O presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou na 5ª feira (22.jan.2026) que “só o Reino da Dinamarca e a Groenlândia podem decidir sobre as questões relativas à Dinamarca e à Groenlândia”.
A declaração, feita após uma reunião informal dos integrantes do Conselho Europeu, se dá em um contexto de disputa em torno da Groenlândia, em razão dos esforços dos Estados Unidos para anexar o território.
O Reino da Dinamarca, do qual a Groenlândia faz parte, é integrante da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). O país europeu estabeleceu controle colonial sobre a ilha no século 18 e concedeu autonomia no século 20.
Costa reafirmou o “firme compromisso” do Conselho Europeu com os “princípios do direito internacional, da integridade territorial e da soberania nacional”, que, segundo ele, são fundamentais para a Europa.
“Nesse contexto, o anúncio feito ontem [4ª feira, 21.jan] de que não haverá novas tarifas dos Estados Unidos sobre a Europa é positivo. A imposição de tarifas adicionais teria sido incompatível com o acordo comercial entre a UE e os EUA”, afirmou.
Na semana passada, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano) anunciou a imposição de tarifas adicionais para 8 integrantes da Otan que se opunham à compra da Groenlândia pelos Estados Unidos. Depois, ele recuou. Segundo Trump, houve avanços nos acordos com a Otan a respeito da Groenlândia. Não foram fornecidos, no entanto, detalhes a que avanços se referiu.
Costa acrescentou que o bloco europeu continuará a trabalhar com os EUA, ao mesmo tempo em que vai trabalhar para “defender os seus interesses e a proteger a si própria seus Estados-membros, seus cidadãos e suas empresas contra qualquer forma de coerção. Ela dispõe do poder e dos instrumentos necessários para fazê-lo e o fará se e quando for necessário”.
EUA & GROENLÂNDIA
Controlar a Groenlândia não é uma vontade nova de Trump. Ele já havia manifestado interesse na região em 2019, durante seu 1º mandato à frente dos EUA, e depois em dezembro de 2024, antes de tomar posse para um 2º mandato.
O republicano já disse que se não controlar a Groenlândia “do jeito fácil”, então será do “jeito difícil”. Afirmou também, dias depois de os EUA capturarem Nicolás Maduro em uma ação militar na Venezuela, que “não precisa do direito internacional” e que seu poder é limitado apenas por sua “própria moralidade“.
Trump alega que a Groenlândia é fundamental para a segurança nacional dos EUA, para afastar a “ameaça russa” e citou a construção do Domo de Ouro, sistema de defesa para proteger o país de mísseis. O custo estimado do Domo de Ouro é de US$ 175 bilhões.
Além das ameaças de controlar a região à força, Trump também avalia comprar a Groenlândia e oferecer pagamentos diretos aos moradores da ilha. O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, declarou em 13 de janeiro que o território autônomo escolheria seguir ligado à Dinamarca, e não aos EUA.
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CONSELHO DA PAZ
Costa também falou sobre a criação do Conselho da Paz, iniciativa de Trump oficialmente lançada durante o Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça). Segundo o presidente do Conselho Europeu, o órgão tem “sérias dúvidas sobre alguns elementos” apresentados na carta de princípios do Conselho da Paz.
Costa afirmou que as dúvidas concernem “ao escopo” do Conselho da Paz, “sua governança e compatibilidade com a Carta da ONU [Organização das Nações Unidas]”.
Na 5ª feira (22.jan), Trump lançou oficialmente o Conselho da Paz, para o qual convidou dezenas de líderes de países em todo o mundo. Quando aprovado em novembro pelo Conselho de Segurança da ONU, o Conselho da Paz tinha sua atuação restrita ao plano para encerrar o conflito entre Israel e Gaza.
Porém, ao longo das últimas semanas, ficou claro que Gaza refere-se a uma pequena parte dos objetivos do novo organismo. O Conselho da Paz vocaciona assumir o papel de polícia do mundo e pretende envolver-se em conflitos no geral–ofuscando o papel da própria ONU. Até o emblema do Conselho da Paz foi comparado ao das Nações Unidas.
“Estamos prontos para trabalhar junto com os EUA na implementação de um Plano de Paz para Gaza abrangente, com o Conselho de Paz cumprindo sua missão de administrar a transição, em acordo com a Resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU”, declarou Costa. A resolução 2803 foi aprovada em novembro por 13 integrantes do Conselho de Segurança. China e Rússia se abstiveram. Eis a íntegra do documento, em inglês (PDF – 186 KB).
Costa acrescentou que a próxima reunião de líderes europeus, marcada para 12 de fevereiro, servirá para um debate mais detalhado para a construção de uma Europa mais autônoma.
CONSELHO DA PAZ DE TRUMP
Trump anunciou a criação do Conselho de Paz em 15 de janeiro. Embora a medida seja parte de um plano para acabar com os conflitos na Faixa de Gaza, o norte-americano já sinalizou que o órgão não será temporário. Afirmou em 20 de janeiro que o grupo poderia assumir o papel que hoje pertence à ONU.
Trump é a única autoridade com poder de veto no Conselho da Paz. Há apenas duas menções a “veto” no documento de criação do órgão:
- decisões do Conselho Executivo – o que for decidido por maioria no Conselho Executivo tem efeito imediato, mas está sujeito ao veto do presidente a qualquer momento. Em caso de empate, cabe ao chefe do órgão desempatar a votação;
- saída de integrantes do Conselho da Paz – o presidente pode expulsar um país do grupo, mas essa decisão está sujeita a veto do órgão –é necessário, no entanto, que 2/3 dos integrantes votem contra.
Não há um prazo para o republicano deixar o comando do conselho.
O mandato de Trump é praticamente vitalício. O presidente do Conselho da Paz pode indicar um sucessor e só deixa o cargo se decidir renunciar voluntariamente ou em caso de incapacidade –nesse cenário, a votação do Conselho Executivo precisa ser unânime, ou seja, todos os integrantes precisam votar a favor de remover o republicano.
Autoridades de 18 países estavam com Trump no lançamento do Conselho.
Eis os nomes:
- 1 – Kassym-Jomart Tokayev, presidente do Cazaquistão;
- 2 – Vjosa Osmani-Sadriu, presidente do Kosovo;
- 3 – Shehbaz Sharif, primeiro-ministro do Paquistão;
- 4 – Santiago Peña, presidente do Paraguai;
- 5 – Mohammed bin Abdul Rahman al Thani, primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores do Qatar;
- 6 – Faisal bin Farhan al Saud, ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita;
- 7 – Hakan Fidan, ministro das Relações Exteriores da Turquia;
- 8 – Khaldoon al Mubarak, CEO da Mubadala Investment Company;
- 9 – Shavkat Mirziyayev, presidente do Uzbequistão;
- 10 – Gombojavyn Zandanshatar, primeiro-ministro da Mongólia;
- 11 – Salman bin Hamad bin Isa Al Khalifa, primeiro-ministro do Bahrein;
- 12 – Nasser Bourita, ministro das Relações Exteriores do Marrocos;
- 13 – Javier Milei, presidente da Argentina;
- 14 – Nikol Pashinyan, primeiro-ministro da Armênia;
- 15 – Donald Trump, presidente dos EUA;
- 16 – Ilham Aliyev, presidente do Azerbaijão;
- 17 – Rosen Zhelyazkov, ex-primeiro-ministro da Bulgária;
- 18 – Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria;
- 19 – Prabowo Subianto, presidente da Indonésia;
- 20 – Ayman Safadi, ministro das Relações Exteriores da Jordânia.
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