Na fronteira com a Venezuela, Pacaraima convive com impactos humanitários, econômicos e culturais da migração, enquanto moradores e migrantes relatam desafios, adaptações e expectativas diante da instabilidade no país vizinho.

A 215 quilômetros de Boa Vista, a rotina do pequeno município foi profundamente alterada pelo fluxo migratório. Desde 2015, mais de 1,1 milhão de venezuelanos entraram no Brasil por Pacaraima, segundo estimativas oficiais, número expressivo diante de uma população local estimada em cerca de 19 mil habitantes, de acordo com o Censo 2022.
Somente em 2025, mais de 96 mil novos migrantes cruzaram a fronteira pelo município. Em outubro do ano passado, foram registradas mais de 11 mil entradas, conforme dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), reforçando a pressão constante sobre os serviços locais.
Rotina impactada pela migração
Apesar do intenso movimento, a Prefeitura de Pacaraima informou que a cidade segue em tranquilidade, com comércio funcionando normalmente. A gestão municipal afirma que acompanha os desdobramentos da situação na Venezuela e mantém diálogo permanente com as forças de segurança e órgãos federais.

A crise venezuelana transformou o cotidiano da cidade. É comum ver famílias atravessando a fronteira a pé, carregando mochilas, sacolas e crianças pequenas. Muitos buscam alimentação, oportunidades de trabalho e acesso a serviços básicos de saúde, inexistentes ou escassos no país de origem.
Entre eles está José González, de 48 anos, natural de Maturín. Trabalhador autônomo, ele entrou no Brasil dias antes dos mais recentes episódios de instabilidade política. Para José, deixar a Venezuela não significa rejeição, mas a dor de abandonar um lugar que já não oferece segurança.
Vozes de quem cruza a fronteira
“O que sentimos é dor pelo nosso país. A Venezuela nos dói”, afirmou. Segundo ele, a instabilidade atinge diferentes regiões e provoca medo, mas também a esperança de uma solução pacífica. “Quem sofre sempre é o povo inocente”, disse.
No mesmo ano, o governo federal criou a Operação Acolhida, coordenada pelo Exército, para organizar a recepção de migrantes. A iniciativa passou a oferecer triagem, vacinação, regularização documental e interiorização para outros estados brasileiros.
Adaptação e novos desafios
Desde então, a presença de abrigos, equipes de saúde, militares e organizações humanitárias tornou-se permanente. Ainda assim, muitos venezuelanos vivem fora das estruturas oficiais, alugando quartos, ocupando imóveis ou trabalhando no comércio formal e informal.

A cidade também passou por mudanças econômicas. Pacaraima foi o município que mais cresceu proporcionalmente em Roraima na última década. O intenso fluxo populacional elevou, por exemplo, a adesão ao PIX em 550%, com cerca de 106 mil usuários mensais, segundo levantamento da FGV.
Hoje, o espanhol é ouvido com frequência nas ruas. Venezuelanos atuam em supermercados, restaurantes, oficinas e hotéis. Elizabeth Rincón, de 39 anos, chegou há poucas semanas e relata apreensão com o futuro. “Não sabemos o que vai acontecer agora”, disse. Mesmo após conseguir contato com a família, ela resume o sentimento comum entre os migrantes: incerteza e esperança de dias mais estáveis.
Referências da notícia
Portal Amazônia. Pacaraima, a cidade roraimense que recebe venezuelanos em meio à crise do país vizinho. 2025
