Nos últimos anos, o Brasil vem enfrentando um problema que deveria alarmar toda a sociedade, o declínio sistemático dos níveis de leitura na população. Segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro em parceria com a Fundação Itaú e outras instituições, mais da metade dos brasileiros (53%) não leu sequer um livro inteiro ou em partes nos três meses anteriores à pesquisa. Esse número representa a maior proporção de “não leitores” desde o início da série histórica, com uma perda de quase 7 milhões de leitores nos últimos quatro anos. Pela primeira vez, a proporção de não-leitores supera a de leitores no país.
Esses dados não são apenas um reflexo de hábitos culturais, eles estão diretamente relacionados à formação educacional e ao desempenho escolar dos brasileiros, que em avaliações internacionais de competência leitora não têm mostrado avanços significativos. No Estudo Internacional de Progresso em Leitura (PIRLS), aplicado a estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental, quase 40% dos alunos brasileiros não dominam habilidades básicas de leitura, ou seja, têm dificuldade até para recuperar e reproduzir informação explícita de textos. Enquanto isso, em muitos países, esse percentual não chega a 5%.
Outras análises também revelam que a maioria dos estudantes brasileiros lê textos extremamente curtos ao longo do ano escolar. Um estudo com dados do Pisa demonstrou que, entre jovens de 15 a 16 anos, mais de 66% afirmaram que o texto mais longo lido no ano não ultrapassou 10 páginas, e apenas 9,5% disseram ter lido algo com mais de 100 páginas. Isso ocorre em um contexto em que leitura não é apenas lazer, mas ferramenta essencial para construção de conhecimento em todas as disciplinas.
Esses indicadores mostram que o problema da leitura no Brasil não é apenas quantitativo, relacionado a pouco consumo de livros, mas qualitativo, pois há dificuldades reais na compreensão aprofundada de textos, um pilar para o sucesso escolar e profissional.
Uma indagação importante é, por que ler importa? Bem. A leitura é o alicerce da aprendizagem. Ela não só permite acesso a conteúdos literários, como também habilita os estudantes a compreender conceitos em matemática, ciências, história e demais áreas do conhecimento. Países com fortes sistemas educacionais não apenas incentivam a leitura frequente, mas integram práticas de compreensão textual em todas as disciplinas, elevando habilidades cognitivas críticas como inferência, análise e interpretação.
O Banco Mundial chegou a estimar, em relatório de 2018, que o Brasil levaria cerca de 260 anos para atingir os níveis educacionais dos países mais desenvolvidos em leitura, se continuasse no ritmo atual de evolução. A conclusão é baseada em comparações de desempenho em avaliações como o Pisa ao longo das décadas.
Mesmo com a presença de políticas públicas voltadas à promoção da leitura, como o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), criado no Brasil em 2006 para fomentar hábitos leitores e fortalecer a cadeia do livro, o consumo de leitura não cresceu nos níveis esperados, seja pela dificuldade de acesso, seja pela falta de estímulo contínuo desde a educação básica até a vida adulta.
Além disso, questões socioeconômicas profundas incidem diretamente no desempenho em leitura. Os alunos de famílias com menor renda tendem a apresentar níveis significativamente piores de aprendizado em leitura, ampliando disparidades já existentes e limitando oportunidades.
Uma parte da explicação para os desafios atuais pode ser encontrada não apenas nas práticas escolares, mas nas diferentes formas como as gerações aprendem — e como as escolas não se adaptaram adequadamente às novas demandas cognitivas e tecnológicas. Como quadro comparativo, apresento um resumo de como cada geração aprende.
A geração conhecida como Baby Boomers (nascidos aproximadamente entre meados da década de 1940 e meados da década de 1960) cresceu em um mundo pré-digital, onde o aprendizado ocorria de forma linear, com livros físicos, aulas presenciais e processos sequenciais de memorização e avaliação. Essa geração valoriza metodologias estruturadas com começo, meio e fim, e prefere programas de ensino tradicionais e presença física como meio principal de aprender.
A Geração X (nascidos entre os anos 1965 e 1980) testemunhou a transição entre o mundo analógico e o digital. Eles valorizam um equilíbrio entre métodos tradicionais e o uso de tecnologia, aprendendo tanto de forma presencial quanto por meio de ferramentas online. Já os Millennials (ou Geração Y, nascidos entre 1981 e 1996) já cresceram em um ambiente de grande fluxo de informações e estão mais confortáveis com métodos híbridos e colaborativos de aprendizado, como vídeo aulas, compartilhamento online e gamificação.
Os membros da Geração Z (nascidos entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2010) são, por definição, nativos digitais, ou seja, nunca conheceram um mundo sem internet e tecnologia onipresente. Eles consomem informação por meio de smartphones, vídeos curtos, jogos e plataformas interativas, e tendem a aprender de forma não linear, navegando rapidamente entre fontes e formatos. Para essa geração, métodos tradicionais, centrados em textos longos e exposição prolongada sem interação, podem ser menos eficazes. Outras pesquisas sobre estilos de aprendizagem sugerem que conteúdos multimídia, interatividade e feedback imediato estão entre os fatores que propiciam maior engajamento e retenção de informação para aprendizes modernos.
Por ultimo, agora em formação, a Geração Alfa (nascidos a partir do início da década de 2010) está crescendo em um ambiente ainda mais imerso em tecnologia do que qualquer geração anterior. Eles são a primeira geração a não conhecer um mundo sem smartphones, tablets e conexões constantes, o que promete transformar ainda mais os métodos de aprendizagem. Essa geração tende a ter expectativas diferentes em relação ao ensino, integrando desde cedo elementos visuais, interativos e de imersão digital em seu processo cognitivo.
O problema crítico não é apenas que o Brasil lê menos, mas que o sistema educacional brasileiro, em grande parte, permanece preso a métodos tradicionais de ensino, enquanto as formas de aprender das gerações mais novas mudam rapidamente. As escolas muitas vezes ainda valorizam leitura extensa de textos lineares, memorização de conteúdos e avaliações de longo formato, enquanto os estudantes modernos crescem em uma cultura de micro-informação, vídeos curtos e interatividade digital. Essa desconexão cria um hiato entre como se ensina e como se aprende, prejudicando o engajamento dos alunos mais jovens.
Vários estudos educativos internacionais indicam que práticas pedagógicas que incorporam conteúdos multimídia, jogos educativos, aprendizagem baseada em projetos, feedback imediato e personalização podem melhorar o desempenho de alunos que estão inseridos em um ambiente digital desde a infância. Técnicas como microlearning (aprendizagem em pequenas unidades de conteúdo adaptado ao ritmo do aluno) têm sido defendidas como métodos capazes de aumentar o interesse e a efetividade do aprendizado, especialmente entre as gerações digitais. Ainda, pesquisas no Brasil também apontam que professores estão interessados em utilizar recursos tecnológicos como ferramentas pedagógicas, inclusive inteligência artificial, mas esbarram em limitações de infraestrutura, formação e apoio institucional.
A abordagem motivadora deste texto, se deu após profundos estudos sobre os desafios do aprendizado na 4ª Revolução Industrial, e, quando vereador de Oiapoque-AP, tive a oportunidade de discuti-lo mais profundamente no âmbito da ampliação social. Na oportunidade, apontei algumas alternativas para ajudar o Amapá na mudança metodológica do aprendizado. Dentre elas estavam:
- Atualização das metodologias de ensino: Introduzir abordagens híbridas que combinem leitura tradicional com conteúdo multimídia, gamificação, projetos colaborativos e uso de tecnologias digitais. Isso não significa abandonar textos e livros, mas integrá-los a contextos mais dinâmicos e relevantes;
- Formação continuada de professores: Investir em capacitação docente para que educadores compreendam as novas formas de aprender das gerações atuais e saibam utilizar ferramentas que ampliem o engajamento e a compreensão;
- Políticas públicas consistentes: O Brasil precisa de políticas que incentivem a leitura desde a educação infantil até a vida adulta, fomentando bibliotecas, clubes de leitura, acesso a livros e programas que integrem leitura com cultura digital;
- Foco na equidade: As disparidades socioeconômicas têm efeitos profundos no acesso e desempenho em leitura. Políticas educativas devem priorizar recursos e apoio a escolas e comunidades mais vulneráveis.
Conclui-se, que as diferenças geracionais em estilos e formas de aprendizagem realçam que não basta apenas diagnosticar o problema, é preciso adaptar a educação às realidades e expectativas cognitivas de cada geração, a fim, de sermos capazes de formar cidadãos críticos, informados e preparados para os desafios do século XXI.
Meu conselho, leia mais.
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