Dois ministros do Supremo Tribunal Federal, dois juristas, duas histórias e duas maneiras bastante diferentes de enxergar a vida pública. De um lado, André Mendonça, advogado, ex-ministro da Justiça, ex-advogado-geral da União e pastor presbiteriano. Do outro, Flávio Dino, ex-juiz federal, ex-governador, ex-senador e ex-ministro da Justiça. No STF, os dois passaram a ocupar o mesmo espaço, mas chegaram lá por caminhos quase opostos.
Há uma distância considerável — quase “jurássica”, para usar uma expressão popular — entre as personagens públicas de André Mendonça e Flávio Dino.
A comparação não significa dizer que um seja melhor ou pior que o outro. Significa observar de onde cada um veio, quais experiências moldaram suas carreiras e como essas experiências ajudam a explicar suas diferentes posições no Supremo Tribunal Federal.
Dois caminhos que quase não se encontram
André Mendonça construiu sua carreira principalmente no campo jurídico e na Advocacia Pública. Foi advogado da União, ocupou a Advocacia-Geral da União e comandou o Ministério da Justiça durante o governo Jair Bolsonaro. Em 2021, foi indicado por Bolsonaro para o STF.
Mendonça também possui formação teológica e tornou-se pastor presbiteriano. Sua identidade religiosa é pública e passou a fazer parte da imagem que acompanha sua trajetória institucional. Reuters o descreveu recentemente como o único ministro abertamente evangélico da atual composição do Supremo.
Flávio Dino percorreu outra estrada.
Formado em Direito pela Universidade Federal do Maranhão, foi juiz federal, professor de Direito, presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil e, posteriormente, entrou de cabeça na política.
Foi deputado federal, governador do Maranhão por dois mandatos, senador e ministro da Justiça no governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Em 2024, chegou ao STF.
Ou seja: Mendonça saiu da carreira jurídica para a política de governo e depois chegou ao Supremo; Dino saiu da magistratura para a política partidária, exerceu cargos eletivos, voltou ao Executivo federal e então chegou à Suprema Corte.
Essa diferença de percurso é fundamental.
Mendonça: a fé como parte da identidade pública
André Mendonça tornou-se conhecido nacionalmente também pela frase atribuída a Bolsonaro durante o processo de escolha para o Supremo: seria necessário colocar no tribunal alguém “terrivelmente evangélico”.
A expressão marcou sua chegada ao STF e acabou sendo incorporada à imagem pública do ministro.
Mas Mendonça não pode ser reduzido à condição de pastor.
Ele possui extensa formação jurídica, incluindo mestrado e doutorado em Direito pela Universidade de Salamanca, na Espanha, além de experiência na Advocacia-Geral da União e no Ministério da Justiça.
O ponto importante é outro: Mendonça carrega para a vida pública uma identidade religiosa muito mais explícita do que a maioria dos ministros do Supremo.
Isso faz com que parte da sociedade o enxergue como representante de um Brasil conservador, religioso e mais próximo dos valores defendidos pelo eleitorado evangélico.
Nos últimos dias, essa característica voltou a ganhar peso político. Mendonça tornou-se um dos personagens centrais da crise que envolve decisões do STF, a Polícia Federal e investigações relacionadas ao chamado caso Master.
Dino: a política como escola de poder
Flávio Dino chega ao Supremo carregando uma bagagem completamente diferente.
Ele conhece a máquina pública por dentro.
Conheceu o Judiciário como juiz federal. Conheceu o Legislativo como deputado e senador. Conheceu o Executivo como governador e ministro da Justiça.
Poucos integrantes do STF chegaram à Corte com uma experiência política tão extensa.
E isso ajuda a compreender por que Dino é frequentemente percebido como um ministro de forte presença institucional e política.
Sua trajetória também explica por que seus adversários políticos não o enxergam simplesmente como um magistrado que passou a exercer jurisdição.
Para eles, existe ali um político experiente que trocou o palanque pelo plenário do Supremo.
Seus defensores, por outro lado, podem argumentar justamente o contrário: a experiência política lhe deu conhecimento profundo sobre o funcionamento do Estado e das instituições brasileiras.
As duas interpretações fazem parte do debate democrático.
O ponto de encontro: o Supremo
A ironia da história é que os dois personagens acabaram sentados lado a lado na mesma instituição.
Um chegou ao STF indicado por Jair Bolsonaro.
O outro chegou indicado por Lula.
Esse detalhe, por si só, já diz muito sobre a polarização brasileira.
Mas existe uma diferença importante: a partir do momento em que assumem uma cadeira no Supremo, ambos deixam formalmente de representar os presidentes que os indicaram.
O ministro do STF não é deputado de Bolsonaro, não é senador de Lula e não deve atuar como representante de igreja, partido ou grupo político.
Sua obrigação constitucional é julgar de acordo com a Constituição e as leis.
É justamente aí que começa a verdadeira cobrança da sociedade.
A questão que interessa ao cidadão
O brasileiro comum não precisa escolher entre “Mendonça” e “Dino” como se estivesse escolhendo candidato em uma eleição.
A pergunta mais importante é outra:
Eles estão conseguindo separar suas histórias pessoais, suas convicções e seus passados políticos das decisões que tomam no Supremo?
Essa é uma pergunta legítima para qualquer ministro.
Vale para Mendonça.
Vale para Dino.
Vale para Alexandre de Moraes.
Vale para todos os demais.
E vale independentemente de quem tenha feito a indicação.
A diferença não é apenas ideológica
Seria simplificar demais dizer que a diferença entre Mendonça e Dino se resume a “direita contra esquerda”.
Há algo mais profundo.
Mendonça representa uma trajetória marcada pela Advocacia Pública, pelo conservadorismo religioso e pela proximidade institucional com o governo Bolsonaro.
Dino representa uma trajetória marcada pela magistratura, pela política profissional, pelo Executivo estadual e federal e pela proximidade política com o campo que levou Lula novamente à Presidência.
São experiências diferentes de poder.
Um aprendeu principalmente a defender juridicamente o Estado.
O outro aprendeu a governar, fazer política, negociar com o Legislativo e administrar uma máquina pública.
Depois, ambos chegaram ao lugar onde essas experiências precisam ser submetidas a uma mesma regra: a Constituição.
A “distância jurássica”
É nesse sentido que a expressão “distância jurássica” ganha significado.
Não se trata de dizer que Mendonça e Dino sejam inimigos ou que sejam incapazes de concordar.
Trata-se de reconhecer que suas biografias políticas e jurídicas parecem ter sido formadas em ambientes muito diferentes.
Mendonça tem na religião uma parte pública de sua identidade.
Dino tem na política uma parte enorme de sua biografia.
Mendonça chegou ao Supremo vindo de uma indicação associada ao campo conservador.
Dino chegou ao Supremo depois de uma longa trajetória diretamente ligada ao campo político progressista.
E agora os dois precisam exercer uma função que exige, pelo menos em tese, distância desses dois mundos.
O desafio de ambos
O maior teste para André Mendonça e Flávio Dino não será provar que possuem convicções diferentes.
Isso já está evidente.
O verdadeiro teste será demonstrar que conseguem julgar inclusive contra os interesses daqueles que um dia ajudaram a colocá-los no caminho do poder.
Mendonça terá de provar que sua toga não é extensão do bolsonarismo nem de qualquer grupo religioso.
Dino terá de provar que sua toga não é continuação do exercício político que marcou sua carreira.
Essa cobrança não é perseguição.
É democracia.
O Supremo não pode virar extensão do Planalto
O problema brasileiro começa quando o cidadão passa a imaginar que ministro indicado por determinado presidente deve necessariamente proteger aquele presidente.
Se isso acontecer, o Supremo deixa de ser percebido como Corte constitucional e passa a ser visto como uma espécie de terceiro turno permanente das eleições.
E esse é um caminho perigoso.
As recentes disputas envolvendo decisões de Mendonça e Dino mostram como as fronteiras entre Justiça, política, investigação policial e disputa eleitoral estão cada vez mais expostas. O caso “Dark Horse”, por exemplo, acabou envolvendo investigações conduzidas pelos dois ministros sobre fatos diferentes, mas relacionados ao mesmo ambiente político e financeiro.
Em ano eleitoral, cada decisão judicial ganha imediatamente uma leitura política.
É justamente por isso que a responsabilidade dos ministros aumenta.
No fim, a toga é igual
A biografia de cada um é diferente.
A religião de um é diferente da experiência política do outro.
As amizades políticas são diferentes.
Os grupos que os apoiaram são diferentes.
As visões de mundo também podem ser muito diferentes.
Mas existe uma coisa que precisa ser igual:
a obrigação de respeitar a Constituição.
Essa é a verdadeira ponte entre duas pessoas que parecem viver em universos políticos tão distantes.
André Mendonça não é ministro dos evangélicos.
Flávio Dino não é ministro dos políticos de esquerda.
Ambos são ministros do Supremo Tribunal Federal.
E, no final das contas, é justamente a toga — e não a história pessoal de cada um — que deveria falar mais alto.
Porque, para o cidadão brasileiro, pouco importa se o juiz veio da igreja, do governo, da magistratura ou da política.
O que importa é saber se, quando a decisão chegar à mesa, a lei será maior do que a amizade, a ideologia, a religião, o partido e o poder.
