O presidente do BC (Banco Central), Gabriel Galípolo, disse nesta 4ª feira (11.fev.2026) que a autoridade monetária estuda medidas para evitar “os mesmos erros” que ocasionaram a liquidação do caso do Banco Master e as invasões no sistema financeiro. As ações buscam diminuir a maior exposição do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) a bancos e outras instituições financeiras com patrimônio alavancado.
O caso Master deixará mais de R$ 47 bilhões em rombo no fundo. O banco foi liquidado em 18 de novembro com 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do sistema financeiro nacional. O BC disse, na época, que a intervenção não provocaria risco sistêmico. Por outro lado, o FGC terá que pagar o maior valor da história aos credores.
O presidente do BC disse que foram feitas mudanças sobre quais são os ativos elegíveis para o uso do FGC como garantia. Além disso, a autoridade monetária definiu o quanto o banco pode alavancar o seu patrimônio para ter como garantia o FGC, impondo um “custo mais alto a partir de um certo nível de alavancagem”.
O BC impôs limites onde o banco é obrigado a “esterilizar” em títulos públicos.
Galípolo disse que o BC discute em consulta pública regras para observar a qualidade dos ativos para que haja a certeza de que quem está fazendo a captação em varejo está adotando uma “atuação adequada” do ponto de vista dos ativos e passivos.
“A gente sabe que é um trabalho contínuo e que depende desse trabalho conjunto: a autoridade monetária, o supervisor do sistema, o sistema financeiro como um todo nesse diálogo”, disse.
Galípolo comparou as irregularidades no sistema financeiros a “doping”. Afirmou que, quando a polícia fecha uma porta, o ladrão tenta por outro caminho.
Ele comentou também sobre os ataques de invasão no sistema financeiro que “demandaram resposta rápida e ativa” do Banco Central para fechar as brechas regulatórias.
“Isso é um trabalho contínuo. Queria dizer para vocês que não vai voltar a acontecer uma liquidação de banco, ou que não pode voltar a acontecer um incidente, mas isso é meio doping e antidoping. Polícia e ladrão. Você fecha uma porta, ele vai tentar um outro caminho. O que a gente precisa é estar aprimorando e melhorando para que não voltem a ocorrer os mesmos erros”, declarou Galípolo.
Ele agradeceu o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pela generosidade e apoio na condução do caso. Também agradeceu o presidente da PF (Polícia Federal), Andrei Rodrigues, pelo trabalho conjunto.
“O mercado financeiro fica com uma grande dívida com a Polícia Federal, que está fazendo um trabalho fantástico, realmente”, disse Galípolo. Ele participou do “CEO Conference Brasil 2026”, organizado pelo BTG Pactual, em São Paulo.
BANCO MASTER & BC
Na 2ª feira (9.fev.2026), o presidente do BC havia dito que a autoridade monetária não havia encontrado “evidências” que pudessem corroborar a “existência da carteira” com liquidez no balanço do Master. Ou seja, o BC tinha um documento que atestava uma possível fraude.
A versão diverge do que foi afirmado pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, em depoimento à Polícia Federal em 30 de dezembro de 2025. O conflito é sobre quando a autoridade monetária teve segurança sobre a inexistência de liquidez em carteiras de créditos que estavam no balanço do Banco Master.
Eis o que disse Gabriel Galípolo na 2ª feira (9.fev.2026):
- “Em março, esse grupo [dentro do BC] apresenta uma primeira versão para o diretor de Fiscalização desses estudos onde não encontra evidências que corroborem a existência da carteira [de crédito lançada no balanço do Master]”.
Eis o que disse Aquino em 30 de dezembro de 2025:
- “Quando foi que nós decidimos, de fato, fazer a comunicação e a certeza da inexistência [da carteira]? Foi quando nós fizemos uma reunião com representantes da Carto e da Tirreno. Está na minha agenda pública” [que informa que esse encontro foi só em 27 de junho de 2025].
Em nota enviada ao Poder360 na 2ª feira (9.fev.2026), o Banco Central disse que não houve conflito de versões entre Galípolo e o diretor. Leia:
- “O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, se referiu ao período das suspeitas iniciais. O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Santos, se referiu ao momento posterior, quando houve confirmação documental e material das inconsistências”.
Galípolo disse que o Banco Central passou a “levantar dúvidas” sobre as carteiras de crédito do Banco Master em janeiro de 2025. A instituição financeira foi liquidada extrajudicialmente em 18 de novembro, ou 10 meses depois.
A CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado aprovou na 3ª feira (10.fev.2026) convites para que Galípolo e Aquino prestem esclarecimentos sobre o caso. O diretor-geral da PF (Polícia Federal), Andrei Rodrigues, também recebeu o convite. A comissão instalou em 4 de fevereiro um GT (grupo de trabalho) para investigar as fraudes envolvendo o banco liquidado.
Na 3ª feira (10.fev.2026), o presidente da CAE, senador Renan Calheiros (MDB-AL), disse que o Banco Central precisa “explicar porque demorou tanto a fazer a liquidação” do Master.
“O ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto mandou 18 advertências para o Banco Master e não encaminhou nada como consequência disso. São essas questões que nós precisamos saber, porque elas, de fato, aconteceram”, disse o senador.
Em 4 de fevereiro, Calheiros pediu ao BC os documentos da investigação, inclusive os dados sigilosos.
BTG PACTUAL
O CEO do BTG Pactual, Roberto Sallouti, disse que o caso do Master é relevante e ficou “claro que as regras de uso do FGC” e de supervisão bancária têm que ser aprimoradas. Ele elogiou Galípolo pelo trabalho de equilibrar inovação, competição e segurança do sistema financeiro.
“Estamos discutindo agora com os bancos, com o FGC e com o Banco Central a capitalização do FGC. Estamos discutindo regras de como evitar que bancos fiquem totalmente dependentes do FGC no seu funding”, disse Sallouti.
Ele afirmou que há exemplos de regras na Europa e nos Estados Unidos com limites de concentração por canal de capitação de recursos, de concentração de depósitos garantidos, de ativos e outros.
Para Sallouti, as medidas devem ser adotadas com equilíbrio para que não acabe a competição no sistema financeiro.
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