Um estudo no observatório ATTO, perto de Manaus, encontrou microrganismos viáveis na água da neblina. As gotas podem redistribuir vida microscópica na floresta e ajudar a monitorar impactos de queimadas, clima e qualidade do ar no Brasil.

A neblina que aparece antes do amanhecer na Amazônia parece só um detalhe bonito da paisagem. Mas ela pode carregar algo surpreendente: vida microscópica. Um estudo recente detectou microrganismos viáveis, ainda metabolicamente ativos, dentro das gotículas de neblina coletadas acima da floresta.
A relevância vai além da curiosidade. A neblina faz parte do “ciclo curto” de água e energia na floresta: forma-se quando o ar úmido esfria, reduz a visibilidade e desaparece com o aquecimento do dia. Se essas gotas transportam micróbios, elas também ajudam a explicar como organismos se dispersam no dossel e como materiais do ar retornam para folhas e solo.
O que havia dentro das gotas
Os pesquisadores coletaram água de neblina em 13 eventos no observatório ATTO (Observatório da Torre Alta da Amazônia), a cerca de 150 km de Manaus, em campanhas que atravessaram períodos de seca e de chuva.
As análises indicaram concentrações na ordem de dezenas de milhares de células por mililitro, com grande variação de um evento para outro. Em laboratório, parte dos microrganismos cresceu em cultivo: apareceram bactérias associadas a ambientes úmidos e superfícies vegetais, além de fungos comuns em solo e matéria orgânica. Em outras palavras, a neblina amazônica não é “água pura”; ela vem misturada com o que está circulando no ecossistema.
Como a ciência “enxerga” vida na neblina
A pergunta mais comum é: como saber se uma célula numa gota está viva? Uma das técnicas usadas foi a citometria de fluxo, que faz as partículas passarem por um feixe de luz e mede sinais de corantes. Assim, os cientistas identificam células com material genético e, entre elas, aquelas com sinais de atividade metabólica, um indicativo de viabilidade.

Em termos práticos, o estudo ajuda a traduzir o que uma gota de neblina pode carregar:
- células vivas e ativas, não apenas fragmentos biológicos;
- bactérias e fungos que refletem o ambiente da floresta (folhas, solo, matéria orgânica);
- partículas do ar que funcionam como “semente” para a gota se formar;
- variação grande entre eventos, sugerindo influência do tempo e das condições locais.
A neblina pode ser vista como um “transporte de curta distância”. Ela se forma quando o ar esfria perto da floresta e se dissipa com a mistura do ar ao amanhecer. Nesse vai e vem, as gotículas capturam material do ambiente e depois o devolvem por deposição em folhas, galhos e no chão, potencialmente redistribuindo microrganismos dentro do ecossistema.
Do achado ao uso prático
Para o Brasil, a descoberta abre duas linhas de aplicação. A primeira é científica: mapear melhor quem são esses microrganismos (incluindo os que não crescem em cultivo) e como eles mudam com estação, fumaça de queimadas, poeira e mudanças no uso do solo.
A segunda é de gestão ambiental e comunicação de risco. Se a neblina carrega uma “carga biológica”, ela pode virar um indicador sensível do estado do ar e da floresta, e reforça a importância de monitorar partículas finas em períodos de queimadas, quando a atmosfera fica mais carregada.
O desafio é transformar medições pontuais em séries longas, captando anos chuvosos, anos secos e extremos. A chance está em integrar torres, satélites e laboratório para entender o que a neblina leva e o que ela devolve para a própria Amazônia.
Referência da notícia
Amazonian fog harbors viable microbes. 3 de fevereiro, 2026. Godoi, R.H.M., Hara, E.L.Y., Sebben, B.G. et al.
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