Uma eventual administração norte-americana da Venezuela pode fazer com que investimentos e infraestruturas chinesas fiquem nas mãos dos Estados Unidos. No mesmo dia em que anunciou a prisão do presidente Nicolás Maduro (PSUV, esquerda), Donald Trump (Partido Republicano) afirmou que os EUA governarão a Venezuela até que seja feita uma transição “segura, adequada e criteriosa”. Não deu qualquer horizonte de tempo para essa transição e já rechaçou a possibilidade de eleições na Venezuela nos próximos dias.
A China é o principal competidor dos EUA em quase todos os mercados mundiais e ter o governo da Venezuela pode dar uma vantagem aos norte-americanos, pois teria em seu poder uma infraestrutura montada pelos chineses ao longo de décadas nos setores de petróleo e de telecomunicação.
As parcerias entre Venezuela e China se intensificaram no início dos anos 2000 com a chegada de Hugo Chávez (PSUV, esquerda) ao poder. Chávez visitou a China 9 vezes enquanto foi presidente da Venezuela e os países firmaram uma série de acordos comerciais que consistiam no financiamento chinês para o desenvolvimento da indústria venezuelana com a contrapartida sendo o petróleo sul-americano.
Segundo um artigo publicado em 2024 pelo pesquisador da Universidade Middlesex, no Reino Unido, Francisco Dominguez, de 2000 a 2018, a Venezuela recebeu um financiamento de US$ 67 bilhões de instituições financeiras chinesas. Esse valor representava 48% de todos os empréstimos chineses para a América Latina.
Já de 2008 a 2020, a Venezuela tinha 29,6% de todos os projetos realizados pela China na América Latina na esteira do programa chinês da Nova Rota da Seda. Leia a íntegra do documento (PDF – 244 kB, em inglês).
No setor petroleiro, foi criada em 2008 a PetroSinovesa, uma joint-venture entre as estatais PDVSA e CNPC (China National Petroleum Corporation). A PetroSinovesa participa da operação de diversos campos de petróleo no país sul-americano e é o principal braço chinês nas vastas reservas venezuelanas.
Em 2024, a petroleira chinesa China Concord Resources Corporation assinou um acordo na Venezuela para a exploração de 2 campos venezuelanos por 20 anos. O investimento será de US$ 1 bilhão e a meta é atingir uma produção nesses ativos de 60.000 barris por dia no final deste ano. A companhia chinesa iniciou a operação em agosto de 2025.
Trump já declarou que os EUA têm interesse em dar espaço para as petroleiras norte-americanas explorarem a Venezuela. O republicano sugeriu que a vinda de petróleo venezuelano para os EUA seria uma forma de “reembolso” pelos “danos” causados pela Venezuela à indústria petroleira norte-americana nas últimas décadas.
Já no setor de telecomunicação, a China tem uma parceria com a Venezuela para o lançamento de satélites desde 2008. Foram feitos ao menos 3 lançamentos –2008, 2013 e 2017. O país asiático também participou da construção da única instalação ativa de satélites de sensoriamento remoto da Venezuela, na base aérea Capitão Manuel Rios, em Guárico. Empresas como Huawei e ZTE também têm contratos vigentes no país para o desenvolvimento de redes de 4G e sistemas digitais.
