Desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), anunciou o “Dia da Libertação” em abril do ano passado –taxou mais de 180 países no mundo–, 6 líderes sul-americanos afetados pela política norte-americana conversaram pessoalmente com o presidente da China, Xi Jinping (Partido Comunista da China). O país asiático é o grande rival dos EUA no comércio global, e principalmente no continente sul-americano.
A América do Sul é um dos principais palcos da disputa comercial entre China e EUA. Desde 2024, Pequim tem ganhado terreno no continente e já é o principal parceiro comercial da região. Em 2000, Washington era o maior parceiro comercial de todos os países sul-americanos. Em 2024, o placar virou com a China conquistando o posto em 6 países, incluindo as duas maiores economias sul-americanas: Brasil e Argentina.

A visita de líderes sul-americanos à China exemplifica a influência chinesa na região. Do total, 3 encontros na China foram realizados durante o 4º Fórum China-Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) em maio, um evento marcado antes do tarifaço. Mesmo sem ter relação com as tarifas de Trump, o momento foi usado para discutir estratégias entre o continente com a China para superar as barreiras norte-americanas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve presente no fórum e depois teve compromissos com Xi Jinping. Na ocasião, Lula criticou a medida norte-americana, dizendo que “não se conformava” com a tarifa imposta por Trump e que o protecionismo dos EUA poderia levar o mundo a uma guerra.
No Fórum China-Celac, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, declarou que a cooperação entre a China e a América Latina é “inevitável” e o chanceler chinês convocou as nações a se unirem contra as medidas unilaterais dos EUA. Disse que os norte-americanos querem “saquear a região”.
Na 3ª feira (3.fev.2026), Xi se reuniu com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi (Frente Ampla, centro-esquerda), em Pequim. O tom do encontro foi o mesmo, de união pelo multilateralismo e aproximação entre os 2 países em áreas econômicas. Em geral, os encontros de Xi com os líderes não resultaram em grandes acertos econômicos. A estratégia chinesa é se apresentar como a alternativa às pressões norte-americanas e estreitar as relações diplomáticas.
O próximo encontro de Xi com um chefe sul-americano pode ser com o líder mais resistente à influência chinesa na região, Javier Milei (A Liberdade Avança, direita).
O presidente da Argentina já se manifestou contra a China em algumas oportunidades, mas declarou em janeiro deste ano que gostaria de visitar a China ainda em 2026.
DOUTRINA MONROE E COROLÁRIO TRUMP
A disputa por influência no continente fica ainda mais dramática pela posição e história da região. No século 19, os EUA aplicavam a chamada Doutrina Monroe, um princípio estratégico de exclusão que proíbe a influência de potências externas no Hemisfério Ocidental –em especial nas Américas– para assegurar a proeminência dos EUA.
Os EUA reafirmaram publicamente essa posição no final de 2025, mas com uma adição: o “Corolário Trump”, um mecanismo de intervenção direta que usa a coerção econômica e o poder militar para forçar os países latino-americanos a servirem aos interesses de segurança interna dos Estados Unidos.
Foi exatamente o que a Casa Branca fez na Venezuela. Em uma operação em 3 de janeiro, forças dos EUA capturaram o presidente Nicolás Maduro (PSUV, esquerda) e o levaram aos EUA para julgamento. Além da prisão de Maduro, a Casa Branca também pressionou o governo venezuelano a fornecer petróleo a Washington.
A intervenção norte-americana mexe com interesses chineses no país. A China passou anos investindo na Venezuela e costurando acordos nos quais a contrapartida era a venda de petróleo venezuelano. Depois da ação da Casa Branca, o governo chinês já declarou que protegerá seus interesses no país.
Maduro foi um dos líderes que se encontrou com Xi no ano passado, mas em circunstâncias diferentes. Não houve uma reunião bilateral entre os líderes. Eles estiveram juntos na celebração da vitória soviética na 2ª Guerra Mundial em Moscou, na Rússia, em maio de 2025.
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