O anúncio do Departamento de Estado dos EUA, em 14 de janeiro de 2026, sobre a pausa na emissão de vistos imigratórios para nacionais de 75 países, incluindo o Brasil, gerou preocupação entre muitos brasileiros. Trata-se de uma medida administrativa temporária e revisável — não de um banimento permanente, nem de uma proibição total de entrada para cidadãos brasileiros. A seguir, apresentamos os fatos de forma clara para entender o alcance da decisão e as opções que permanecem disponíveis.
Em 14 de janeiro de 2026, o Departamento de Estado anunciou uma pausa na emissão final de vistos imigratórios (aqueles que levam ao Green Card) para nacionais de 75 países listados como de “alto risco” pelo histórico de uso de benefícios sociais. A pausa entra em vigor hoje, 21 de janeiro, e inclui o Brasil. Os consulados continuam recebendo aplicações, processando documentos e realizando entrevistas, mas a emissão do visto imigratório fica suspensa durante o período de revisão dos protocolos de avaliação de public charge (encargo público).
A medida não afeta vistos de não-imigrante (turismo B-1/B-2, estudo F-1/M-1, trabalho temporário H-1B, L-1, O-1, entre outros), nem petições de ajuste de status já em andamento na USCIS para quem está legalmente nos Estados Unidos. Cidadãos com dupla nacionalidade que utilizem passaporte de um país não listado estão isentos. O objetivo declarado é revisar os procedimentos para assegurar que os imigrantes demonstrem condições de autossuficiência financeira e não representem um encargo significativo para os recursos públicos.
O contexto de Minnesota
A justificativa está ligada ao que os Estados Unidos testemunharam em Minneapolis, junto à comunidade vinda da Somália. Foram identificadas fraudes em programas de assistência social e creches que ganharam atenção em Minnesota, estado com a maior comunidade somali do país. Investigações federais e estaduais identificaram desvios em benefícios de nutrição infantil, com destaque para o esquema Feeding Our Future, que envolveu acusações contra dezenas de pessoas e valores estimados acima de US$ 250 milhões entre 2020 e 2022.
Em dezembro de 2025, um vídeo viral postado por um jornalista independente mostrou que várias creches operadas por membros daquela comunidade recebiam recursos federais sem prestar serviços adequados. Embora inspeções estaduais tenham confirmado que muitos centros funcionavam normalmente, o caso, somado a condenações anteriores, reforçou o debate sobre a fiscalização de benefícios e acelerou a revisão das regras de assistência social. Esse contexto contribuiu para a inclusão de países como o Brasil na lista de revisão, mesmo com perfis socioeconômicos diferentes. O foco segue sendo a sustentabilidade financeira e a prevenção de sobrecarga aos contribuintes, e não a nacionalidade ou a origem em si.
O perfil do imigrante brasileiro
Quanto aos imigrantes brasileiros, dados consolidados mostram uma renda mediana familiar em torno de US$ 68.000 — próxima ou ligeiramente acima da média nativa em períodos recentes —, taxa de pobreza em torno de 15% e alta participação no mercado de trabalho, com muitos ocupando mais de um emprego.
O uso de benefícios em dinheiro, como o SSI ou o TANF, é baixo em comparação a outros grupos, enquanto programas como Medicaid e SNAP aparecem em percentuais moderados, geralmente de forma complementar. Em Massachusetts, onde reside uma das maiores comunidades brasileiras (cerca de 140 mil pessoas), a maioria trabalha em setores como construção, serviços, saúde e tecnologia, gerando uma contribuição líquida positiva aos cofres públicos. A inclusão do Brasil na lista reflete critérios agregados do Departamento de Estado, e não um padrão de dependência generalizada.
Entendendo o public charge
O conceito de public charge (encargo público), conforme a Immigration and Nationality Act (Lei de Imigração e Nacionalidade), refere-se à probabilidade de o imigrante se tornar primariamente dependente do governo para sua subsistência, considerando benefícios em dinheiro de longo prazo ou assistência institucional prolongada.
A avaliação leva em conta idade, saúde, educação, habilidades, renda própria, oferta de emprego e suporte de patrocinadores (sponsors). Programas como Medicaid emergencial, WIC, educação pública, seguro-desemprego (após contribuição) e, em muitos casos, o SNAP, não são contabilizados negativamente na maioria das situações de vistos de mérito. A pausa busca tornar a aplicação desses critérios mais uniforme e rigorosa nos consulados. Quem demonstra autossuficiência financeira — com poupança, emprego garantido ou patrocinador sólido — continua elegível.
O caminho pelo mérito
Para brasileiros qualificados, as categorias baseadas em mérito seguem sendo uma opção viável, uma vez que o perfil desses imigrantes geralmente não é de dependência de subsídios, visto que o candidato precisa demonstrar qualificação acima da média. Além disso, a primeira fase desses processos ocorre na USCIS ou no Departamento de Trabalho (nos casos de EB-2 e EB-3), e ambos os órgãos mantêm o processamento inalterado. Em resumo, a pausa é um ajuste administrativo temporário, sem data final definida, mas sujeito a revisão. Ela reforça o critério de autossuficiência financeira, o que favorece perfis qualificados. Políticas de imigração mudam com o tempo e com novos dados. Brasileiros com qualificação profissional, planejamento financeiro e foco em categorias de mérito continuam tendo caminhos viáveis. O acesso aos Estados Unidos permanece aberto para quem chega preparado para contribuir.
Siglas:
- SSI (Supplemental Security Income): Adicional de renda para idosos ou pessoas com deficiência que têm pouca ou nenhuma renda.
- TANF (Temporary Assistance for Needy Families): Auxílio financeiro temporário para famílias de baixa renda com filhos.
- SNAP (Supplemental Nutrition Assistance Program): Antigamente conhecido como food stamps, é o programa de auxílio para compra de alimentos.
- Medicaid: Programa de saúde pública para pessoas com renda limitada.
- WIC (Women, Infants, and Children): Programa de nutrição específico para gestantes, lactantes e crianças de baixa renda até os 5 anos.
USCIS (U.S. Citizenship and Immigration Services): Agência governamental que administra o sistema de imigração e naturalização do país.
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