Uma trufa Sapucay de 213 g encontrada no Rio Grande do Sul virou recorde e chamou atenção pelo preço. Entenda o que é fungo subterrâneo, por que custa caro e o que o achado indica ao Brasil.

Na primeira semana de janeiro, um achado no interior do Rio Grande do Sul colocou a palavra “trufa” no centro das conversas fora dos restaurantes caros. Uma trufa da variedade Sapucay, encontrada em um pomar de nogueiras-pecã em Encruzilhada do Sul (Vale do Rio Pardo), pesou 213 gramas, um tamanho incomum para um ingrediente que costuma aparecer em lascas pequenas.
Mais do que um recorde, a notícia serve para responder perguntas que muita gente faz: trufa é um “cogumelo”? Por que é tão rara? E o que um achado desses diz sobre o futuro desse mercado no Brasil? Diferente de frutas e grãos, ela não “aparece” no olhar: fica escondida junto às raízes e só surge quando o manejo e a busca estão afinados.
Trufa não é chocolate: o que ela é de verdade
Trufa aqui não tem nada a ver com doce. É um fungo comestível que cresce debaixo da terra e vive em parceria com raízes de árvores, numa relação chamada micorriza. Em vez de aparecer na superfície, o corpo da trufa se forma no subsolo e libera aromas intensos quando amadurece, é isso que a torna tão desejada na cozinha.

Quando chega ao ponto, o cheiro funciona como um “anúncio” no ambiente: ajuda a atrair animais, que cavocam e acabam espalhando esporos. A Sapucay encontrada no Sul está associada a pomares de nogueira-pecã, o que ajuda a explicar por que o Rio Grande do Sul aparece como vitrine dessas descobertas. Ela tem parentesco com espécies norte-americanas e perfil aromático próprio, diferente das trufas europeias mais famosas.
Por que uma trufa pode custar milhares de reais
O preço não vem só do glamour. Ele é resultado de biologia e logística: trufas dependem de condições específicas de solo e umidade e não surgem de forma garantida, mesmo em áreas bem manejadas.
Alguns fatores que empurram o valor para cima são:
- Raridade: nem todo pomar produz, e a produção varia de ano para ano.
- Difícil de localizar: está escondida no subsolo e pode passar despercebida.
- Perecibilidade: aroma e textura se degradam rápido sem conservação adequada.
- Mercado seletivo: a demanda é concentrada na alta gastronomia.
O recorde gaúcho reforça essa lógica: a trufa “padrão” costuma ser bem menor, e uma peça acima de 200 gramas vira exceção absoluta. Para comparação, o recorde brasileiro anterior era de 134 gramas, encontrado no próprio estado em 2021, um lembrete de como esses achados ainda são raros e dependem de bons olhos, técnica e um pouco de sorte.
O que esse achado sinaliza
Para o Brasil, a notícia vai além da curiosidade: ela aponta para uma agricultura de valor agregado. Trufas podem virar renda complementar em áreas com pecã e outras árvores hospedeiras, desde que haja manejo de solo, rastreabilidade e boas práticas de colheita e armazenamento. Também abrem espaço para turismo gastronômico e identidade culinária regional.
O desafio é transformar exceções em cadeia consistente: pesquisa para entender melhor as espécies brasileiras, capacitação de produtores e logística refrigerada para preservar o aroma do campo até o prato. Se esses pontos avançarem, a trufa Sapucay de 213 gramas deixa de ser apenas manchete e vira sinal de que o “diamante da terra” pode, sim, ser brasileiro.
