A uma semana do segundo turno, levantamentos realizados após a votação de 4 de outubro mostram que Maria do Carmo, candidata do PL, precisa ampliar vantagem em Manaus e conquistar parcela muito maior dos votos que foram para Roberto Cidade e David Almeida.
MANAUS — A disputa pelo Governo do Amazonas entra na última semana com um cenário eleitoral mais definido do que aquele observado às vésperas do primeiro turno. Os levantamentos realizados depois de 4 de outubro apresentam uma tendência convergente: Omar Aziz (PSD) aparece na liderança sobre Maria do Carmo (PL), enquanto a candidata enfrenta o desafio de modificar, em poucos dias, uma distribuição de votos que favoreceu fortemente o adversário no interior do Estado.
O ponto de partida são as próprias urnas.
No primeiro turno, Omar recebeu 841.846 votos, equivalentes a 40,63% dos votos válidos. Maria do Carmo chegou ao segundo turno com 507.335 votos, ou 24,49%. Roberto Cidade ficou com 21,91%, e David Almeida obteve 10,54%. O Tribunal Superior Eleitoral confirmou Omar e Maria como os dois candidatos que disputam o governo em 25 de outubro.
A diferença entre os dois finalistas foi superior a 330 mil votos.
Esse resultado colocou Maria diante de uma necessidade objetiva: conquistar parcela muito expressiva dos eleitores que, no primeiro turno, escolheram Roberto Cidade, David Almeida e os demais candidatos.
Pesquisas convergem para vantagem de Omar
Os principais levantamentos divulgados depois do primeiro turno apresentam direção semelhante.
A Quaest, em pesquisa realizada entre 9 e 12 de outubro com 1.098 eleitores, encontrou Omar Aziz com 51% das intenções de voto, contra 37% de Maria do Carmo. Brancos e nulos representaram 6%, e outros 6% disseram estar indecisos. A margem de erro informada é de três pontos percentuais.
Já o PoderData, que ouviu 1.200 eleitores nos 62 municípios entre 8 e 11 de outubro, calculou 56% dos votos válidos para Omar e 44% para Maria. Um dado particularmente relevante desse levantamento é que 89% dos entrevistados que já escolheram um candidato, disseram considerar sua decisão definitiva.
O agregador de pesquisas Inteligov/EXAME, atualizado em 17 de outubro, também mostra estabilidade no quadro. O modelo, que reúne pesquisas e atribui pesos conforme atualização e metodologia, colocou Omar com 55,88% e Maria com 44,12%.
São metodologias diferentes, portanto os números não devem ser simplesmente somados ou tratados como uma única pesquisa.
Mas existe um elemento politicamente importante: os levantamentos caminham na mesma direção. Nenhuma dessas medições recentes apresenta Maria na liderança.
O interior continua sendo o grande ativo de Omar
A geografia eleitoral do primeiro turno ajuda a explicar o cenário.
Omar Aziz venceu em 53 dos 62 municípios amazonenses. Maria venceu apenas três — incluindo Manaus — enquanto Roberto Cidade liderou em seis.
O resultado confirmou a enorme capilaridade construída por Omar no interior. Sua candidatura iniciou o primeiro turno sustentada por uma extensa rede de prefeitos e lideranças municipais, estrutura que produziu correspondência bastante significativa nas urnas.
Esse domínio territorial cria uma dificuldade particular para Maria: não basta manter os votos que conquistou inicialmente.
Ela precisa reduzir substancialmente a vantagem de Omar no interior.
Manaus é a principal oportunidade de Maria
Se o interior representa a maior fortaleza eleitoral de Omar, Manaus continua sendo o principal território de recuperação para Maria.
A candidata do PL venceu na capital no primeiro turno.
Mas foi uma vitória apertada. A diferença sobre Omar foi de aproximadamente 16 mil votos, apesar de Manaus concentrar mais da metade do eleitorado amazonense.
Isso significa que Maria precisa fazer mais do que simplesmente vencer novamente na capital.
Para compensar a vantagem construída por Omar nos municípios do interior, ela necessita ampliar consideravelmente sua diferença em Manaus.
Nesse aspecto, o primeiro turno também deixou uma lição importante sobre as estruturas políticas municipais.
David Almeida entrou na eleição apoiado pelo prefeito Renato Júnior, seu sucessor e aliado político. Mesmo assim, não venceu Manaus.
O comportamento confirma que o apoio da Prefeitura da capital não pode ser interpretado como transferência automática do voto do eleitor manauara.
Manaus apresenta eleitorado muito mais diversificado e politicamente fragmentado que a maioria dos pequenos e médios municípios do interior.
Os votos de Cidade tornaram-se decisivos
Roberto Cidade recebeu mais de 450 mil votos no primeiro turno e ficou relativamente próximo de Maria.
Naturalmente, esses votos não pertencem ao candidato derrotado e não podem ser transferidos automaticamente.
Mas representam o maior reservatório eleitoral disponível no segundo turno.
Maria demonstrou interesse em reconstruir relações com Cidade e David logo após a apuração, reconhecendo publicamente a necessidade de novas alianças.
O problema é que Roberto Cidade e o comando estadual do União Brasil decidiram não declarar apoio institucional a nenhum dos dois finalistas. A Federação União Progressista liberou seus integrantes para escolher individualmente entre Omar e Maria.
Essa neutralidade retirou de Maria a possibilidade de receber, de uma só vez, a estrutura política completa montada por Cidade no primeiro turno.
Parte de seus eleitores está migrando para a candidata do PL, mas outra parcela está escolhendo Omar.
Votos de David também entram na conta
David Almeida terminou o primeiro turno em quarto lugar, mas seus mais de 200 mil votos continuam relevantes.
Nesse grupo, pesquisas pós-primeiro turno indicaram vantagem de Omar na transferência eleitoral.
Isso ajuda a explicar por que a soma aritmética dos votos de Maria, Cidade e David — cenário imaginado durante grande parte da campanha — não está se materializando automaticamente numa frente eleitoral contra Omar.
Eleitores não seguem necessariamente as orientações de candidatos derrotados.
E os primeiros levantamentos do segundo turno deixam isso evidente.
Nacionalização também influencia a disputa
A eleição estadual ocorre paralelamente ao segundo turno presidencial, reforçando a divisão política nacional.
Omar mantém sua aliança com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto Maria representa no Amazonas o campo político ligado a Flávio Bolsonaro.
Essa polarização pode aumentar a mobilização das duas bases na reta final.
Para Maria, a nacionalização oferece uma oportunidade de consolidar o eleitorado conservador e atrair eleitores de Roberto Cidade que votam no candidato presidencial do PL.
Para Omar, entretanto, a associação com Lula não produziu, até agora, perda suficiente para retirar sua liderança nas pesquisas estaduais.
A realidade da última semana
O quadro existente neste domingo, 18 de outubro, apresenta uma conclusão política relativamente clara.
Omar Aziz inicia a última semana na condição de favorito.
A vantagem não nasce apenas das pesquisas. Ela começa no resultado do primeiro turno, passa pelo domínio eleitoral em 53 municípios, pela extensa rede política do interior e aparece novamente nos levantamentos realizados depois de 4 de outubro.
Maria do Carmo permanece competitiva porque possui três ativos importantes: venceu Manaus, absorve parcela relevante do eleitorado de Roberto Cidade e conta com a mobilização do campo político conservador.
Mas precisa transformar esses ativos em crescimento efetivo.
Para reverter o cenário, sua campanha necessita simultaneamente aumentar muito sua votação na capital, conquistar parcela ainda maior dos eleitores de Cidade e David e diminuir a vantagem de Omar no interior.
As pesquisas mostram que essa virada ainda não ocorreu.
Com apenas uma semana até a votação, o eleitor amazonense entra na fase em que debates, propaganda eleitoral, mobilização das ruas e principalmente a decisão dos que ainda admitem mudar de voto poderão estreitar — ou confirmar — a distância existente.
Por enquanto, porém, os números disponíveis colocam Omar Aziz na dianteira da disputa pelo Governo do Amazonas.

