decisões de alocação interferimos diretamente no custo do capital no Brasil – um custo que é altíssimo, precisamente por causa desse emaranhado de burocracia, corrupção e ausência de regras claras.
Os números são frios e revelam a dimensão do escândalo da socialização do risco político e o preço da impunidade. O Banco Master detinha cerca de R$ 61 bilhões em depósitos elegíveis ao FGC. Deste montante, estima-se que o Fundo terá que desembolsar aproximadamente R$ 41 bilhões para cobrir os investidores até o limite de R$ 250 mil por CPF/CNPJ. Essa é a maior intervenção da história do FGC, superando o caso do Bamerindus nos anos 1990, se corrigirmos pela inflação. O sistema financeiro, ao se ver obrigado a custear essa irresponsabilidade, reforça um ciclo perverso. O FGC existe há 30 anos e essa é a décima primeira vez que é acionado.
Cada acionamento consome parte do capital que os bancos são obrigados a depositar – dinheiro que, em última instância, pertence ao correntista e ao investidor. O custo de manter esse fundo, para cobrir falências provocadas por má gestão e, como veremos, por corrupção sistêmica, é repassado ao mercado, encarecendo o crédito para todos em um país que já luta contra um custo de capital sufocante. Mais do que isso, a ineficiência do Estado é duplamente criminosa: a falta de governança pública permitiu que o Rio Previdência, fundo de aposentados, alocasse mais de R$ 1 bilhão em Letras Financeiras (LF) do Master, um produto não elegível à cobertura do FGC. O resultado? Mais de R$ 1 bilhão dos velhinhos aposentados do Rio de Janeiro viraram pó. É desumano o que acontece no Brasil, onde a gestão pública de ativos age com tamanha irresponsabilidade que deveria ser imediatamente criminalizada.
O que diferencia a liquidação do Master é o seu envolvimento político, o ponto que muitos hesitam em abordar, pois ainda insistem em acreditar que o Brasil é um país “plenamente democrático”. O banqueiro Daniel Vorcaro, segundo matérias abertas, era um “banqueiro do Centrão” com ligações que se espalhavam por toda a Esplanada dos Ministérios e por todos os poderes da República, da esquerda à direita. O sinal de alerta máximo soou meses atrás, quando o BRB (Banco de Brasília), uma instituição estatal, anunciou a intenção de injetar R$ 2 bilhões no Master, que na mesma época era avaliado por outros players, como o BTG, a simbólicos R$ 1,00. Por que um banco estatal pagaria R$ 2 bilhões por algo que não valia nada?
Investigadores, conforme noticiado pela imprensa, afirmam que há fortes indícios de pressão política para que o BRB adquirisse créditos consignados falsos do Master, totalizando uma injeção de quase R$ 17 bilhões entre 2024 e 2025, para salvar o banco de Vorcaro. A manobra, classificada como “grosseira”, sugere que o objetivo era evitar a liquidação e, consequentemente, o escrutínio público de todos os balanços, que revelaria a verdadeira extensão da fraude. Os tentáculos de Vorcaro alcançavam as mais altas esferas. A CredSexta, cartão de crédito consignado para funcionários públicos da Bahia, estado que é o coração do petismo no Nordeste, era a “galinha de ovos de ouro” do Master, garantindo a base de ativos com essa ligação direta com o poder estabelecido. Além disso, a cúpula do Judiciário e o trânsito infiltrado eram evidentes: Vorcaro contratou o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes. Ela também já foi alvo de sanção pela Lei Magnitsky. O banqueiro contratou ainda o ex-presidente Michel Temer como consultor e, mais recentemente, o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski, que se tornou ministro da Justiça de Lula, como membro de seu comitê consultivo estratégico.
Essa teia de consultores e ligações jurídicas e políticas é a garantia de impunidade, o lobby de última instância. A ligação com o Centrão também se manifestava por meio de Ciro Nogueira (PP, ex-ministro no governo Bolsonaro), que chegou a apresentar uma emenda para alterar o Fundo Garantidor de Crédito, elevando o limite de cobertura de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por instituição, uma manobra que, se aprovada, teria facilitado ainda mais o financiamento de bancos de risco e ampliado o risco moral (moral hazard) em níveis estratosféricos. O que se desenhou, em última análise, foi um modus operandi em que o Banco Master, pagando taxas muito superiores à média de mercado (chegando a 130%, 140%, 150% do CDI), captava recursos do mercado e os usava para financiar essa rede de influência, corrupção e ativos duvidosos.
E aqui chegamos à nossa parte da “mea culpa“, o pecado capital do investidor: o prazer imediato. Por que um investidor de alto gabarito, sabendo dos riscos inerentes a bancos menores e às taxas anormalmente altas, financiava o Master? A resposta é simples, e Mises, economista da Escola Austríaca, a teria condenado: a armadilha do prazer imediato. O investidor, seduzido pelo retorno maior no curto prazo, aceita conscientemente financiar um banco que cheira a política e a risco. A ganância do curto prazo destrói a prudência do longo prazo. Muitos afirmam: “Ora, o FGC cobre, basta colocar menos de R$ 250 mil”. Esse tipo de pensamento é a própria definição do risco moral. Ele encoraja os bancos a assumirem riscos insanos, pois o passivo é garantido pelo sistema, ou seja, socializado. Isso, por sua vez, força os bancos saudáveis a depositarem mais recursos no FGC, encarecendo o crédito em todo o país. É a consequência inevitável de um sistema no qual a ética de mercado é substituída pelo clientelismo estatal.
Não estamos, como alguns dizem, à beira de uma corrida bancária ou de um risco sistêmico imediato, mas estamos, sim, diante de um colapso moral e institucional. O Brasil tem todos os atributos naturais para dar certo. Mas, com a mentalidade que destrói o que nos é dado, o resultado é a inversão: “temos tudo para não dar certo”. A alocação de capital deve ser estratégica e ética. O investidor conservador não pode, em nome de alguns pontos-base a mais no CDI, financiar descaradamente um sistema de corrupção que, no fim das contas, elevará o custo de seu próprio capital e corroerá as instituições que deveriam proteger a sua propriedade. Pense e reflita. Nossas escolhas financeiras são, hoje, escolhas políticas.
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