O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, é o principal cotado para a Diretoria de Política Econômica do Banco Central. De perfil heterodoxo, ele não é bem avaliado entre agentes financeiros para a função. A sua participação na elaboração de projetos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como o Crédito do Trabalhador, marco fiscal e reforma tributária, deve fundamentar os estudos futuros da autoridade monetária.
Mello avalia, por exemplo, que o fracasso do governo Dilma Rousseff (PT) foi causado por fatores externos combinados com a tentativa de reorientação industrial. Mesmo Haddad já criticou as contas públicas no governo de sua colega de partido, assim como a expansão dos gastos tributários no mandato da petista.

O presidente do BC não foi consultado a respeito da indicação de Guilherme Mello. Agentes financeiros avaliam que, se confirmada a escolha, ele será o diretor mais heterodoxo da autoridade monetária.
O diretor de Política Econômica é responsável pela elaboração de boxes no “Relatório de Política Monetária”, divulgado trimestralmente pelo Banco Central com o acompanhamento de fenômenos econômicos. Mello terá familiaridade com medidas econômicas propostas pelo atual governo para elaborar estudos sobre as ações tomadas neste mandato.
Por outro lado, há uma desconfiança entre os agentes financeiros em relação ao perfil adotado pelo secretário na condução da política monetária. O BC aumentou a taxa básica, a Selic, para 15% ao ano, o que possibilitou um ganho de credibilidade com a transição de comando de Roberto Campos Neto para Gabriel Galípolo.
As expectativas futuras de inflação e juros cederam, e a autoridade monetária sinalizou o início da flexibilização monetária na próxima reunião, em março. A visão de agentes financeiros é que a indicação de Mello pode ser uma surpresa positiva, como foi Galípolo, mas o esperado é que ele continue a defender uma política monetária mais expansionista do que os mais conservadores.

Alguns fatores fazem com que haja um receio menor com a indicação de Mello:
- alta de juros com Galípolo – o presidente do BC mostrou, em 2 anos, uma ortodoxia que surpreendeu os agentes financeiros. O “peso” dele no perfil do colegiado é maior do que de um diretor;
- período de corte de juros – a taxa Selic deverá começar um ciclo de corte de juros em março. O secretário de Haddad surfará na onda das reduções, podendo passar despercebido para o mercado financeiro.
Os agentes financeiros esperam uma trajetória de queda da Selic de março de 2026 até o 2º semestre de 2027, o horizonte relevante da política monetária. Esperam que a taxa caia para 10,5% ao ano, o que representa um corte acumulado de 4,5 pontos percentuais.
Para o economista André Perfeito, da Garantia Capital, o cenário pode ser favorável à indicação de Mello. Ele afirmou que a escolha é “natural”, porque está dentro da equipe do ministro da Fazenda, assim como Galípolo.
“O nome do Guilherme, neste momento, é até oportuno, porque a leitura geral é que tem que cortar os juros. Nesse sentido, pode passar por baixo do radar dessa leitura muito ortodoxa do mercado”, disse.
Perfeito declarou acreditar que Mello não deverá abrir divergência para marcar posição na diretoria colegiada. “Além da taxa de curto prazo estar alta, desejada dentro dos modelos dos economistas, Galípolo conseguiu construir uma trajetória de queda do juro longo”, declarou o economista.
Pedro Paulo Silveira, economista da A3S Investimentos, é mais crítico. Disse que se espera um perfil de um especialista nos modelos de inflação para o cargo. “É crucial. É o economista que vai letrar uma equipe que trabalha com os modelos do BC que são subsídios importantes para as decisões do Copom”, declarou.
Mello se formou em ciências sociais pela UnB (Universidade de Brasília) e em ciências econômicas pela PUC-SP. Tem doutorado pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Deu aula na instituição.
Ele também foi um dos responsáveis pela elaboração do plano de governo de Lula em 2022. O documento criticou as decisões do BC que elevaram a Selic na época.

POLÍTICA ECONÔMICA
Mello participou da elaboração de políticas econômicas adotadas no governo Lula, por exemplo:
- Crédito do Trabalhador;
- reforma tributária;
- ampliação do crédito imobiliário;
- aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda;
- taxação de quem ganha acima de R$ 50.000 por mês;
- arcabouço fiscal.
Segundo Perfeito, Mello deverá introduzir esses e outros temas nos boxes de estudo do Banco Central, como outros que mostram impactos no mercado de trabalho e renda das famílias.
“Ele, como secretário de Política Econômica, tem uma propriedade muito forte do tema fiscal, porque ele ajudou a desenhar o arcabouço fiscal, e também participou muito proximamente do Bernard Appy na reforma tributária. É alguém que pode introduzir esses temas [no Banco Central]”, declarou o economista.
Silveira, da A3S Investimentos, disse que há pré-requisito para a função de diretor de Política Econômica, como a compreensão dos modelos macroeconômicos aplicados no BC e nos outros países, além de “entender como funcionam as regras” das decisões.
“Definitivamente não é um campo genérico, é algo muito específico. Guilherme Mello não tem nenhum, absolutamente nenhum, trabalho nessa área. É como colocar um médico urologista para pilotar um caça da FAB. Ele pode ser um rapaz inteligentíssimo, com muitas contribuições em vários campos, pode ser um sujeito que aprende rápido. Mas o perfil do diretor do BC não é esse”, disse.
Os indicados terão que ser sabatinados pela CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado e ter a nomeação aprovada no plenário da Casa. Os mandatos terminam em dezembro de 2029, podendo ser prorrogados por mais 4 anos. Ou seja, até dezembro de 2033.
TIAGO CAVALCANTI
Haddad sugeriu a Lula a indicação do professor Tiago Cavalcanti para a diretoria deixada por Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro e de Resolução). Ele é graduado em economia pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), com doutorado em economia pela Universidade de Illinois (EUA). É professor em Cambridge desde 2007 e conselheiro do Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole).
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