A cientista, “esquecida” pela história, foi uma das primeiras a teorizar sobre o aumento das temperaturas globais com o aumento do CO2 na atmosfera.

O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado dia 11 de fevereiro desde 2015, uma data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para reconhecer e fortalecer a participação feminina em todas as áreas científicas. Embora avanços importantes tenham sido conquistados, as mulheres enfrentaram e ainda enfrentam desigualdades históricas, menor acesso a oportunidades e menor reconhecimento por suas contribuições.
Muito antes de o debate sobre mudanças climáticas ganhar espaço global, uma cientista já investigava o papel dos gases na temperatura do planeta. A Meteored aproveita a data de hoje para homenagear Eunice Foote, de forma a contribuir para seu devido reconhecimento histórico dentro da ciência do clima.
Quem foi Eunice Newton Foote?
Eunice Newton Foote nasceu em 17 de julho de 1819 na cidade de Goshen, em Connecticut, Estado Unidos, tendo vivido até os 69 anos. Eunice estudou no Troy Female Seminary, instituição pioneira no ensino científico para mulheres nos Estados Unidos, que já oferecia aulas práticas de ciências no início do século 19.
Seu nome vem sendo associado ao termo “cientista amadora”, não porque não era qualificada, mas porque ela não tinha um cargo formal em universidades ou academias científicas, algo que, na prática, era quase inacessível para mulheres naquela época.

Em 1856, Eunice Foote apresentou as primeiras evidências experimentais de que o dióxido de carbono (CO₂) poderia aquecer a atmosfera. Seu trabalho antecipou em anos descobertas que se tornariam centrais para estudos do clima, mas seu nome acabou ficando à margem da história.
A experiência que antecipou o futuro do clima
Eunice realizou um experimento simples, porém engenhoso: utilizou cilindros de vidro com termômetros em seu interior. Em um deles, colocou “ar comum” e, no outro, CO₂. A cientista notou que o cilindro com CO₂ alcançava temperaturas mais altas, tanto na sombra quanto exposto ao Sol.
A partir dessa constatação, ela formulou uma hipótese notável para a época: se a atmosfera terrestre tivesse maior concentração desse gás, a temperatura do planeta poderia aumentar. Ou, em suas próprias palavras:
Era uma descrição pioneira do princípio físico que hoje chamamos de efeito estufa.

Seu artigo foi publicado no American Journal of Science and Arts em 1856. No entanto, sua pesquisa não foi apresentada por ela mesma em congresso científico, mas por Joseph Henry, então secretário do Smithsonian Institution. Embora ele tenha reconhecido a autoria de Eunice, o fato de uma mulher não apresentar o próprio trabalho revela as limitações impostas às cientistas no século 19.
Por que ela foi “apagada” da história?
Três anos depois, o físico irlandês John Tyndall realizou experimentos mais sofisticados sobre a absorção de radiação infravermelha por diferentes gases. Com equipamentos avançados e inserido em uma rede científica consolidada na Europa, Tyndall ficou conhecido como o responsável por demonstrar o papel dos gases no aquecimento atmosférico.
Não há consenso sobre se ele conhecia o trabalho de Eunice. O que se sabe é que ele teve acesso a melhores laboratórios, maior circulação internacional e reconhecimento institucional, privilégios raramente disponíveis a mulheres naquela época.
Outro fator importante foi o contexto geográfico e político. A produção científica europeia tinha maior prestígio internacional, enquanto pesquisas realizadas nos Estados Unidos ainda lutavam por reconhecimento. Somados, gênero, posição social e localização geográfica contribuíram para que seu nome fosse gradualmente esquecido.
Uma feminista em ação
Eunice não se destacou apenas pela ciência. Ela também participou ativamente da Convenção de Seneca Falls Convention, em 1848, um marco do movimento pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos. Seu nome aparece entre os signatários (quem assinou) da “Declaração de Sentimentos”, documento que reivindicava igualdade civil e política, incluindo o direito ao voto feminino.

Esse engajamento mostra que sua trajetória científica estava conectada a uma visão mais ampla de transformação social. Ela viveu em uma época em que mulheres raramente tinham acesso a formação científica avançada, e ainda assim produziu conhecimento original e relevante.
Resgatar nomes, recontar a história
Nas últimas décadas, pesquisadores redescobriram seu artigo e trouxeram sua contribuição de volta ao debate histórico. Hoje, Eunice Newton Foote é reconhecida como uma das primeiras pessoas a estabelecer experimentalmente a relação entre dióxido de carbono e aquecimento atmosférico.
O Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG/USP) desenvolve um projeto de extensão batizado em homenagem à cientista: o Projeto Eunice.

A iniciativa das professoras Dra. Marcia Akemi Yamasoe e Dra. Rita Yuri Ynoue leva experimentos e atividades de meteorologia a turmas do ensino fundamental, com objetivo de despertar o interesse de meninas e meninos pelas ciências exatas desde cedo. O projeto conta com versões presencial e online, sendo que a edição de 2026 está com inscrições abertas até 27 de fevereiro.
Celebrar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência também significa revisitar histórias como a Eunice Foote. Muitas mulheres estiveram à frente de seu tempo, mas tiveram suas realizações minimizadas ou esquecidas em contextos que privilegiavam trajetórias masculinas.
Resgatar essas pioneiras não é apenas fazer justiça histórica: é ampliar referências, inspirar novas gerações e lembrar que a ciência sempre foi construída por muitas mulheres, mesmo quando nem todas foram ouvidas.
Referências da Notícia
Eunice Foote: a feminista que descobriu o efeito estufa e foi esquecida, agora homenageada pelo Google, publicado por BBC em 8 de março de 2023.
Eunice Newton Foote, em Wikipedia.
Projeto Eunice, por IAG-USP.
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