A Boeing fechou 2025 com mais encomendas de aeronaves comerciais do que a rival Airbus, algo que não acontecia desde 2018. A fabricante norte-americana informou ter registrado 1.075 pedidos brutos ao longo do ano, já descontados cancelamentos e conversões, enquanto a empresa europeia reportou 1.000 encomendas no mesmo período.
O desempenho marcou um ponto de virada para a Boeing, que também elevou sua carteira oficial de pedidos de 6.019 aeronaves no fim de novembro para 6.130 ao encerrar dezembro. No volume de entregas, a empresa colocou 600 aviões comerciais em operação ao longo do ano, o maior total anual desde 2018. A Airbus entregou 793 aeronaves em 2025, superando por margem estreita uma meta revisada para baixo anunciada em dezembro.
Desde 2018, a Boeing vinha enfrentando sucessivos abalos, iniciados com 2 acidentes fatais envolvendo o modelo 737 Max na Indonésia e na Etiópia. Mais recentemente, em janeiro de 2024, um incidente com um 737 Max da Alaska Airlines, quando um painel da fuselagem se soltou em pleno voo, voltou a colocar a empresa sob forte escrutínio. As informações são do Financial Times.
A Alaska Airlines, inclusive, anunciou na 4ª feira (7.jan) ter feito uma encomenda de 110 aviões da Boeing. É o maior pedido de aeronaves da história da empresa e faz parte de um plano para expandir rotas domésticas e internacionais.
A chegada de Kelly Ortberg ao comando, em agosto de 2024, ajudou a estabilizar a companhia. Segundo a própria Boeing, o executivo reforçou as finanças, melhorou as relações industriais e trouxe maior previsibilidade à produção do 737 Max. O avanço foi reconhecido por autoridades regulatórias: em setembro, a Federal Aviation Administration autorizou a empresa a emitir certificados de aeronavegabilidade para os modelos 737 Max e 787 Dreamliner, algo que não ocorria desde 2019 e 2022. No mês seguinte, o órgão elevou o teto de produção mensal do 737 Max de 38 para 42 unidades.
Em dezembro, a Boeing concluiu a compra da Spirit AeroSystems por US$ 4,7 bilhões, incorporando a fornecedora responsável pelo painel envolvido no incidente da Alaska Airlines. Em mensagem a funcionários, Ortberg destacou os avanços recentes, mas disse que a empresa ainda tem “trabalho importante pela frente”.
O movimento de recuperação também se refletiu no mercado financeiro: as ações da Boeing subiram 2,7% em 1 sessão e acumulam valorização de quase 45% em 12 meses. Parte das encomendas de dezembro veio de um pedido histórico da Alaska Airlines, que comprou 105 aviões 737 e 5 unidades do 787.
Além da retomada operacional, a Boeing se beneficiou de um contexto político favorável. Países interessados em fortalecer relações comerciais com os Estados Unidos — muitas vezes sob ameaça de tarifas elevadas — anunciaram encomendas expressivas de aeronaves norte-americanas. A Qatar Airways confirmou, em maio, um acordo para até 210 aviões, incluindo 130 Dreamliners e 30 modelos 777X, avaliado em US$ 96 bilhões e assinado durante visita do presidente Donald Trump (Partido Republicano) ao país.
No mesmo ano, o Japão acertou a compra de 100 aeronaves da Boeing como parte de um acordo comercial com Washington. Pouco depois, a Korean Air anunciou a maior encomenda de sua história, com 103 aviões, logo após reunião do presidente sul-coreano com Trump na Casa Branca.
No último balanço da empresa, a Boeing teve prejuízo líquido de US$ 5,34 bilhões no 3º trimestre de 2025 –queda de 12% em relação aos US$ 6,17 bilhões do mesmo período do de 2024, segundo balanço divulgado em outubro.
Do lado europeu, o tom foi de reconhecimento. Christian Scherer, chefe da divisão de aviação comercial da Airbus em fim de mandato, disse a jornalistas que é “inegável” que a Boeing se beneficiou de apoio político no período.
