Queridos irmãos e irmãs em Cristo, “(5) … a fé que vocês têm não se baseia na sabedoria humana, mas no poder de Deus… (6) Porém, para os que são espiritualmente maduros, anunciamos uma mensagem de sabedoria. Mas não é de uma sabedoria deste mundo nem a dos poderes que o governam e que estão perdendo o seu poder. (7) A sabedoria que anunciamos é a sabedoria secreta de Deus, escondida dos seres humanos, a sabedoria que o próprio Deus, antes mesmo da criação do mundo, já havia escolhido para a nossa glória. (1 Co 2.5-7 – NTLH).”
Meus irmãos, nós vivemos em um tempo em que a fé, muitas vezes, é empurrada para o campo do privado. Escutamos com frequência frases como: “a fé é algo pessoal”, “religião não se mistura com a vida pública”, ou ainda: “o importante é acreditar, não importa como se vive”. Há um fundo de verdade nisso: a fé nasce, sim, no coração, é dom de Deus, obra do Espírito Santo, como nos lembra o apóstolo Paulo. No entanto, a Palavra de Deus deixa claro que a fé verdadeira nunca permanece escondida, nunca fica confinada apenas ao interior da pessoa. A fé verdadeira transborda para inundar a vida de outras pessoas.
A fé que Deus cria em nós por meio do Evangelho sempre se torna visível. Ela se manifesta em palavras, atitudes, escolhas, gestos concretos de amor, justiça e misericórdia. A fé que Deus cria, está nos move a um constante pedir por misericórdia, um agir sereno, um constante examinar o nosso “eu” interior. E é exatamente isso que os textos bíblicos deste 5º final de semana na Epifania, nos ensinam a refletir e viver.
Vejamos que o Salmo 112 descreve a vida daquele que teme ao Senhor e se alegra em obedecer aos seus mandamentos. Isaías 58 denuncia uma religiosidade vazia, que jejua e ora, mas ignora o sofrimento do próximo. Paulo, em 1 Coríntios 2, nos lembra que tudo começa na revelação de Deus, não na sabedoria humana. E Jesus, no Evangelho de Mateus, nos chama de sal da terra e luz do mundo, não como um título de honra, mas como uma vocação.
À luz desses textos, somos convidados a refletir: como a fé que confessamos com os lábios se torna visível na vida diária? O tema que nos guia hoje é este: “Quando a fé se torna visível: Somos sal, luz e cuidado com o próximo.”
Todavia, antes de falarmos sobre ações, obras e testemunho, é fundamental deixar algo muito claro: a fé não nasce da nossa iniciativa. Ela não é produto da nossa inteligência, nem do nosso esforço moral. O apóstolo Paulo deixa isso explícito em 1 Coríntios 2.9-10, Ele escreve: “(9) “O que ninguém nunca viu nem ouviu, e o que jamais alguém pensou que podia acontecer, foi isso o que Deus preparou para aqueles que o amam.” (10) Mas foi a nós que Deus, por meio do Espírito, revelou o seu segredo. O Espírito Santo examina tudo, até mesmo os planos mais profundos e escondidos de Deus.” (1Co 2.9-10 – NTLH).
Importante destacar que Paulo escreve e está falando a uma comunidade que valorizava muito o conhecimento, a retórica, a sabedoria humana. A cidade de Corinto era a capital da província romana na Acaia, uma grande e prospera cidade, famosa por sua cultura, seu comércio e por sua imoralidade. Era tanta a imoralidade dos coríntios, que o verbo corintianizar começou a ser usado para dizer: “cometer imoralidade”. Era também uma cidade religiosa: havia pelo menos doze templos na cidade, inclusive o de Afrodite, a deusa do amor, o de Asclépio o deus das curas e o enorme templo de Apolo construído no sexto século antes de Cristo. Havia também uma sinagoga de judeus, por isso a minoria cristã da cidade enfrentava dificuldades em manter firme a sua fé em Cristo Jesus e viver uma vida digna de seguidores de Jesus. Neste contexto, Paulo afirma que a fé cristã não se sustenta em discursos bonitos, ou, nas falsas e muitas promessas de bênçãos que são prometidas por líderes espirituais, nem em argumentos filosóficos sofisticados. Ela se sustenta na revelação de Deus em Jesus Cristo, especialmente na cruz. Isto é: Quer conhecer e entender a sua fé? Então é preciso ouvir a pregação de Lei e Evangelho.
Pouco antes, Paulo diz que anunciou o evangelho “com simplicidade”, para que a fé dos cristãos não estivesse “na sabedoria humana, mas no poder de Deus” (1 Co 2.5, NTLH). Isso é profundamente luterano. Martinho Lutero insistia que tudo começa com a graça de Deus, com a Palavra que nos alcança, nos confronta e nos consola. Portanto, quando falamos de fé visível, não estamos falando de um esforço humano para “parecer cristão”, mesmo que a maioria das pessoas pensam em fé como algo que se baseia nas roupas e alguns hábitos inventados para dar aparência de fé. Ao falarmos de fé, nós estamos falando do fruto natural de uma fé que nasceu do encontro com Cristo. Primeiro Deus age em nós; depois, essa ação se reflete na nossa vida que alcança com graça a outras pessoas.
Aqui é preciso observar o perigo de vivermos uma fé invisível e vazia. E é exatamente esse ponto que o profeta Isaías denuncia no capítulo 58 (importante ler para entender). Em Isaías está registrado que o povo de Israel reclamava que Deus não respondia às suas orações e jejuns. Eles se consideravam religiosos, piedosos, cumpridores de rituais. Mas Deus responde de forma dura e direta. O texto diz: “(3) “A verdade é que nos dias de jejum vocês cuidam dos seus negócios e exploram os seus empregados. (4) Vocês passam os dias de jejum discutindo e brigando e chegam até a bater uns nos outros.” (Is 58.3-4 – NTLH).
Deus deixa claro que não se agrada de uma religiosidade que se limita a práticas externas, enquanto ignora a injustiça, a opressão e o sofrimento humano. O problema não era o jejum em si, mas o fato de que ele não produzia nenhum impacto na forma como as pessoas tratavam o próximo. A pergunta que deixo é: E como está a sua vida?
Por isso, o Senhor pergunta, por meio do profeta: “Será que desejo que passem fome, que se curvem como um bambu, que vistam roupa feita de pano grosseiro e se deitem em cima de cinzas? É isso o que vocês chamam de jejum? Acham que um dia de jejum assim me agrada?” (Is 58.5 – NTLH). E então Deus mostra qual é o jejum que lhe agrada: “(6) “Não! Não é esse o jejum que eu quero. Eu quero que soltem aqueles que foram presos injustamente, que tirem de cima deles o peso que os faz sofrer, que ponham em liberdade os que estão sendo oprimidos, que acabem com todo tipo de escravidão. (7) O jejum que me agrada é que vocês repartam a sua comida com os famintos, que recebam em casa os pobres que estão desabrigados, que deem roupas aos que não têm e que nunca deixem de socorrer os seus parentes.” (Is 58.6-7 – NTLH).
Aqui fica claro: uma fé que não se traduz em cuidado com o próximo se torna invisível, vazia, contraditória. Não porque as obras salvem, mas porque a ausência delas revela que algo está errado na raiz. Começa na Palavra ouvida e crida e essa palavra se torna ação em favor do próximo. É nesse contexto que as palavras de Jesus em Mateus 5.13-20, ganham ainda mais força. No Sermão do Monte, Jesus olha para os seus discípulos — pessoas simples, comuns, imperfeitas — e diz algo surpreendente: “Vocês são o sal para a humanidade” (Mt 5.13 – NTLH). “Vocês são a luz para o mundo” (Mt 5.14 – NTLH).
Jesus não diz: “Vocês devem tentar ser” ou “talvez um dia sejam”. Ele afirma: vocês são. Isso não é uma exigência moral, mas uma consequência da relação com Ele. É o mesmo sentido de Levítico 19.2: “— Sejam santos, pois eu, o Senhor, o Deus de vocês, sou santo.” Isto é, se estamos em Deus somo santos, pois ele nos santifica, assim também se estamos em Cristo, nós somos, isto é, indica uma constatação, um estado de ser ou uma certeza deste existir.
O sal não existe para si mesmo. Ele existe para dar sabor e preservar. A luz não brilha para ser admirada, mas para iluminar, orientar, revelar caminhos. Da mesma forma, a fé não é algo que guardamos como um tesouro escondido, mas algo que se manifesta naturalmente na forma como vivemos. Jesus continua dizendo: “Assim também a luz de vocês deve brilhar para que os outros vejam as coisas boas que vocês fazem e louvem o Pai de vocês, que está no céu.” (Mt 5.16 – NTLH).
Note bem: as boas obras não apontam para nós, mas para Deus. Elas não servem para nos tornar melhores do que os outros, mas para que o mundo reconheça a bondade do Pai. Por isso que o Salmo 112 descreve, de forma poética, como é a vida daquele cuja, a fé se tornou visível. O salmista diz: “Feliz aquele que teme a Deus, o Senhor, que tem prazer em obedecer aos seus mandamentos!” (Sl 112.1 – NTLH). No entanto, esse temor não é medo, mas confiança, reverência, fé. E essa fé se expressa em atitudes concretas. O salmo diz que essa pessoa é generosa, empresta com bondade, conduz seus negócios com justiça e se lembra dos pobres. Um verso diz: “Ele dá generosamente aos pobres, e a sua bondade dura para sempre. Ele é poderoso e respeitado.” (Sl 112.9 – NTLH).
Aqui vemos a harmonia perfeita com Isaías 58 e com as palavras de Jesus. A fé verdadeira gera uma vida marcada por justiça, generosidade e cuidado com o próximo. Não como moeda de troca com Deus, mas como resposta agradecida à graça recebida.
Gostaria de contar-lhes uma pequena ilustração: Conta-se que, durante um grande apagão em uma cidade, as ruas ficaram completamente escuras. Sem iluminação pública, sem vitrines acesas, sem faróis funcionando, as pessoas ficaram desorientadas e com medo. Em meio à escuridão, um homem simples começou a caminhar com uma pequena lanterna na mão. A luz era fraca, não iluminava toda a rua, mas era suficiente para mostrar onde pisar. Outras pessoas, ao verem aquela pequena luz, começaram a segui-la. Não porque fosse poderosa, mas porque era visível. Aquela lanterna não acabou com o apagão da cidade, mas fez toda a diferença para quem estava ao redor. Assim é a fé cristã no mundo. Não somos chamados a iluminar tudo, nem a resolver todos os problemas. Somos chamados a deixar a luz de Cristo brilhar através de nós, em gestos simples, concretos, visíveis: uma palavra de consolo, um prato de comida, uma atitude justa, uma mão estendida.
Meus irmãos, a Epifania é o tempo em que celebramos a manifestação de Deus ao mundo em Jesus Cristo. E essa manifestação continua acontecendo quando a fé, criada pelo Espírito Santo em nossos corações, se torna visível na vida diária. Agora que Jesus se manifestou a nós e, sua Palavra o conhecemos e cremos, agora é o momento de nós o manifestar para as outras pessoas.
Afinal, o apóstolo Paulo nos lembra que tudo começa na revelação de Deus. Isaías nos alerta contra uma fé vazia e sem compromisso. O Salmo 112 nos mostra como vive aquele que teme ao Senhor. E Jesus nos chama de sal da terra e luz do mundo. Que possamos sair daqui com esta certeza: não somos sal e luz por esforço próprio, mas porque Cristo nos alcançou com sua graça. E justamente por isso, nossa fé não pode ficar escondida. Ela se torna visível no amor, na justiça e no cuidado com o próximo.
“Que o Espírito Santo nos conduza a viver uma fé que não apenas se confessa com os lábios, mas que se manifesta em gestos concretos, para a glória de Deus e para o bem do mundo. Amém!”
O post “QUANDO A FÉ SE TORNA VISÍVEL: SOMOS SAL, LUZ E CUIDADO COM O PRÓXIMO” apareceu primeiro em A Gazeta do Amapá.
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