O cenário econômico e geopolítico global atravessa um período de fragmentação, estimulando grandes economias a buscarem alternativas ao centro de gravidade norte-americano. A consolidação de políticas protecionistas nos Estados Unidos, marcadas por coerção econômica e subsídios nacionais, tem provocado um redesenho das cadeias globais de suprimento e das reservas financeiras internacionais.
O contexto de ameaças tarifárias e disputas comerciais levou aliados tradicionais dos EUA –como Reino Unido, Alemanha e Canadá– a acelerarem acordos paralelos e canais alternativos de comércio e investimento. A UE (União Europeia) ampliou negociações com parceiros como Índia e Mercosul, enquanto países como Canadá e Reino Unido sinalizaram reabertura pragmática de canais econômicos com a China. Mesmo na Alemanha, empresas ampliaram investimentos diretos em território chinês em níveis recordes.
Segundo o mestre em finanças pela Universidade de Sorbonne Hulisses Dias declarou ao Poder360, o que se dá é um movimento pragmático de defesa: “Diversificar risco significa criar rotas alternativas, novos fornecedores, acordos paralelos e redundância em cadeias críticas, assim como reduzir a dependência estrutural. Por outro lado, exigiria trocar o ‘sistema operacional’ da economia global, que ainda funciona majoritariamente sobre infraestrutura americana: dólar, mercado de capitais profundo, padrões tecnológicos, segurança jurídica e liquidez”.
Apesar disso, ele afirma que no curto e médio prazo abandonar o ecossistema econômico liderado pelos EUA é improvável, mesmo com esforços de diversificação.

O VÁCUO GEOPOLÍTICO E A ASCENSÃO DA CHINA
A imprevisibilidade causa um vácuo de liderança que outras potências se mobilizam para preencher. Jhonathan Mattos, mestre em Relações Internacionais pela Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e especialista em China, destaca que o afastamento dos EUA de fóruns globais é um ponto de inflexão. “O governo Trump, com o retorno do unilateralismo e o rompimento, inclusive com agências da ONU (Organização das Nações Unidas), abriu uma oportunidade histórica para a China ocupar esse vácuo.”, declara.
Nesse contexto, a China se posiciona como um polo de estabilidade multilateral que faz “um movimento de se apresentar como um bastião de uma ordem multilateral mais cooperativa”. Para o especialista, Pequim tem se mostrado “um parceiro mais estável”.
Países europeus, pressionados por riscos de sanções e volatilidade comercial, passaram a equilibrar discursos de redução de dependência com acordos setoriais e investimentos estratégicos. O resultado é um cenário em que os chineses são vistos, ao mesmo tempo, como rivais sistêmicos e parceiros econômicos indispensáveis, especialmente em cadeias industriais críticas.
A Alemanha –maior economia da Europa e a 3ª maior economia do mundo em PIB nominal–, por exemplo, viu suas empresas aumentarem o investimento direto na China para mais de 7 bilhões de euros em 2025, o maior nível registrado nos últimos 4 anos, reforçando a interdependência industrial apesar da retórica europeia de diversificação.
Já o Canadá –país fronteiriço aos EUA– e o Reino Unido –tradicional parceiro norte-americano– avançaram em suas relações econômicas com a China, buscando diversificar exportações e reduzir a dependência do mercado norte-americano.
No caso do Reino Unido, foram retomados diálogos comerciais e investimentos setoriais, incluindo tecnologia e energia, em um movimento pragmático de reaproximação após cerca de 6 anos sem visitas de um premiê britânico à China, reforçando cooperação em setores estratégicos e sinalizando maior autonomia frente à influência norte-americana.
SOBERANIA TECNOLÓGICA
A busca por autonomia não é generalizada, mas focada em setores onde a dependência dos EUA representa uma “vulnerabilidade estratégica”. Marcos Bassani, especialista em investimentos e sócio da Boa Brasil Capital, detalha: “Os países estão priorizando setores onde a dependência dos EUA vira vulnerabilidade estratégica, como tecnologia –chips, software e IA–, que é a principal prioridade, por permitir sanções e controle tecnológico”.
Dias corrobora essa visão, enfatizando que o controle técnico é sinônimo de poder político. “Os setores priorizados são aqueles em que a dependência gera risco sistêmico, que hoje é puxado pela tecnologia, especialmente semicondutores, infraestrutura digital, computação em nuvem e cibersegurança, porque quem controla padrões e insumos críticos controla o poder econômico”.
Ele ainda cita a energia, tanto em hidrocarbonetos quanto na transição energética, e indústrias de defesa e fármacos como pilares dessa diversificação.
O DÓLAR E OS TÍTULOS DE TESOURO NORTE-AMERICANO
No campo financeiro, o aumento das reservas em ouro, os acordos em moedas locais e a redução na compra de títulos do Tesouro dos EUA indicam um desconforto crescente com o uso político do dólar. A diminuição da compra desses títulos significa que governos e bancos centrais estão diminuindo suas exposições às dívidas norte-americanas para proteger suas reservas de possíveis sanções, mudanças de juros ou instabilidade financeira nos EUA.
Por exemplo, a China vem diminuindo sua participação em Treasuries –títulos do Tesouro dos EUA– desde 2022, como parte de sua estratégia de diversificação das reservas internacionais e de fortalecimento do yuan em transações comerciais bilaterais.
E diversos bancos centrais, como o da Polônia, continuam aumentando suas reservas em ouro, fortalecendo instrumentos de proteção financeira e diversificação estratégica das reservas internacionais, uma vez que o metal é considerado um ativo seguro, resistente a choques geopolíticos e flutuações cambiais, funcionando como um contrapeso à volatilidade do dólar e dos mercados financeiros globais.
No entanto, o sistema vigente permanece resiliente. Mattos lembra que o dólar é a referência há mais de 80 anos e que as instituições internacionais de comércio ainda utilizam o dólar como moeda majoritária, tornando a desdolarização –redução gradual do uso do dólar nas transações e reservas internacionais– um processo lento.
Bassani explica que o objetivo das nações é a mitigação da força coercitiva estadunidense: “O dólar segue dominante, mas já não é incontornável em todas as operações. O objetivo dos países não é derrubar o dólar, e sim limitar o poder de coerção dos EUA, trata-se de uma mudança lenta, parcial e cumulativa, mais estrutural no longo prazo do que simbólica”.
A “ESTRATÉGIA DE BARBELL” E O EQUILÍBRIO
O resultado dessa transição é um mundo onde os países jogam em duas frentes. “Muitos países adotam uma estratégia de Barbell: constroem alternativas nas margens, mas mantêm o núcleo no sistema norte-americano porque o custo de substituí-lo é alto demais”, declara Dias. Criada pelo investidor Nassim Taleb, a estratégia de Barbell prega uma tática que alia investimentos muito conservadores e outros muito arriscados, como forma de equilíbrio.
O fortalecimento da China como parceira alternativa empurra o mundo para um arranjo bipolar com zonas intermediárias, segundo o especialista. “O resultado é um mundo menos eficiente, mais redundante e mais politizado, mas não totalmente dissociado do eixo norte-americano”.
O que emerge é uma diluição gradual de sua capacidade de operar como único centro incontornável. O sistema permanece ancorado em Washington, mas passa a conviver com rotas paralelas, parceiros alternativos e uma lógica de redundância estratégica.
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