O Super Bowl 60, o grande evento dos esportes norte-americanos, é disputado neste domingo (8.fev.2026) com show do cantor porto-riquenho Bad Bunny no intervalo. A escolha da NFL (National Football League) por um artista latino e contrário ao presidente Donald Trump (Partido Republicano) é o capítulo mais recente da série de impasses entre o republicano e a liga de futebol americano ao longo dos anos.
As tensões giram em torno de supostos posicionamentos políticos adotados pela liga, seus jogadores ou dirigentes –tomados pela gestão do republicano como oposição direta aos valores que ele defende.

PROTESTO E HINO NACIONAL
Foi durante o 1º mandato de Trump que protestos contra a brutalidade policial e o racismo sistêmico nos Estados Unidos ganharam adesão dos jogadores da liga. O republicano desde o início foi contrário ao movimento.
Em 2016, o quarterback Colin Kaepernick, à época no San Francisco 49ers, começou a se ajoelhar durante o hino nacional norte-americano em forma de protesto. “Não vou me levantar para demonstrar orgulho por uma bandeira de um país que oprime negros e pessoas de cor”, afirmou o jogador à NFL Media, em agosto daquele ano.
O então candidato Donald Trump disse que a ação era “uma coisa terrível” e recomendou que Kaepernick encontrasse “um país que funcione melhor para ele”.
Em 2017, as manifestações se intensificaram entre os jogadores. Trump, já eleito, disse que todos os que protestavam deveriam ser demitidos pelos times da NFL. “Isso é uma total falta de respeito à nossa herança. É uma total falta de respeito a tudo o que defendemos”, afirmou.
As manifestações continuaram. Em 2018, o republicano cancelou a visita anual do time vencedor do Super Bowl –à época, o Philadelphia Eagles–, à Casa Branca, depois de a maior parte dos jogadores e comissão técnica anunciarem boicote ao evento.
Trump ameaçou os jogadores que protestavam, apesar de medidas disciplinares serem de autoridade apenas da NFL. “Fiquem de pé com orgulho durante o hino nacional ou serão suspensos sem remuneração!”, escreveu no X (ex-Twitter) em agosto de 2018. O republicano disse que um jogo de futebol americano “não é lugar para protestar”.
Em meio à pressão do presidente, a NFL adotou uma nova política de hino nacional para a temporada de 2018. Os jogadores teriam a opção de permanecer em pé durante a apresentação ou ficar nos vestiários. A medida foi aprovada por unanimidade pelos donos das equipes.
Depois da morte de George Floyd em 2020, tragédia que desencadeou em uma série de protestos contra o racismo nos EUA, o comissário da NFL, Roger Goodell, disse ter errado “por não ter ouvido os jogadores antes” e passou a encorajar manifestações pacíficas.
Segundo reportagens da ESPN, a situação causou desconforto na liga. Em resposta, a NFL criou a iniciativa Inspire Change (Inspire Mudança, em tradução livre), comprometendo US$ 89 milhões para apoiar causas sociais, e estabeleceu parceria com a Roc Nation, empresa de entretenimento do cantor Jay-Z, para remodelar o show do intervalo e ajudar a liga a ser mais proativa no trabalho de justiça social.
2º MANDATO
Em 2025, Trump se tornou o 1º presidente em exercício a comparecer a um Super Bowl. Em maio, o republicano recebeu Goodell na Casa Branca, junto ao proprietário do Washington Commanders, Josh Harris, para o anúncio de que a capital norte-americana sediaria o Draft –recrutamento de calouros–, da liga, em 2027.
Nas semanas anteriores ao encontro, o Commanders anunciou um acordo para construir o novo estádio do time. Em julho, porém, Trump ameaçou bloquear o projeto caso o time não retorne ao seu nome anterior.
O Washington Commanders abandonou o nome Redskins em 2020, depois de críticas de que o termo seria ofensivo para povos indígenas e teria associações com o genocídio da população nativa nos Estados Unidos.
Em setembro de 2025, Trump criticou a nova regra de kickoff da NFL, criada para aumentar a segurança dos jogadores. Segundo o republicano, “esse futebol ‘para maricas’ é ruim para os Estados Unidos e ruim para a NFL!”.
Em novembro, o republicano compareceu a uma partida de temporada regular. Foi a 1ª vez que um presidente o fez desde Jimmy Carter (Partido Democrata), há quase 50 anos. A agência Associated Press e o veículo CBS News mencionaram vaias contra Trump.
As investidas do republicano contra a liga no 2º mandato têm em comum a oposição contra o que Trump considera “cultura woke”. Diferentemente do 1º mandato, a NFL tem adotado uma atitude mais cautelosa agora. Segundo o executivo de um clube não identificado, citado pela ESPN, a NFL está tentando “redobrar sua postura apolítica”.
BAD BUNNY E ICE
A NFL anunciou Bad Bunny, o artista mais escutado do mundo em 2025 no Spotify, como atração principal do Super Bowl 60 em setembro de 2025. A decisão foi tomada em parceria da liga com a patrocinadora Apple Music e a Roc Nation.
De acordo com executivos da NFL, à ESPN, a escolha do artista latino atende aos interesses da liga de ampliar seu público global. Na atual temporada, 7 jogos foram realizados em 5 cidades internacionais, dentre elas São Paulo –em 2026, será a vez do Rio de Janeiro. Goodell afirmou que deseja que cada equipe jogue no exterior uma partida todos os anos.
Trump chamou a escolha pelo artista caribenho de “absolutamente ridícula”. Bad Bunny é crítico do presidente norte-americano e sua política anti-imigração, tendo apoiado Kamala Harris (Partido Democrata) nas eleições de 2024.
Em entrevista, o cantor disse não ter incluído shows nos EUA em sua turnê de 2025 por receio das batidas do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) e a deportação em massa de latinos no país.
Kristi Noem, secretária de Segurança Interna dos EUA, criticou a escolha da NFL para o show do intervalo. Em outubro de 2025, ela alertou que agentes do ICE estariam “por toda parte” no evento.
Em fala a jornalistas na 3ª feira (3.fev), a chefe de segurança da NFL desmentiu a informação de Noem. “Não há operações planejadas do ICE ou de fiscalização de imigração programadas para o período do Super Bowl”, declarou.
Em janeiro, Trump declarou que não irá ao Super Bowl 60 por ser “muito longe”. A partida é disputada em Santa Clara, Estado da Califórnia –a cerca de 4.000 km de Washington. Na ocasião, o republicano voltou a criticar as escolhas musicais.
Além de Bad Bunny, a banda Green Day participará da abertura do evento. O grupo mantém histórico de confronto com governos do Partido Republicano. Um dos principais sucessos da banda, “American Idiot”, do álbum homônimo lançado em 2004, foi composto como crítica direta ao então presidente George W. Bush, no contexto da guerra do Iraque e da política externa dos EUA no período.
Ao comentar as escolhas, o presidente afirmou: “Sou contra eles. Acho que é uma escolha péssima. Tudo o que isso faz é semear ódio. Péssimo”, declarou ao New York Post.
Esta reportagem foi produzida pelo estagiário de jornalismo João Lucas Casanova sob supervisão da editora-assistente Aline Marcolino.
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