Enquanto ondas de calor, secas e enchentes ameaçam lavouras no mundo inteiro, cientistas apostam em culturas hoje desconhecidas para reforçar a segurança alimentar, aumentar a diversidade no prato e preparar o campo para um clima mais extremo.

Ondas de calor mais longas, secas intensas e tempestades cada vez mais fora de época já não são só assunto de relatório climático: elas chegam à mesa do brasileiro na forma de preço alto, perda de safra e alimentos menos variados. Ao mesmo tempo, o mundo continua apostando quase sempre nas mesmas estrelas de sempre: arroz, trigo, milho e soja.
Mas, enquanto isso, milhares de outras espécies comestíveis seguem quase invisíveis, cultivadas em pequena escala por agricultores familiares, povos tradicionais e comunidades rurais.

São as chamadas culturas “órfãs” ou negligenciadas: importantes localmente, ricas em nutrientes e muitas vezes muito mais resistentes ao estresse climático do que as campeãs globais. Cientistas agora defendem que parte da solução para a segurança alimentar do futuro pode estar justamente nelas.
O que são, afinal, as culturas “órfãs”?
Culturas “órfãs” são aquelas que quase não aparecem em grandes estatísticas, campanhas publicitárias ou prateleiras de supermercado, mas têm enorme valor em regiões específicas. Entram nessa lista cereais menos conhecidos, leguminosas, raízes, hortaliças e frutas regionais, adaptadas a solos pobres, calor extremo ou falta de água. Em muitos casos, elas oferecem mais proteínas, vitaminas e minerais do que os grãos mais famosos.

Em países da África, da Ásia e também da América Latina, esses cultivos ajudam comunidades a atravessar períodos de seca ou enchentes, justamente porque estão acostumados a “viver no limite”. O problema é que, por falta de pesquisa, políticas públicas e mercado, eles são tratados como coadjuvantes.
Como ciência e tecnologia aceleram essa revolução
Para que essas culturas ganhem espaço de verdade, não basta boa vontade: é preciso melhorá-las mais rápido, tornando-as produtivas, estáveis e fáceis de cultivar em larga escala. É aí que entram ferramentas modernas que vão muito além da enxada e da estufa tradicional.
Em vez de esperar décadas de melhoramento convencional, cientistas combinam três frentes principais:
- Edição de genes: ajustar, com precisão, características como tamanho do grão, época de floração ou resistência a pragas, sem apagar a adaptação da planta ao clima difícil.
- Cultivo acelerado em estufas: usar luz e temperatura controladas para encurtar o ciclo de vida e obter várias gerações por ano, testando rapidamente novas variedades.
- Câmeras, sensores e IA: monitorar automaticamente milhares de plantas, medindo crescimento, cor, sinais de estresse e qualidade nutricional, enquanto algoritmos identificam quais linhagens prometem mais no campo real.
Essa combinação permite “domesticar de novo” espécies pouco exploradas, criando variedades modernas em muito menos tempo do que no passado, algo crucial num mundo em aquecimento rápido.
Potencial escondido e escolhas urgentes
O Brasil é um prato cheio para essa agenda. Temos biomas diversos, como Cerrado, Caatinga e Amazônia, repletos de espécies com potencial alimentar ainda pouco explorado. Além disso, culturas regionais, como milhos crioulos, feijão-de-corda, variedades tradicionais de mandioca e várias PANCs (plantas alimentícias não convencionais), já mostram, na prática, como a diversidade ajuda agricultores a enfrentar veranicos, solos pobres e calor extremo.
A boa notícia é que o país conta com redes de pesquisa fortes e experiência em agricultura tropical. Se universidades, Embrapa, institutos estaduais e startups direcionarem parte dos esforços para as culturas “órfãs”, podemos unir tradição e tecnologia: valorizar o saber de agricultores familiares, testar novas variedades em sistemas de produção sustentáveis e, ao mesmo tempo, ampliar a oferta de alimentos nutritivos e adaptados ao clima que vem aí.
Referência da notícia
Revitalizing orphan crops to combat food insecurity. 26 de novembro, 2025. Huang, X., et al.
