Um mês depois dos dois grandes abalos de 24 de junho, milhares de famílias permanecem sem moradia, há vítimas sob os escombros e o custo da reconstrução pode chegar a US$ 50 bilhões. A tragédia também expõe a fragilidade institucional do país e amplia a influência dos Estados Unidos sobre o governo interino.
Matéria atualizada em 24 de julho de 2026.
CARACAS – A Venezuela completou um mês desde os dois terremotos que atingiram o norte do país com uma dimensão humana e econômica ainda não totalmente conhecida. O balanço mais recente divulgado pelo governo venezuelano e reproduzido nesta sexta-feira indica que o número de mortos já ultrapassou 5.300.
Um informe humanitário publicado em 23 de julho havia contabilizado 5.278 mortos, 16.740 feridos e 6.462 pessoas resgatadas com vida. Cerca de 7% dos corpos confirmados ainda não haviam sido identificados. A diferença entre os balanços decorre da recuperação contínua de vítimas nos edifícios desabados.
O número final poderá ser maior. As autoridades ainda não divulgaram uma relação consolidada de desaparecidos, enquanto familiares, voluntários e equipes de resgate acreditam que centenas de pessoas permaneçam sob os escombros, principalmente no estado costeiro de La Guaira.
Dois terremotos em menos de um minuto
Os terremotos ocorreram na noite de 24 de junho, com magnitudes de 7,2 e 7,5, separados por apenas alguns segundos. Os tremores atingiram especialmente La Guaira e a região metropolitana de Caracas, provocando o colapso de edifícios residenciais, escolas, unidades de saúde, estradas e sistemas de abastecimento.
La Guaira concentra a maior parte das mortes e da destruição. Comunidades como Catia La Mar, Macuto, Caraballeda e outras localidades do litoral registraram edifícios inteiros reduzidos a escombros. Em Caracas, imóveis que inicialmente permaneceram de pé apresentaram danos estruturais e alguns desabaram nos dias seguintes.
Até 18 de julho, as autoridades já haviam registrado mais de 1.300 réplicas sísmicas, mantendo a população em estado de alerta e dificultando a entrada de equipes nos prédios instáveis. Um levantamento oficial preliminar relacionou 856 edifícios danificados, dos quais 190 sofreram colapso total ou falha estrutural grave.
Famílias continuam procurando seus mortos
Na zona mais devastada, a fase principal de busca por sobreviventes foi gradualmente substituída pela recuperação de corpos. Entretanto, parte desse trabalho continua sendo realizada por moradores e parentes das vítimas, muitas vezes sem treinamento, equipamentos de proteção ou máquinas adequadas.
Em alguns edifícios, familiares abriram túneis improvisados entre lajes e ferragens para tentar localizar parentes. Há tensão entre moradores que exigem a continuidade das buscas e autoridades que pretendem demolir as estruturas e retirar os escombros. O uso de máquinas pesadas também desperta o temor de que restos mortais sejam destruídos ou não possam mais ser identificados.
A precariedade das operações tornou-se uma das imagens mais contundentes da tragédia: em determinadas áreas, voluntários passaram a organizar centros improvisados de distribuição de máscaras, botas, luvas, ferramentas, água e alimentos. Equipes profissionais também relatam exaustão, falta de revezamento e necessidade urgente de atendimento psicológico.
Água, saúde e abrigo são as principais urgências
A avaliação rápida coordenada pelo Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários apontou como necessidades prioritárias:
- atendimento de saúde;
- água potável;
- segurança alimentar;
- abrigo adequado;
- saneamento;
- apoio psicológico e proteção social.
Segundo a avaliação, saúde foi apontada como necessidade urgente por 53% das pessoas consultadas, seguida por água segura, com 52%, alimentação, com 50%, e apoio psicossocial, com 27%.
Mais de 17 mil pessoas perderam formalmente suas casas, enquanto um relatório do UNICEF registrou aproximadamente 23.820 pessoas vivendo em 107 acampamentos ou instalações transitórias distribuídas por Caracas, Miranda, La Guaira e Aragua. Mais de 400 escolas teriam sido afetadas, algumas delas transformadas em abrigos temporários.
A falta de água tratada e de instalações sanitárias aumenta o risco de infecções, doenças gastrointestinais e surtos em comunidades densamente ocupadas. Crianças, idosos, gestantes, pessoas com deficiência e pacientes que dependem de medicamentos contínuos estão entre os grupos mais vulneráveis.
O UNICEF estima que aproximadamente 680 mil crianças necessitem de algum tipo de assistência humanitária em consequência direta dos terremotos.
A Federação Internacional da Cruz Vermelha lançou um apelo de 50 milhões de francos suíços para atender 300 mil pessoas durante dois anos. Um mês depois do desastre, pouco mais de 25% desse valor havia sido financiado.
Prejuízo bilionário e reconstrução de longo prazo
O Banco Mundial estimou em US$ 19,6 bilhões os danos físicos diretos causados pelos terremotos. Quando são incluídas reconstrução, adaptação sísmica, recuperação econômica e modernização da infraestrutura, os custos podem chegar a US$ 50 bilhões.
Do total de prejuízos:
- 47% correspondem a edifícios residenciais;
- 27% atingem infraestrutura;
- 26% recaem sobre imóveis não residenciais.
La Guaira e o Distrito Capital concentram aproximadamente metade dos danos identificados. O Banco Mundial advertiu que a velocidade e a qualidade da reconstrução serão decisivas para a recuperação econômica e social venezuelana.
A emergência encontrou um país no qual 7,9 milhões de pessoas já necessitavam de apoio humanitário antes dos terremotos, em razão da deterioração econômica, da inflação e das deficiências nos serviços públicos. As Nações Unidas estimam que até 1,3 milhão de pessoas precisarão de atendimento específico nas áreas atingidas durante os próximos seis meses.
O terremoto também abalou o poder político
A tragédia ocorreu durante uma transição política excepcional. Delcy Rodríguez governa interinamente a Venezuela após Nicolás Maduro ter sido capturado por forças norte-americanas em janeiro de 2026. Washington manteve parte da estrutura governamental chavista no poder, sem apresentar, até agora, um calendário definitivo para novas eleições presidenciais.
A resposta aos terremotos transformou-se rapidamente em um teste de legitimidade para o governo interino. Moradores e setores da oposição acusaram o Estado de demorar a mobilizar equipes especializadas, deixando civis responsáveis por parte importante das buscas. Delcy Rodríguez rejeitou as críticas, afirmou que os primeiros grupos de emergência foram acionados poucas horas depois dos tremores e defendeu a presença militar nas áreas atingidas.
O governo também acusou setores políticos e veículos de comunicação de contribuírem para o caos inicial, enquanto opositores afirmam que a crise revelou anos de desmonte da proteção civil, ausência de fiscalização das construções e falta de investimentos em equipamentos de emergência.
Essas acusações exigem investigação independente. Parte das denúncias procede de organizações oposicionistas, enquanto o governo sustenta que a dimensão inédita do desastre superou a capacidade previamente disponível.
Sanções e ativos bloqueados entram no debate
Delcy Rodríguez passou a defender a suspensão das sanções econômicas e o desbloqueio de recursos venezuelanos no exterior como condição para financiar a reconstrução.
O governo solicitou a liberação de aproximadamente 31 toneladas de ouro venezuelano mantidas no Banco da Inglaterra e buscou recursos junto ao Fundo Monetário Internacional. Os Estados Unidos autorizaram temporariamente, por quatro meses, determinadas transações relacionadas à ajuda humanitária que antes seriam impedidas pelas sanções, mas grande parte das restrições continua vigente.
A questão cria um impasse: a Venezuela precisa de financiamento externo imediato, mas governos e organismos internacionais deverão exigir mecanismos de transparência, prestação de contas e fiscalização para evitar desvio de recursos, favorecimento político ou reconstruções sem padrões adequados de segurança.
Eleições podem ser adiadas pela emergência
Nesta sexta-feira, Donald Trump afirmou que a Venezuela ainda não estaria preparada para realizar eleições, embora tenha elogiado o desempenho da presidente interina. A declaração reforça a influência direta de Washington sobre o calendário político venezuelano.
O partido governista e representantes da oposição retomaram contatos, mas não existe uma definição clara sobre quando ocorrerá uma eleição presidencial competitiva. A reconstrução poderá servir tanto como oportunidade de cooperação nacional quanto como justificativa para prolongar o governo provisório.
Esse é um dos principais riscos políticos do pós-terremoto: a emergência humanitária pode adiar a transição democrática, concentrar recursos nas mãos do Executivo e ampliar a dependência venezuelana em relação aos Estados Unidos e às instituições financeiras internacionais.
Uma crise que continuará além dos escombros
A Venezuela enfrenta simultaneamente três emergências: a recuperação das vítimas, a reconstrução material e a reorganização política do país.
No curto prazo, a prioridade é localizar os desaparecidos, fornecer água potável, garantir abrigo seguro, recuperar hospitais e impedir surtos sanitários. No médio prazo, será necessário reconstruir comunidades inteiras com padrões capazes de resistir a novos terremotos.
No campo político, a credibilidade do processo dependerá da transparência na distribuição da ajuda, da participação das comunidades atingidas, da fiscalização internacional e da definição de um calendário eleitoral legítimo.
O terremoto não criou a crise institucional venezuelana, mas expôs suas consequências de maneira brutal. A forma como o país conduzir a reconstrução poderá determinar não apenas o futuro das cidades destruídas, mas também a direção política, econômica e democrática da Venezuela nos próximos anos.

