A premiê japonesa Sanae Takaichi (PLD, direita), 64 anos, antecipou as eleições legislativas no país. Serão realizadas no domingo (8.fev.2026). A decisão de dissolver o Parlamento visa a aumentar sua margem de governabilidade e reduzir a dependência de alianças instáveis.
Com a mudança, a Câmara dos Representantes, tradicionalmente representada por seu partido desde 1955, pode sofrer um revés. Ao todo, 191 cadeiras da Casa são ocupadas por integrantes do PLD (Partido Liberal Democrático). Após o rompimento com a legenda Komeito, o partido de Takaichi tem uma nova coalização com o Partido Japonês da Inovação –que pode render um número maior de cadeiras em comparação ao cenário atual.
Em 2024, no resultado imediato das últimas eleições, 229 postos eram ocupados por governistas; e 224 pela oposição. Agora, com a mudança de coligações e enfraquecimento de partidos, todas as 465 cadeiras estão em jogo nesta eleição. Caso seu partido não vença, a premiê afirmou que irá renunciar ao cargo.
Segundo Aline Mendes, mestre em comunicação pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e especialista em Japão, a decisão é “bastante arriscada” pelo fato de o PLD ter uma “margem estreita de eleitos na Câmara Baixa”, ou seja, “ainda que seja maioria, não é uma vantagem considerável”.
Ao Poder360, a especialista explica que o rompimento da aliança de 26 anos com o partido Komeito (centro-direita), que agora integra a oposição, também atrapalha a premiê, e, portanto, motivou a dissolução. Ainda assim, há um cálculo político envolvido.
Segundo Mendes, “a estratégia da Takaichi e do PLD nesse momento é aproveitar a alta popularidade do governo dela, que está em 80%, e buscar a eleição de um Parlamento mais favorável ao governo por meio de uma maioria mais significativa de candidatos do PLD e do Ishin“.
Caso o partido amplie o número de cadeiras, o cenário pode favorecer a premiê. Para a especialista, “é possível que Takaichi consiga estabelecer um governo mais estável e ampliar as chances de êxito em alguns de seus projetos políticos“. Por outro lado, “se o PLD mantiver um número próximo ou abaixo do atual, seguirá sob risco diante da oposição, e o governo Takaichi pode ficar ameaçado”.
A manobra não tem sucesso garantido. A aprovação da governante caiu 10 pontos percentuais depois da decisão de dissolver o Parlamento japonês. Segundo uma pesquisa realizada pelo jornal japonês Mainichi Shimbun, a aprovação do governo ficou em 57%. A pesquisa foi divulgada em 25 de janeiro.
Há ainda a possibilidade de que o pleito enfraqueça a liderança da premiê, sobretudo diante de “forte pressão tanto da oposição quanto de outros núcleos internos do próprio partido”. Por parte da população, pode haver um problema de entendimento da decisão da governante.
PERFIL DO GOVERNO
Takaichi, que assumiu o cargo em 21 de outubro de 2025, é representante da ala nacionalista. Tem posições firmes sobre segurança, identidade nacional e política externa.
Segundo a especialista Aline Mendes, “com Takaichi, o PLD está conseguindo resgatar o eleitorado conservador”, o que pode enfraquecer partidos concorrentes à direita, como o Sanseito.
No início de seu mandato, ela tomou medidas para lidar com o aumento dos preços no país. A distribuição de cupons de arroz, que permitem que famílias tenham acesso a um dos principais alimentos do Japão, foi uma das primeiras decisões anunciadas pelo governo da premiê.
Outras ações para fortalecer a economia japonesa, segundo o governo, foram a redução de contas de eletricidade e gás natural durante os meses de inverno e a distribuição de um valor fixo de 20.000 ienes (cerca de R$ 660) por criança às famílias.
PANORAMA INTERNACIONAL
No cenário internacional, ela propõe o fortalecimento das capacidades militares do Japão, a revisão da Constituição pacifista e uma posição mais assertiva diante da China, governada pelo presidente Xi Jinping (Partido Comunista da China, esquerda), e da Coreia do Norte de Kim Jong-un.
As relações sino-japonesas, historicamente sensíveis, passam por mais uma fase de tensão e distanciamento. O principal motivo são as declarações de Sanae Takaichi em relação à ilha de Taiwan –que reivindica sua independência, ao passo que a China reafirma a região como parte de seu território.
O desgaste se intensificou no final do ano passado, quando a mandatária disse que uma intervenção das Forças Armadas da China em Taiwan representaria uma situação de “crise existencial” no Japão. Segundo ela, nesse cenário, Tóquio estaria no direito de exercer uma resposta de autodefesa, ou seja, uma retaliação à China.
Em 27 de janeiro, ela voltou a testar os limites da relação com o país vizinho. Afirmou que a aliança entre Japão e Estados Unidos “colapsaria” caso seu país não ajudasse os norte-americanos em um confronto com a China, o que incluiria uma intervenção chinesa em Taiwan.
A aproximação com os Estados Unidos é vista como uma prioridade para Takaichi. Tóquio e Washington têm uma lista conjunta de projetos nas áreas de energia, inteligência artificial e minerais críticos, com potencial de investimentos japoneses de até US$ 400 bilhões.
Na 6ª feira (6.fev), 0 presidente Donald Trump (Partido Republicano) declarou apoio integral à primeira-ministra Sanae Takaichi às vésperas das eleições legislativas no Japão. Disse que trabalha com a premiê para a elaboração de um acordo comercial “fortemente benéfico” para ambos os países.
QUEM É SANAE TAKAICHI
Nascida em 7 de março de 1961, em Yamatokōriyama, na província de Nara, Takaichi formou-se em administração de empresas pela Universidade de Kobe. Antes de ingressar na política, trabalhou como autora, assessora legislativa e radialista. Foi eleita pela 1ª vez para a Câmara dos Representantes em 1993 como independente, ingressando no PLD em 1996.
Ao longo da carreira, ocupou diversos cargos ministeriais, incluindo o de ministra de Assuntos Internos e Comunicações e o de ministra de Segurança Econômica. Durante o governo de Shinzo Abe (2012–2020), foi uma defensora ativa de suas políticas nacionalistas, alinhando-se à ala mais à direita do PLD.
Ela já havia sido derrotada em duas tentativas anteriores –em 2021, contra Fumio Kishida, e em 2024, contra Shigeru Ishiba– antes de conquistar a liderança da sigla em 2025.
À época das eleições Legislativas do Japão, realizadas em 21 de outubro de 2025, o Poder360 produziu um material sobre o perfil da candidata (leia aqui).
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