Investigada pela Polícia Federal, a Cartos Sociedade de Crédito Direto S.A. não foi liquidada extrajudicialmente pelo BC (Banco Central). Com sede na Faria Lima, a instituição financeira –uma sociedade de crédito direto– está no centro da produção de créditos podres no caso do Banco Master.
Diretores e sócios da Cartos estavam na reunião de 27 de junho de 2025 que teria auxiliado a autoridade monetária na comprovação da emissão de títulos de créditos falsos no caso do Banco Master.
A lei 6.024 de 1974 –que trata sobre a intervenção e a liquidação extrajudicial de instituições financeiras– define que o Banco Central pode adotar a medida quando a administração da empresa “violar gravemente as normas legais e estatutárias que disciplinam a atividade da instituição”. A Cartos não consta na lista de empresas liquidadas.
Sistema on-line do Banco Central não reporta a liquidação extrajudicial da Cartos
O Poder360 já publicou que a Cartos está no centro da fabricação de títulos podres. Não aparece só como origem formal de operações clonadas. Ela surge como nó logístico de uma engrenagem muito maior, sustentada por uma rede de correspondentes bancários espalhada pelo país.
O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, disse, em depoimento à Polícia Federal, em 30 de dezembro de 2025, que o empresário André Felipe de Oliveira Seixas Maia, diretor da Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações S.A, teria feito uma declaração que ajudou a autoridade monetária a confirmar as irregularidades.
André também já foi funcionário do Master até março de 2022 e diretor da Cartos.
“Ele [André] começa: ‘eu gerei R$ 50 milhões’, ‘gerei R$ 30 milhões’, ‘gerei R$ 50 milhões’, e a gente sabia que ele não geraria. Depois de uma hora de inquirição, os valores iam subindo”, disse. André teria dito que foram mais de R$ 6 bilhões, o que seria “impossível do ponto de vista técnico”, segundo o diretor do BC, dado que a Cartos é uma “empresa pequena” e a Tirreno é uma empresa “desconhecida”.
Aquino disse que alguns diretores da Cartos falavam: “Eu nunca ouvir falar da Tirreno”.
O Banco Master foi liquidado extrajudicialmente em 18 de novembro de 2025, há mais de 2 meses. A Cartos, não. A empresa opera normalmente no mercado.
O Poder360 procurou o Banco Central para perguntar por que a Cartos segue operando. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada a este jornal digital.
A seguir, o vídeo (4min2s) de Ailton de Aquino falando sobre como descobriu a possível fraude no Master:
Aquino tratou sobre a emissão de CCBs (Cédulas de Crédito Bancário) sem lastro do Banco Master. A instituição financeira teve um crescimento exponencial, mas tinha elevados problemas de insolvência e liquidez. O Banco Central acusa a empresa de gestão fraudulenta para maquiar a contabilidade.
CARTOS
O Poder360 já mostrou que a Cartos disse ao BC, em 4 de julho de 2025, que cedeu operações de créditos a 3 fundos de investimentos em direitos creditórios, os FIDC: Noto, Sueste e VCK, e não à Tirreno ou ao Banco Master.
Ou seja, os mesmos créditos apresentados ao BRB como lastro das operações do Banco Master já haviam sido vendidos a outros 3 compradores. “Com efeito, foram identificados no Sistema de Informações de Crédito (SCR) cessões de crédito para Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) dos mesmos clientes, com datas próximas e em valores superiores ao valor liberado”, disse o relato sucinto das ocorrências, documento produzido pelo Banco Central e encaminhado ao Ministério Público Federal em 14 de julho de 2025.
Na prática, as mesmas carteiras falsas, com os mesmos falsos tomadores de crédito, foram copiadas e revenidas simultaneamente para múltiplas instituições do mercado financeiro regulado. A indústria de créditos falsos já operava na rede do Banco Central antes mesmo do colapso do Master.
REUNIÃO DE JUNHO DE 2025
A reunião realizada em junho de 2025 teve a participação de:
- Henrique Souza e Silva Peretto, fundador e ex-sócio-presidente da Cartos;
- Fabio Antonio da Costa, presidente da Cartos;
- Yim Kyu Lee, ex-diretor da Cartos;
- André Felipe de Oliveira Seixas Maia, ex-funcionário do Master e sócio da Tirreno;
- Marcolino Medeiros Junior, que era ligado a Cartos.
Segundo Aquino, “quem aparece como Cartos-Tirreno é o senhor André”.
A Cartos é uma instituição financeira regulada e supervisionada pelo Banco Central, enquanto a Tirreno não é uma sociedade anônima fechada fora da alçada do Banco Central.
A Cartos é uma instituição financeira do segmento S5, o menor na escala do Banco Central. Em porte, está na categoria que mais se distancia dos bancos comerciais, com menos de 0,1% do PIB (Produto Interno Bruto).
A Tirreno empresa tem as seguintes atribuições, segundo dados públicos da Receita Federal:
- tratamento de dados, provedores de serviços de aplicação e serviços de hospedagem na internet;
- outras sociedades de participação, exceto holdings;
- atividades de consultoria em gestão empresarial, exceto consultoria técnica específica;
- promoção de vendas;
- atividades de intermediação e agenciamento de serviços e negócios em geral, exceto imobiliários;
- serviços combinados de escritório e apoio administrativo.
O Banco Central não identificou movimentações financeiras via Pix, TEDs ou operações de câmbio que comprovassem a existência dos créditos podres. O único vínculo identificado da Tirreno foi com o Banco Master, em 23 de maio de 2025.
“O único relacionamento da Tirreno é com o Master, iniciado em 23/5/2025. Está onde? No CCS [Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional], onde todas as relações de contas que nós temos estão”, disse Aquino.
O diretor disse que só conheceu a carteira fraudulenta depois que o BRB (Banco de Brasília) incluiu as informações no SCR (Sistema de Informações de Crédito). Não explicou como R$ 6 bilhões ficaram de fora do radar da autoridade monetária antes da operação.
CARTOS E TIRRENO
Atualmente, André Felipe de Oliveira Seixas Maia é o único diretor no quadro societário da Tirreno. A Cartos tem agora 3 sócios: Felipe Monteiro Feliciano, Fabio Antonio da Costa (presidente) e Evandro Luiz Pacheco Pereira. Apenas Fabio esteve na reunião de junho de 2025 no Banco Central.
Henrique Peretto não é mais presidente da Cartos, apesar de ter fundado a companhia, em novembro de 2014. Ele foi um dos alvos da Operação Compliance Zero –junto com André Seixas Maia– no caso do Banco Master. Segundo informações do site Empresas Dois, André tornou-se sócio da Cartos em dezembro de 2023, mas também não é mais citado no quadro societário da empresa.
A auditoria independente BLB é a responsável por fazer o acompanhamento das contas da Cartos, segundo dados públicos do Banco Central. O Poder360 questionou a empresa se houve a identificação de fraudes.
Eis as perguntas feitas por este jornal digital e as respostas da Cartos:
1) A Cartos fabricou créditos falsos?
A Cartos não originou, estruturou, comercializou, intermediou ou cedeu quaisquer créditos ou títulos relacionados às investigações. A empresa tampouco integrou, participou ou foi cotista de fundos mencionados nos autos, nem atuou em qualquer etapa operacional das operações analisadas. Da mesma forma, jamais houve qualquer operação entre a Cartos e o Banco Master. Não existem cessões, aquisições, vendas de ativos, créditos ou títulos entre as partes. Não é core business da empresa lidar com pessoas físicas diretamente.
2) Os senhores André Seixas Maia e Henrique Peretto ainda têm ligação com a empresa? Quando foi a data de saída para os dois?
Importante esclarecer que André Seixas Maia e Henrique Peretto não fazem mais parte da empresa. André Maia não é mais diretor desde maio de 2021. Henrique Peretto não é mais diretor desde setembro de 2025. A saída de ambos como sócios foi assinada em novembro de 2025 e aguarda a validação do Banco Central.
3) A Cartos ajudou a Tirreno a fabricar créditos falsos? A Cartos cedeu créditos ao Banco Master?
A Cartos não originou, estruturou, comercializou, intermediou ou cedeu quaisquer créditos ou títulos relacionados às investigações. A companhia tampouco integrou, participou ou foi cotista de fundos mencionados nos autos, nem atuou em qualquer etapa operacional das operações analisadas. Da mesma forma, jamais houve qualquer operação entre a Cartos e o Banco Master. Não existem cessões, aquisições, vendas de ativos, créditos ou títulos entre as partes. Não é core business da empresa lidar com pessoas físicas diretamente.
4) A Cartos teme ser liquidada pelo Banco Central?
Em uma investigação interna, não foi apontada nenhuma operação irregular, assim como nenhuma evidência de negócios com a Tirreno ou Master. A Cartos Sociedade de Crédito Direto S.A. atua de forma rigorosamente alinhada aos mais elevados padrões de ética, integridade, governança corporativa e conformidade regulatória, em consonância com as melhores práticas do mercado financeiro.
O ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), Paulo Henrique Costa, disse, em depoimento feito em 30 de dezembro à PF, que o Banco Master nunca pagou a Tirreno pelas carteiras de crédito nas quais agia como intermediário.
DEPOIMENTO À PF
O fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, disse, em 30 de dezembro à PF, que o banco estava em “planejamento novo” para expandir o portifólio no crédito consignado, mas que não sabia o que era a Tirreno. Conhecia somente as “pessoas”, segundo ele.
“Na época, não sabia nem o nome Tirreno, na verdade, eram as pessoas. Eram pessoas que já tinham experiência de mercado e já tinham trabalhado com o banco e já trabalhavam com banco, e queriam trazer um volume para a gente poder aumentar o volume nessa nova fase que a gente teria com o BRB”, disse Vorcaro.
O fundador do Master disse que Henrique Peretto criou a Tirreno “poder fazer esse projeto desvinculado dos sócios anteriores”. A informação é falsa. Como já mostrou o Poder360, a Tirreno foi constituída em 4 de novembro de 2024 sob nome SX 016 Empreendimentos e Participações S.A. Seu primeiro responsável fiscal era Daniel Moreira Bezerra.
O Banco Central informou ao Ministério Público Federal que Daniel registrou outras 91 empresas com nomes semelhantes, sendo que elas não tinham atividade real. Seria uma “empresa de prateleira”.
A Tirreno foi transferida para André Seixas Maia, e não para Henrique Peretto.
A Tirreno –empresa do ex-funcionário do Master– passou a “originar” mais de R$ 6 bilhões em créditos inexistentes. A Cartos forneceu infraestrutura operacional que dá aparência de legitimidade à engrenagem, como contou o jornalista Marcio Aith.
Quando o BRB percebeu que havia adquirido créditos podres, entregou ao BC uma amostra de 100 contratos de crédito consignado. Todas as operações foram originadas pela Cartos, fundada por Henrique Peretto.
O QUE DISSE VORCARO
O fundador do Master declarou que, apesar de empregá-lo no Master, não conhecia André Seixas Maia. Vorcaro declarou que os créditos da Tirreno passaram pelo compliance do banco, que não detectou que eram falsos.
Em certo momento do depoimento, a delegada Janaína Palazzo perguntou quais seriam os requisitos técnicos obrigatórios para aprovação de uma carteira de crédito. Ele não detalhou.
“Depende do tipo de carteira. No caso de uma carteira de consignado tem que se averiguar se tem o limite disponível para aquela concessão e tem uma série de documentos que eu, me desculpe, não tenho os detalhes técnicos”, disse Vorcaro.
Depois de insistência da delegada, Vorcaro demonstrou insegurança na resposta: “Acho que análise de crédito e uma análise de compliance, basicamente”.
A delegada disse a Vorcaro que, pelos documentos obtidos pela Polícia Federal em operação, os requisitos de compliance não foram cumpridos. Ele questionou.
“Eu entendo que sim. Na verdade, para cada tipo de carteira e cada tipo de portifólio você tem um check list. Isso não é fora do usual. Quando você tem instrumentos de crédito que são feitos entre instituições que não são instituição financeira, geralmente não tem emissão de uma CCB [Cédulas de Crédito Bancário]. Podem ser reguladas por meio de contratos”, disse Vorcaro.
Ele disse que não teve nenhum negócio com a Cartos, somente com a Tirreno. O fundador do Master também disse desconhecer as operações entre a Tirreno e Cartos.
Em depoimento de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, ele foi questionado se sabia que os créditos da Tirreno foram originados na Cartos e vendidos ao mesmo tempo para outros fundos.
Costa respondeu: “Nós tivemos conhecimento de que tinham sido originados na Cartos somente em maio, quando a gente identificou a situação da Tirreno e de que tinham sido vendidos para outros fundos somente no inquérito, na leitura do inquérito”.
Assista ao depoimento de Vorcaro:
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