Assinado em janeiro de 2026, o acordo Mercosul–UE promete reduzir tarifas e ampliar acesso ao mercado europeu aos poucos. Veja por que café industrializado, açúcar e etanol podem ganhar competitividade e quais exigências podem frear os ganhos.

A assinatura do acordo Mercosul–União Europeia em 17 de janeiro de 2026 reacendeu uma pergunta prática: o que o Brasil pode vender com mais facilidade para a Europa? Em essência, o acordo reduz tarifas e organiza regras para dar mais previsibilidade ao comércio entre os blocos.

No agro, porém, a abertura não é “tudo tarifa zero”. Há prazos de transição, volumes limitados por cotas e a necessidade de ratificação para as mudanças entrarem em vigor. Ainda assim, café, açúcar e etanol aparecem como cadeias que podem sentir vantagem competitiva mais cedo.
Café: a virada está no industrializado
O benefício mais interessante não está no grão verde, que já costuma ter acesso favorável ao mercado europeu, e sim nos cafés de maior valor agregado. Hoje, café torrado/moído e café solúvel enfrentam tarifas na casa de 7,5% a 9% (com variações conforme a categoria). A eliminação gradual dessas alíquotas tende a tornar o café processado brasileiro mais competitivo.

Quando o imposto cai, muda o incentivo dentro do Brasil: cresce o espaço para exportar, solúvel, cápsulas e marcas próprias, em vez de apenas matéria-prima. Isso exige padronização, qualidade, logística e certificações, e o debate público sobre o acordo menciona regras de origem para acesso ao benefício, reforçando a necessidade de cadeias organizadas e rastreáveis.
Açúcar e etanol entram “com limite”
Na cana, o acordo atua em duas frentes. No açúcar, a preferência vem por quota: a Comissão Europeia afirma que não cria uma nova quota para o Brasil, mas permite que 180 mil toneladas de açúcar bruto de cana para refino entrem com tarifa zero dentro de um volume já previsto; há ainda uma quota adicional de 10 mil toneladas para o Paraguai, e açúcares especiais ficam fora.
No etanol, a arquitetura é mais robusta e separa usos industriais de outros usos:
- 450 mil toneladas com tarifa zero para etanol destinado à indústria química.
- 200 mil toneladas para outros usos, com tarifa dentro da quota equivalente a um terço da tarifa cheia (o que pode atender também o segmento de combustível).
- As duas quotas entram gradualmente ao longo de cinco anos, segundo a UE e o Itamaraty.
Ganhar mercado exige preparo
A vantagem tarifária só vira resultado quando se transforma em venda recorrente. Para o café, o caminho é ampliar exportações de industrializados e disputar espaço em prateleira europeia, onde consistência, origem e marca pesam muito.
Quem já tem escala, contratos e logística eficiente tende a capturar primeiro a janela.
Today, the EU and Mercosur take a huge leap forward.
With this Agreement, we are not creating spheres of influence, but spheres of shared prosperity.
For more than 700 million citizens. For thousands of companies. For our joint future.
Together, we are stronger.
This is not pic.twitter.com/iz55NAUsYn
— António Costa (@eucopresident) January 17, 2026
O desafio é que “porta aberta” não significa “entrada automática”. O acordo segue cercado por disputas políticas na Europa e pode acionar instrumentos de defesa comercial, e a agenda de rastreabilidade continua avançando.
Para café, por exemplo, a regulação europeia antidesmatamento teve o prazo adiado: passa a valer em 30 de dezembro de 2026 (com mais tempo para micro e pequenas empresas).
Referência da notícia
EU and Mercosur sign historic and ambitious partnership. 16 de Janeiro, 2026. European Commission.
