O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, afirmou que o grande desafio do Brasil é “reduzir a dinâmica de crescimento de despesas obrigatórias” para ampliar o volume de investimentos. Entre essas despesas, Ceron destacou a Previdência e o BPC (Benefício de Prestação Continuada), auxílio do governo federal a pessoas com deficiência ou idosos que não têm condições de se sustentar.
“A dinâmica de crescimento do sistema previdenciário e do BPC precisa ser num ritmo inferior ao do arcabouço fiscal. O BPC teve várias correções para evitar abusos e, ainda assim, cresceu 9%. Isso não é algo saudável para o futuro”, declarou Ceron em entrevista ao jornal O Globo publicada nesta 2ª feira (9.fev.2026).
Para o secretário, é preciso “normalizar ajustes da Previdência”, uma vez que ela precisa acompanhar a expectativa de vida –índice que vem aumentando no Brasil. “O país está envelhecendo. Nós mandamos, por exemplo, ajustes na Previdência dos militares. Tem de naturalizar essa discussão. Todos os países passam por isso”, declarou.
Questionado sobre por que a dívida pública chegou aos 78,7% do PIB (Produto Interno Bruto), se a meta do Tesouro era não deixar ultrapassar os 80% até 2032, Ceron respondeu que “em 2024, a política monetária dos Estados Unidos não se flexibilizou, o que trouxe uma subida na taxa de juros e maior incerteza”.
Além disso, no cenário interno, houve o anúncio do pacote de corte de gastos, incluindo a isenção do IR (Imposto de Renda), que provocou instabilidade.
“Em 2025, tivemos uma subida das taxas de curto prazo e no horizonte mais longo. Se a gente estivesse em uma normalidade, como era esperado em 2023, a dinâmica da dívida seria marginal nesse momento”, acrescentou.
Ceron afirmou que o governo “em praticamente todo semestre” fez alguma proposta para conter a despesa e disse acreditar que os ajustes feitos no ano passado são suficientes para atingir a meta fiscal de superavit de 0,25% do PIB, caso o cenário não se altere bruscamente.
“Esse ano estamos focados em atingir o resultado fiscal que está estabelecido, que é desafiador. Estamos convictos que vamos entregar o resultado novamente. Se for necessário, vamos fazer algum ajuste, sim, levado às instâncias de decisão, com o presidente [Luiz Inácio] Lula [da Silva (PT)]”, disse.
ESTATAIS
Ceron não afastou a possibilidade de o Tesouro Nacional fazer novos aportes aos Correios. “Houve o compromisso de que haveria aporte dos acionistas até o patrimônio líquido reverter para positivo. Nós nos comprometemos a fazer aportes até 2027, assim como a empresa se comprometeu a fazer diversas reestruturações”, afirmou.
Segundo o secretário, no entanto, para o ano de 2026 é menos provável que haja aporte, uma vez que não foi incorporado ao projeto da lei orçamentária. “Para o ano que vem, com certeza, na preparação do Orçamento, devemos colocar ali um montante. Fizemos uma sinalização de até R$ 6 bilhões”, previu.
Quanto à Eletronuclear, Ceron declarou que o ponto mais importante é a decisão de prosseguir ou não com as obras na usina de Angra 3. “Se for terminar, serão necessárias algumas dezenas de bilhões de investimento. Se não for, vai ter de gastar algumas dezenas de bilhões para demolir. Estamos em um trabalho intenso com o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], buscando caminhos para uma solução razoável”, disse.
FUTURO NA FAZENDA
Durante a entrevista, Ceron foi questionado se será o secretário-executivo no lugar de Dario Durigan, que deve assumir o Ministério da Fazenda quando Fernando Haddad (PT) deixar a pasta ainda este mês.
O secretário respondeu que tentou “ao máximo conduzir um trabalho sério” e que está “à disposição para ajudar” no que o ministro e Lula entenderem.
“Essa pergunta é mais para eles do que para mim, mas estou disposto a continuar. Quero permanecer até o final deste ciclo”, afirmou.
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