O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), atribuiu o avanço da violência no Estado à atuação do crime organizado em escala nacional e defendeu maior presença da União no controle de fronteiras, ao afirmar que armas e drogas entram no território baiano apesar de o Estado não produzir nem armamentos nem entorpecentes. Em entrevista à revista Veja, disse que a Bahia registra volumes elevados de apreensões e que o enfrentamento ao problema exige coordenação federal, além da responsabilidade dos governos estaduais.
“Em números absolutos, a Bahia tem mais assassinatos que São Paulo e Rio de Janeiro. O que está havendo? A segurança pública requer responsabilidade dos Estados, mas é preciso a mão organizadora da União”, afirmou. Segundo o governador, a ausência de indústrias de armas e de laboratórios de drogas no Estado reforça a tese de que os insumos do crime chegam de fora. “A cada operação, temos grandes quantidades de fuzis apreendidos. Constantemente encontramos volumes de entorpecente muito grandes”, disse.
Jerônimo afirmou que a gestão estadual tem investido na ampliação da estrutura policial, com contratação de agentes, compra de viaturas, câmeras e equipamentos de inteligência, além da construção de delegacias e pelotões. Ele afirmou que o governo também atua na área social, com escolas de tempo integral e serviços públicos de saúde e assistência social em comunidades mais violentas, em combinação com operações policiais de enfrentamento às facções.
Ao comentar a letalidade policial, o governador rejeitou a ideia de que o Estado deva agir de forma equivalente ao crime organizado. Em 2025, a Bahia registrou 1.490 mortes decorrentes de ações policiais, número superior à soma de São Paulo e Rio de Janeiro no mesmo período. Para ele, a mensagem do governo é de redução desses indicadores sem abrir mão do combate ao crime. “O Estado não pode ser um Estado matador. Nosso conceito de Estado é o de protetor da sociedade”, declarou. Segundo Jerônimo, “bandido bom é bandido preso e entregue à Justiça”, para que seja julgado, condenado e cumpra pena em ambiente de ressocialização.

O governador afirmou que o governo busca corrigir práticas policiais, com fortalecimento de corregedorias e ouvidorias, e citou o lançamento do programa ‘Bahia pela Paz’, voltado à formação diferenciada de policiais. A iniciativa envolve Assembleia Legislativa, Tribunal de Justiça, Ministério Público, Defensoria Pública, órgãos de direitos humanos, universidades e pesquisadores. Ele também defendeu a ampliação do uso de câmeras corporais, como instrumento de proteção tanto para profissionais de segurança quanto para a população. “O agente é um servidor público e tem a obrigação de prestar contas dos seus atos à sociedade”, disse.
Questionado sobre o discurso da esquerda na área de segurança, Jerônimo afirmou que não vê preconceito em defender um Estado forte, com polícia atuante, operações, investigação e inteligência. “O crime organizado tem armamentos potentes. O Estado também precisa ter para enfrentá-lo”, afirmou, ao mesmo tempo em que reiterou preferência por investimentos em educação, cultura e serviços públicos.
No campo político, Jerônimo confirmou novamente a pré-candidatura à reeleição e reconheceu que aparece atrás de ACM Neto (União Brasil-BA) nas pesquisas eleitorais. Ele relativizou os levantamentos e disse que eleições dependem do cenário nacional. “Não existe eleição fácil”, afirmou, ao citar melhora na avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Bahia e lembrar que, em disputas anteriores, o PT venceu apesar de resultados desfavoráveis nas sondagens.
O governador disse manter diálogo frequente com Lula e com o Ministério da Justiça sobre segurança pública e defendeu a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança, com autonomia das polícias, financiamento federal e padronização de dados. Ao avaliar os quase 20 anos de governos do PT no Estado, Jerônimo citou avanços em saúde, educação e infraestrutura, como a expansão de escolas de tempo integral e hospitais de alta complexidade, mas reconheceu desafios, entre eles a pobreza, que ainda atinge 46% da população baiana, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Para ele, a segurança pública será um dos principais temas das eleições de 2026, ao lado da geração de empregos e do combate à pobreza. “A segurança pública é uma questão que tem que ser apropriada por todos, independentemente de ideologia”, afirmou.
