Pesquisas nacionais concentram Flávio Bolsonaro e Lula da Silva numa faixa estreita, mas o comportamento dos institutos no primeiro turno, as diferenças entre métodos de coleta e a enorme distância entre sondagens e bolsas internacionais de previsão recomendam cautela máxima na interpretação dos números
BRASÍLIA — A cinco dias do segundo turno da eleição presidencial brasileira, talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente quem aparece na frente das pesquisas. A questão é outra: até onde esses números conseguem antecipar aquilo que efetivamente acontecerá nas urnas no próximo domingo?
Os levantamentos divulgados até esta terça-feira, 20 de outubro, apresentam uma fotografia relativamente convergente.
Uma compilação de 13 pesquisas nacionais feita pelo Poder360 mostra Flávio Bolsonaro numericamente à frente em 12 delas e Luiz Inácio Lula da Silva à frente em apenas uma. Os estudos foram realizados por PoderData/Aya, Datafolha, Indexa/Broadcast, CNT/MDA, Quaest, Palver, BTG/Nexus, Gerp, Futura, DataTrends, Ipespe/Abrapel, AtlasIntel e Vox Brasil.
Mas existe uma diferença fundamental entre estar numericamente à frente numa pesquisa e possuir uma vantagem estatisticamente segura.
Em boa parte desses levantamentos, os dois candidatos continuam dentro ou muito próximos das margens de erro.
PoderData colocou Flávio com 52% dos votos válidos e Lula com 48%. AtlasIntel/Bloomberg registrou 51,1% a 48,9%. BTG/Nexus encontrou praticamente uma igualdade: 50,3% a 49,7%. CNT/MDA apontou 50,5% a 49,5%. Datafolha, 51% a 49%.
O conjunto das pesquisas aponta, portanto, uma eleição apertada.
O alerta deixado pelo primeiro turno
O problema começa quando se compara pesquisa com urna.
No primeiro turno, diversos institutos chegaram aos últimos dias apresentando Lula numericamente à frente ou em posição melhor que aquela efetivamente observada na apuração.
O resultado oficial colocou Flávio Bolsonaro em primeiro lugar com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
Algumas pesquisas finais haviam subestimado Flávio em vários pontos.
Esse fenômeno não significa automaticamente manipulação. Significa que margem de erro amostral não representa todas as fontes de erro de uma pesquisa eleitoral.
Ela mede essencialmente a incerteza decorrente da seleção da amostra.
Não incorpora integralmente problemas como: eleitores que se recusam a responder; segmentos mais difíceis de localizar; diferenças entre telefone, entrevista presencial e internet; erros de ponderação; eleitor que muda de opinião depois da entrevista; diferença entre intenção declarada e comparecimento; comportamento do eleitor que evita revelar sua preferência.
Em eleições decididas por dois ou três pontos, esses fatores tornam-se decisivos.
O método pode alterar a resposta
As pesquisas brasileiras de 2026 não utilizam um único sistema.
Há levantamentos presenciais, telefônicos realizados por entrevistadores, ligações automatizadas e pesquisas baseadas em recrutamento digital.
O AtlasIntel, por exemplo, utiliza recrutamento digital e entrevistou 4.998 eleitores em sua rodada de 13 a 18 de outubro, com margem declarada de um ponto percentual. A pesquisa foi contratada pela Bloomberg e registrada no TSE sob o nº BR-02418/2026.
O PoderData entrevistou 3 mil pessoas por telefone em 695 municípios e informa que realizou o levantamento com recursos próprios.
A Nexus realizou entrevistas telefônicas para o levantamento contratado pelo BTG Pactual.
Já CNT/MDA utilizou entrevistas presenciais. O levantamento custou R$ 222.453 e foi contratado pela própria Confederação Nacional do Transporte.
Essas diferenças importam.
Estudos metodológicos do Pew Research Center demonstram que a presença de um entrevistador pode exercer pressão sutil sobre determinadas respostas. Em pesquisas autoaplicadas, especialmente pela internet, o entrevistado pode sentir maior anonimato. Esse fenômeno é conhecido como viés de desejabilidade social.
Isso não significa que entrevistas telefônicas ou presenciais sejam inválidas.
Significa que o método faz parte da informação que o leitor deveria conhecer antes de interpretar o número.

Dizer que vai votar não é o mesmo que votar
Outro ponto crítico é o comparecimento.
Milhões de brasileiros deixaram de votar no primeiro turno.
Pesquisas perguntam em quem o entrevistado pretende votar. Mas a urna responde outra questão: quem efetivamente compareceu e apertou a tecla verde?
Um candidato pode ter apoio elevado entre grupos que apresentam menor participação eleitoral. Outro pode possuir eleitorado mais mobilizado.
A diferença entre os dois pode não aparecer integralmente na intenção de voto.
Por isso, em disputa tão equilibrada, modelos de comparecimento tornam-se tão importantes quanto a intenção declarada.
Pesquisas mostram tendência, não resultado
A regulamentação brasileira tornou as pesquisas relativamente transparentes.
A Resolução nº 23.747/2026 do Tribunal Superior Eleitoral determina o registro prévio no PesqEle e exige informações metodológicas. O TSE também passou a exigir declaração formal do estatístico responsável e manutenção de documentação auditável.
Mas existe uma confusão recorrente.
Pesquisa registrada no TSE não é pesquisa certificada pelo TSE.
O próprio sistema eleitoral prevê que o controle judicial depende de provocação do Ministério Público Eleitoral, partido, federação, coligação ou candidatura.
O registro aumenta a transparência.
Não transforma a Justiça Eleitoral numa agência de garantia de precisão estatística.
Um sinal curioso vem do exterior
Enquanto as pesquisas brasileiras mostram uma eleição concentrada aproximadamente na região de 50% a 52% para um lado e 48% a 50% para o outro, os mercados internacionais de previsão trabalham com números muito diferentes.
Nesta terça-feira, a plataforma norte-americana Kalshi negociava contratos que correspondiam aproximadamente a 79% de probabilidade implícita para Flávio Bolsonaro e cerca de 21% a 22% para Lula, com mais de US$ 10 milhões de volume registrado nesse mercado.
Uma comparação de preços entre Kalshi e Polymarket atualizada em 20 de outubro registrava aproximadamente 76,6% no Polymarket e 78,5% na Kalshi para Flávio.
Outro mercado do Polymarket, sobre a margem de vitória, concentrava a maior parcela das apostas numa vitória de Flávio inferior a quatro pontos percentuais.
Essa diferença entre pesquisas e mercados é extraordinária.
Mas também precisa ser interpretada corretamente.
Mercado de aposta não é pesquisa
A pesquisa tenta reproduzir a composição do eleitorado.
Um mercado de previsão mede o preço pelo qual pessoas estão dispostas a comprar e vender contratos relacionados a determinado resultado.
São sistemas completamente diferentes.
Um eleitor pobre do interior do Maranhão possui o mesmo voto presidencial que um investidor de Nova York.
Mas num mercado de previsão o segundo pode movimentar milhares ou milhões de dólares e ter enorme influência sobre o preço.
Assim, 79% na Kalshi não significa que 79% dos brasileiros votarão em Flávio nem que 79% dos brasileiros acreditam que ele vencerá.
Significa apenas que, naquele momento, os contratos estavam sendo negociados a preços compatíveis com aquela probabilidade implícita.
Ainda assim, essas bolsas oferecem uma informação adicional: demonstram como participantes com dinheiro em risco estão interpretando as pesquisas, o primeiro turno, as alianças políticas, a economia e a possibilidade de erros dos institutos.
A grande divergência
A eleição presidencial brasileira apresenta, portanto, três fotografias distintas.
A primeira é a das urnas do primeiro turno, que deram a Flávio vantagem de 1,87 ponto percentual.
A segunda é a das pesquisas, que continuam mostrando a corrida muito apertada.
A terceira é a dos mercados internacionais de previsão, muito mais inclinados para um dos lados.
Nenhuma dessas fotografias deve ser utilizada isoladamente.
A urna passada não determina a próxima.
A pesquisa não prevê necessariamente o comparecimento.
E o mercado de previsão não representa uma amostra da sociedade.
O que o eleitor deveria exigir das pesquisas
A pergunta correta não é simplesmente:
“Quem está ganhando?”
Deveria ser:
Quem entrevistou? Quantas pessoas? Em quais municípios? Por telefone, presencialmente ou pela internet? Quem contratou? Quem pagou? Quanto custou? O instituto acertou ou errou sistematicamente no primeiro turno? Os mesmos erros estão aparecendo novamente?
Essas perguntas tornam-se ainda mais importantes quando a distância entre os candidatos é semelhante à própria margem de incerteza dos levantamentos.
Uma eleição que permanece aberta pelos dados
A Reuters descreveu nesta semana um estreitamento da disputa e destacou resultados recentes de Nexus/BTG e AtlasIntel/Bloomberg.
O levantamento de 13 pesquisas compilado pelo Poder360 mostra predominância numérica de Flávio, mas também revela resultados concentrados numa faixa estreita.
É precisamente por isso que o jornalismo deve resistir à tentação de transformar pesquisa em profecia.
Pesquisas são instrumentos úteis.
São capazes de identificar movimentos, segmentos sociais, rejeições e tendências.
Mas, cinco dias antes da eleição mais apertada do atual ciclo político brasileiro, o dado mais importante talvez seja reconhecer o tamanho daquilo que elas ainda não conseguem medir com absoluta precisão.
Amanhã, esta série avança para uma segunda questão: até que ponto bilhões de reais em benefícios, perdões de dívidas, subsídios e novas facilidades anunciados durante a campanha podem alterar não somente o voto, mas também a resposta que o beneficiário oferece aos pesquisadores?
(Texto produzido por RRTB Notícias com auxílio de IA)

