Uma série de estudos científicos recentes alerta que muitos dos principais deltas de rios do mundo estão afundando mais rapidamente do que o nível do mar está subindo. Esse fenômeno, impulsionado em grande parte pela atividade humana, está redefinindo os riscos costeiros e comprometendo a habitabilidade de regiões densamente povoadas.

Durante décadas, a elevação do nível do mar foi considerada o principal fator de risco para áreas costeiras baixas. No entanto, novos estudos mostram que, em muitos deltas ao redor do mundo, o problema é ainda mais complexo, pois o próprio solo está afundando. Esse processo, conhecido como subsidência, está acelerando a perda de altitude em regiões-chave.
Uma análise recente publicada por LA Illuminator isso indica que esse afundamento do solo não ocorre de forma uniforme, mas sim depende de fatores locais como geologia, uso da terra e gestão hídrica. Em diversos deltas, a taxa de afundamento do solo excede em muito a taxa de elevação do nível do mar registrada nas últimas décadas.
Some of the worlds biggest megacities are located in river deltas threatened by subsidence due to excessive groundwater extraction and urban expansion, compounding the threat they face from sea-level rise. https://t.co/V57W9DAyCd
— New Scientist (@newscientist) January 15, 2026
Essa combinação gera o que os cientistas chamam de elevação relativa do nível do mar, uma situação que intensifica o risco de inundações mesmo sem tempestades extremas. O resultado é uma ameaça persistente para cidades, áreas agrícolas e ecossistemas que historicamente se desenvolveram nesses ambientes ribeirinhos.
Um problema global com causas locais
O estudo, publicado na revista Nature e baseado em dados de satélite de alta resolução, analisou dezenas de deltas em todos os continentes. Os resultados mostram que mais da metade deles está sofrendo subsidência significativa, em alguns casos de vários centímetros por ano. Essa perda de elevação excede em muito as estimativas tradicionais de risco costeiro.

Entre os fatores mais decisivos está a atividade humana. A extração intensiva de água subterrânea causa a compactação dos sedimentos, enquanto barragens e canais a montante reduzem o fornecimento natural de materiais que historicamente compensavam a subsidência. Sem esse fluxo constante de sedimentos, o delta perde sua capacidade de se regenerar.
De acordo com os autores citados por EOS, esse processo se repete em deltas tão diversos quanto os do Sudeste Asiático, da África e da América do Norte. Embora as taxas variem, o padrão é claro: onde há intervenção humana significativa, a subsidência acelera e amplifica os efeitos das mudanças climáticas.
Riscos crescentes e decisões urgentes
As consequências desse fenômeno já são visíveis. O afundamento do solo facilita a entrada de água salgada nos aquíferos, degrada os solos agrícolas e aumenta a frequência de inundações crônicas. Em muitas regiões, esses impactos afetam diretamente milhões de pessoas que dependem do delta para seu sustento e meios de vida.

Cientistas alertam que, se as práticas atuais de gestão da água e do solo não forem alteradas, a situação poderá se tornar irreversível em algumas áreas. Mesmo com a estabilização do nível do mar, a subsidência continuará causando perda de terras e deslocamento populacional. O risco não é futuro, mas presente.
Tanto a Nature quanto a La Illuminator enfatizam que ainda há espaço para ação. Reduzir a extração de água subterrânea, restaurar o transporte de sedimentos e planejar o desenvolvimento urbano com critérios de longo prazo são medidas essenciais. A sobrevivência dos deltas dependerá das decisões políticas e sociais tomadas nos próximos anos.
Referência da notícia
Ohenhen, L.O., Shirzaei, M., Davis, J.L. et al. Global subsidence of river deltas. Nature 649, 894–901 (2026). https://doi.org/10.1038/s41586-025-09928-6
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