Desde que o primeiro hominídeo lascou uma pedra para transformá-la em instrumento de caça e defesa, a história da humanidade passou a ser, também, a história das ferramentas. A técnica nasceu como extensão do corpo humano e, com o tempo, tornou-se extensão da mente. Entre nós e as máquinas, construiu-se uma relação simbiótica: o homem cria, a máquina potencializa.
Nas cavernas, o domínio do fogo representou mais que sobrevivência; foi o primeiro salto civilizatório. O fogo aqueceu, iluminou, cozinhou alimentos e reuniu pessoas em torno de histórias, ritos e afetos. Já ali, a tecnologia deixava de ser apenas utilitária para tornar-se cultural. E o poder foi dividindo os grupos, infelizmente, diga-se de passagem.
Séculos depois, a invenção da roda encurtou distâncias, o arado redefiniu a agricultura, a escrita eternizou a memória e a imprensa democratizou o saber. Cada avanço tecnológico provocou rupturas profundas: profissões desapareceram, novas funções surgiram, e o medo do “fim do trabalho” reapareceu como um eco histórico constante. A Revolução Industrial, por exemplo, substituiu braços humanos por engrenagens, gerando progresso, mas também exclusão, desigualdade e conflitos sociais.
No século XXI, vivemos uma aceleração sem precedentes. A eletricidade deu lugar à eletrônica; esta, à informática; e agora avançamos para a era da inteligência artificial, da robótica avançada e da nanotecnologia — ciência capaz de manipular a matéria em escalas invisíveis ao olho humano. Máquinas aprendem, algoritmos decidem, sistemas automatizam tarefas antes consideradas exclusivamente humanas.
É nesse ponto que surge a grande inquietação contemporânea: estará o homem sendo suplantado pela automação? A resposta não é simples. Se, por um lado, funções repetitivas e operacionais estão sendo absorvidas pelas máquinas, por outro, cresce a demanda por competências essencialmente humanas: criatividade, empatia, pensamento crítico, ética, sensibilidade e capacidade de adaptação.
Vivemos em um mundo líquido, como bem definiu Zygmunt Bauman — fluido, instável, em constante transformação. Nada é definitivo, tudo é transitório. A realidade é, e nós nos adaptamos a ela. Resistir à mudança é condenar-se à estagnação; compreender a mudança é abrir-se às novas possibilidades. É tempo novo, é tempo de se reinventar para sermos inteligências reais, não inteligências materiais.
O risco não está nas máquinas, mas na desumanização do próprio ser humano. Um mundo altamente tecnológico, porém, emocionalmente analfabeto, é um mundo doente. O homem que não se humanizar — que não cultivar valores, vínculos, responsabilidade social e consciência coletiva — morrerá no ostracismo, não por falta de emprego, mas por falta de sentido.
Tudo está sendo redirecionado: surgem novas oportunidades, novas profissões, novos modelos de trabalho e um novo tempo histórico. Não se trata de competir com as máquinas, mas de redefinir o que significa ser humano em uma era tecnológica. Entre nós e as máquinas, o futuro não será dos mais rápidos ou dos mais fortes, mas dos mais conscientes, dos mais humanos.
Porque, ao final, a tecnologia pode substituir tarefas — jamais a humanidade.
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