Compartilham o nome e o aroma, mas não a mesma identidade. O verdadeiro boldo chileno e o chamado boldo brasileiro são espécies diferentes, com efeitos distintos e riscos associados à sua confusão.
Na América Latina, poucas plantas são tão populares quanto o boldo. Do Chile ao Brasil, milhões de pessoas o consomem em infusões digestivas após as refeições. Mas eis o problema: nem todo “boldo” é realmente boldo.
No Chile, o nome está associado à árvore nativa Peumus boldus, famosa por suas folhas grossas, perfume resinoso e propriedades benéficas para o fígado. No Brasil, porém, o que muitos conhecem como “boldo” vem de uma planta completamente diferente: Plectranthus barbatus, também chamada de boldo brasileiro, boldo indiano ou até mesmo falso boldo.
A confusão surge porque ambas as plantas compartilham um aroma semelhante e são usadas para fins parecidos, embora pertençam a famílias botânicas diferentes, com princípios ativos que atuam de forma distinta no organismo. E esse detalhe aparentemente insignificante pode fazer uma grande diferença em seu efeito terapêutico.
O verdadeiro boldo chileno: uma árvore com história medicinal.
O boldo chileno (Peumus boldus) cresce espontaneamente nas colinas e ravinas do centro do Chile. É uma árvore perene que pode atingir 6 metros de altura, com folhas grossas e coriáceas de uma coloração verde-acinzentada característica. Quando amassadas, liberam um aroma balsâmico e resinoso intenso e inconfundível.
As flores são pequenas, esbranquiçadas ou esverdeadas, dispostas em cachos discretos. Sua aparência é discreta, mas confirma sua natureza arbórea e distingue o boldo chileno de espécies tropicais com flores mais coloridas.
Botanicamente, pertence à família Monimiaceae, exclusiva do Hemisfério Sul. Seu principal composto é a boldina, um alcaloide com reconhecidas propriedades coleréticas, hepatoprotetoras e antioxidantes, que auxilia a digestão e estimula a função hepática. Por essa razão, o boldo chileno é utilizado desde os tempos pré-colombianos e foi adotado pela medicina europeia no século XIX.
O falso boldo: o impostor tropical do herbário
O boldo, originário do Brasil ou da Índia (Plectranthus barbatus), pertence à família Lamiaceae, a mesma do orégano, da hortelã e do manjericão. Diferentemente de seu equivalente chileno, é uma planta herbácea tropical com caules carnudos e folhas macias e pilosas. Seu aroma, embora semelhante, é mais fresco e mentolado, lembrando hortelã ou sálvia.
Suas flores se agrupam em espigas verticais e geralmente são lilás, roxas ou esbranquiçadas, mais vistosas do que as do boldo chileno.
Em alguns países, é utilizado na medicina tradicional oriental, especialmente em tratamentos relacionados à circulação ou ao metabolismo, embora não possua as propriedades digestivas ou hepáticas do boldo chileno.
Como começou a confusão
Durante o século XX, com o crescimento do comércio de plantas medicinais, muitas regiões onde o boldo chileno não crescia naturalmente começaram a buscar substitutos locais. No Brasil, o Plectranthus barbatus, de fácil cultivo e aroma similar, foi adotado como alternativa e comercializado simplesmente como “boldo”.
Com o tempo, esse nome se espalhou para outros países da América do Sul, e hoje ainda é comum encontrar “boldo brasileiro” ou “boldo indiano” em lojas de produtos naturais, sem esclarecer que não se trata do verdadeiro Peumus boldus. Em algumas embalagens, inclusive, as folhas de ambas as espécies são misturadas ou rotuladas indistintamente, aumentando o risco de confusão.
Riscos e precauções ao consumir este produto
Embora ambas as plantas “boldo” sejam naturais, elas não são equivalentes nem igualmente seguras. As propriedades químicas de cada uma determinam seus benefícios, mas também seus riscos.
Boldo chileno (Peumus boldus)
- O uso prolongado ou em altas doses pode causar náuseas ou irritação estomacal.
- Não é recomendado durante a gravidez ou amamentação, pois pode estimular a atividade uterina.
- Deve ser evitado em casos de obstrução biliar ou cálculos biliares, devido à sua ação colerética.
- Pode interagir com medicamentos metabolizados no fígado ou com anticoagulantes.
Falso boldo (Plectranthus barbatus)
- Em doses elevadas, pode baixar a pressão arterial ou causar tonturas.
- Pode afetar o metabolismo da tireoide, portanto não é recomendado para pessoas com distúrbios da tireoide.
- Deve ser evitado também durante a gravidez e a amamentação, pois não existem estudos conclusivos sobre a sua segurança.
- Em alguns casos, pode causar irritação gástrica ou refluxo, especialmente se consumido como uma infusão concentrada.
Uma identidade botânica que vale a pena proteger
Além de seus usos medicinais, o boldo chileno faz parte do patrimônio vegetal e cultural do Chile. É uma espécie endêmica, encontrada em florestas esclerófilas, e tem sido valorizada desde os tempos indígenas por suas propriedades curativas e fragrância característica.
Diferenciar a planta da sua versão tropical não só protege o consumidor, como também a identidade de uma planta única no mundo, que tem sido exportada e, em muitos casos, suplantada por espécies com aroma semelhante, mas de natureza diferente.
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