A iraniana Melika Barahimi, 23 anos, compartilhou uma imagem nas redes sociais que acabou se tornando simbólica das manifestações que ocorrem no Irã desde 28 de dezembro. No vídeo, ela aparece em um estacionamento acendendo um cigarro nas chamas de uma fotografia do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã.
Além de protestar contra o regime teocrático, o ato também faz uma defesa dos direitos das mulheres –grupo para o qual fumar é um ato estigmatizado na sociedade iraniana.
Assista ao vídeo de Barahimi, gravado no Canadá (26s):
An Iranian girl burns a picture of Ayatollah Khamenei and lights her cigarette, a new trend in Iran!
Young Iranian women are leading the revolution against the Islamic regime.
— Dr. Maalouf (@realMaalouf) January 10, 2026
Em entrevista à agência Lusa, feita por mensagens trocadas no X, Barahimi, que vive perto de Toronto, no Canadá, disse que gravou as imagens para prestar solidariedade aos compatriotas, mas que não esperava que o vídeo viralizasse.
“Queria que fosse compartilhada entre o meu povo, porque quero que saibam que ainda sou um deles, apesar de ter sido obrigada a imigrar depois de o regime ter me condenado a anos de prisão por criticar Khamenei”, declarou. “Agora, estou preocupada que possam ameaçar a minha família”.
Depois que o vídeo se popularizou, o gesto de Barahimi foi imitado por outras mulheres, que, assim como ela, provavelmente vivem fora do Irã.
Barahimi relatou que foi detida pela 1ª vez aos 17 anos, durante manifestações em novembro de 2019. A 2ª prisão veio em 2024, quando publicou comentários no Instagram após a morte do presidente Ebrahim Raisi (1960-2024). “Como eu estava sob vigilância da República Islâmica, fui detida na minha própria casa em Isfahan dias depois”, disse à Lusa.
Após sua libertação sob fiança, a iraniana fugiu para a Turquia, de onde conseguiu um visto de estudante para o Canadá.
Essa não é a 1ª vez que mulheres iranianas chamam atenção do mundo em protestos. Em 2022, após a morte de Mahsa Amini, jovem curda de 22 anos, muitas mulheres realizaram atos simbólicos como o de cortar o cabelo ou queimar os seus hijabs. Amini, que foi presa sob a acusação de usar o hijab (véu) de maneira inadequada, morreu na prisão. Sua morte provocou protestos no país, reprimidos com força.
De acordo com os dados mais recentes divulgados no domingo (11.jan.2026), os protestos no Irã já deixaram ao menos 544 mortos. A principal motivação é a grave crise econômica no país, com inflação elevada, desvalorização acentuada da moeda e aumento dos preços de bens essenciais.
Com o passar dos dias, centenas de pessoas se juntaram aos atos, exigindo reformas políticas e judiciais e reivindicando maior liberdade.
O aiatolá Ali Khamenei comanda o Irã desde 1989. O país é uma teocracia islâmica xiita que concentra poder absoluto no líder supremo, cargo vitalício com autoridade sobre todos os Poderes constitucionais. O regime, baseado na Sharia (lei islâmica), impõe restrições severas às mulheres, como uso obrigatório de hijab a partir dos 9 anos e necessidade de autorização marital para viagens internacionais. A oposição permanece fragmentada entre monarquistas exilados, a MEK (Organização dos Mujahideen do Povo), minorias étnicas e movimentos de protesto reprimidos, sem liderança unificada.
