Já passavam das 20h30 do último domingo e eu estava sentado, sonolento, ao lado da minha esposa no sofá quando ela puxou um assunto mais que recorrente nos últimos anos: “Parece que nem mesmo a PF do Lula está conseguindo achar uma maneira de concordar com Toffoli, você viu?”
Sim, eu já havia lido sobre como a Polícia Federal parecia estar constrangida e até mesmo se opondo à postura tiranicamente bizarra do juiz do Supremo. Até em ditaduras já consolidadas e mais longevas a Alta Corte do judiciário tenta disfarçar suas ações duvidosas, mas aqui não.
Passaram-se mais uns 40 minutos, sem conseguir me concentrar na comédia romântica chata que minha digníssima colocara na TV, tive então uma ideia de um texto sobre a situação de Vorcaro e Toffoli após uma cena do filme: um cachorro estressado que atacava um garoto quando ele saía do mercado com salsichas numa sacola; comecei a escrever em meu bloco de notas naquele mesmo instante para não perder a ideia.
Lembrei-me de passar por uma situação parecida em São Bento do Sapucaí; à meia estrada da casa mais próxima após sair do sítio de meus avós, um cão visivelmente perturbado começou a latir de forma furiosa em minhas costas, e eu, nos altos dos meus dez anos, inocente, comecei a correr do animal com toda minha desenvoltura de um gordinho quase-atlético ― era a caricatura perfeita de um jantar suculento para o animal. Pois bem, foi um festival de gritarias, desesperos e chinelos voando, isso até alcançar a casa de meu tio-avô e ele me acudir. Em nome do medo, rememorando hoje a cena, consigo ver naquele dia a minha dignidade sucumbir ao meu instinto de sobrevivência.
Usei esse paralelo em minha anotação, e li um trecho para minha esposa: “O desespero de Toffoli chegou a um patamar em que ele abandonou não só a legalidade, mas as próprias feições de legalidade. Quem já passou pelo desespero de ter que fugir de um cachorro bravo na juventude sabe o que é largar a esmo qualquer postura de dignidade, ver o chinelo quase entrar em órbita, o grito fugir da garganta em um desafino de histeria na busca de qualquer solução diante daquele perigo para, aí sim, novamente, voltar a trajar as vestes de honradez, ainda que mijadas e sob risos. Toffoli hoje parece esse menino que corre para fugir de algo, tropeçando em seus chinelos e molhando suas virilhas no intuito de encontrar qualquer solução que cesse uma ameaça iminente a si próprio”.
Ao final, buscando a aprovação no olhar e nas palavras da minha esposa, disse que estava ótimo, mas que era “melhor não postar”.
Acho que poucas frases resumem tanto o Brasil atual como o da minha esposa: “melhor não postar”. Ainda que evidente, ainda que uma crítica válida, ainda que o escárnio e a corrupção estejam gotejando em nossas cabeças, “melhor não postar”. Hoje é claro para mim que a ditadura começa no silêncio.
Dito isso, o que Nikolas fez na semana passada assume um itinerário maior que ele mesmo, pois ele resolveu não só gritar, mas engajar coragem naqueles que se encontravam indignados, porém mudos ou quase mudos. Ele insuflou coragem de se opor, enfrentou a seu modo a tirania, envergonhou o governo por sua impopularidade e deixou contra a parede aqueles que o criticam, expondo neles um rancor e uma inveja dignos de crianças em birra. Pode-se não gostar de Nikolas, mas negar sua coragem e sua capacidade de insuflar ânimo em uma direita adormecida, isso acho que não.
O deputado mineiro me parece um dos que escolhem “postar”, mesmo sob risco; gritar, mesmo contra as consequências; enfrentar a tirania em vez de dormir engasgado com a farofa da corruptela. Eu estava apagando meu texto quando a mulher puxou um novo assunto: “Olha como lotou a praça onde o Nikolas parou em Brasília…” No vídeo se via uma senhora, com cerca de setenta anos, estava com a bandeira nacional e uma camiseta em que se lia Acorda, Brasil. Ela achou melhor “postar”, e eu também.
O post “É melhor não postar”: a ditadura começa no silêncio apareceu primeiro em Revista Timeline.
Powered by WPeMatico
