro (Colômbia Unida, esquerda), nega a existência do suposto cartel. Ele já afirmou em sua conta em X que “o Cartel de los Soles não existe; é uma desculpa fictícia usada pela extrema-direita para derrubar governos que não obedecem aos interesses norte-americanos”. Segundo Petro, o narcotráfico que passa por Venezuela tem uma estrutura distinta, que ele chamou de “Junta do Narcotráfico”, com líderes que operam na Europa e no Oriente Médio, e não identifica Maduro como líder de qualquer cartel formal.
