Mulheres negras (pretas e pardas) estão entre os grupos que encontram mais obstáculos para acessar crédito e expandir seus negócios no Brasil. A combinação entre desigualdades históricas de renda, menor acesso a patrimônio, dificuldades para oferecer garantias e barreiras estruturais no sistema financeiro limita o crescimento de milhares de empreendedoras.Diante desse cenário, o Sebrae tem fortalecido mecanismos voltados à inclusão financeira, como o Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas com foco nas empreendedoras (Fampe Mulher), que oferece garantia de até 100% da operação de crédito e amplia as chances de aprovação de financiamentos para negócios liderados por mulheres.O tema ganha ainda mais relevância às vésperas do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho. Estudos do DataSebrae mostram que empreendedores negros apresentam taxas de acesso ao crédito inferiores à média nacional e apontam a falta de garantias e os altos juros entre os principais entraves.No caso das mulheres pretas e pardas, esse desafio é intensificado por fatores como menor acumulação patrimonial, concentração em negócios de menor porte, sobrecarga com atividades de cuidado e menor acesso a redes de relacionamento e informação.
Divulgação do Fampe Mulher no Mutirão Acredita, em Pernambuco | Foto: ASN/PE.
Criado para enfrentar justamente uma das principais barreiras ao financiamento, o Fampe Mulher funciona como avalista da operação de crédito junto às instituições financeiras parceiras do Sebrae. O programa é destinado a microempreendedoras individuais (MEI), microempresas (ME) e empresas de pequeno porte (EPP) lideradas por mulheres, seja como sócias majoritárias ou administradoras. Além da garantia, o Sebrae oferece orientação para que as empresárias organizem suas finanças e estejam mais preparadas para contratar crédito e expandir seus negócios.Os resultados demonstram a importância da iniciativa. Desde sua criação, o Fampe Mulher já viabilizou mais de 17,2 mil operações, totalizando R$ 1,15 bilhão em crédito garantido. O desempenho financeiro também chama atenção: o índice de perdas é de apenas 0,06%, índice muito inferior ao registrado na carteira geral do Fampe, que costuma variar entre 3,5% e 4,5%.Com prazo de 24 meses em operação, o Fampe Mulher traz, no último ano, um crescimento mais acelerado das concessões, que pode refletir em um aumento do percentual de inadimplência futuro. Entretanto, segundo o Sebrae, a performance atual indica que, mesmo crescendo a inadimplência, essa perda ficará em patamares menores que o padrão das operações do Fampe.Para a diretora de Administração e Finanças do Sebrae, Margarete Coelho, o resultado confirma que ampliar o acesso ao crédito para mulheres é também uma estratégia segura para o sistema financeiro. “Muitas pesquisas apontam que as mulheres são boas pagadoras. Elas administram orçamentos muitas vezes limitados e conseguem fazer verdadeiros milagres na gestão da vida financeira. Essa responsabilidade também se reflete nos seus negócios”, afirma.
Mirna Gomes (centro) abriu a Lasanharia em 2019 | Foto: Divulgação
“Exercício de fé, coragem e trabalho”Foi justamente a oportunidade proporcionada pelo Fampe Mulher que permitiu à empreendedora Mirna Gomes, de Salvador (BA), transformar uma ideia nascida na cozinha de casa em um negócio consolidado. Filha de empregada doméstica, criada apenas pela mãe e sem capital para investir, ela fundou A Lasanharia em 2019, depois de abandonar o trabalho como motorista de aplicativo.Hoje, a empresa emprega formalmente mais de 15 pessoas — 95% delas mulheres —, realiza cerca de 120 entregas por dia, possui unidade física em Lauro de Freitas (BA), atua em eventos, no mercado B2B e prepara o lançamento de uma linha de produtos congelados.Eu comecei literalmente sem recurso nenhum, só tinha vontade de fazer dar certo. O maior desafio foi encontrar alguém que acreditasse na minha história e enxergasse potencial na minha ideia.
Mirna Gomes, empreendedoraQuando a demanda começou a crescer, Mirna percebeu que precisava estruturar um espaço para atender os clientes, mas não tinha recursos para investir. Foi então que conseguiu acessar uma linha de crédito garantida pelo Fampe Mulher por meio do Banco do Nordeste.“Com esse financiamento consegui comprar equipamentos e fazer a reforma da minha primeira loja. O que parecia surreal virou realidade no momento em que alguém acreditou em mim. Hoje minha história mostra que é possível mudar a própria realidade. Meu conselho é persistir, fazer bem-feito todos os dias e buscar conhecimento. Empreender é, acima de tudo, um exercício de fé, coragem e trabalho.”Apoio para qualificaçãoAlém do Fampe Mulher, o Sebrae oferece uma jornada completa de apoio às empreendedoras, com programas como o Sebrae Delas, consultorias, mentorias, capacitações em gestão financeira, inovação, marketing e acesso a mercados. Para o analista da Unidade de Empreendedorismo Feminino, Diversidade e Inclusão (UEDI) do Sebrae Nacional, Márcio Borges, ampliar o acesso ao crédito para mulheres pretas e pardas significa enfrentar desigualdades históricas, e cria condições para um desenvolvimento econômico mais inclusivo.“O acesso ao crédito não pode depender da origem, da raça ou do gênero da pessoa empreendedora. Quando reduzimos essas barreiras, promovemos inclusão financeira, fortalecemos pequenos negócios, geramos renda, empregos e desenvolvimento para toda a sociedade”, destaca.Acesso ao créditoO Sebrae oferece suporte aos pequenos negócios sobre temas estratégicos para o crescimento de suas empresas, como o acesso ao crédito. Confira:• Planejadora Sebrae: o ponto de partida para buscar crédito com clareza e confiança, a partir do preenchimento de dados financeiros e acompanhamento de indicadores da empresa;
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