Solta para combater pulgões e reduzir inseticidas, a joaninha-arlequim escapou, se espalhou pela Europa e virou invasora. O caso mostra por que controle biológico exige avaliação de risco, e por que o Brasil precisa ficar atento.

Joaninha costuma ser sinônimo de sorte. No campo, é também sinônimo de ajuda: muitas espécies devoram pulgões, pragas minúsculas que sugam a seiva e enfraquecem plantas.
Só que, às vezes, a solução vira o próprio risco. A joaninha-asiática, também chamada de joaninha-arlequim (Harmonia axyridis), saiu do papel de aliada e virou uma das invasões biológicas mais estudadas do continente, com reflexos na biodiversidade, nas cidades e até no vinho. Vendida e solta como “solução verde”, ela encontrou poucos freios naturais e ganhou terreno fora das lavouras, quase sem alarde.
A promessa do controle biológico
A ideia era reduzir pulverizações e deixar a natureza trabalhar. Harmonia axyridis é nativa da Ásia e foi usada como agente de controle biológico de pulgões e cochonilhas, sobretudo em estufas e pomares, porque come muito e se adapta a diferentes plantas.

O ponto cego foi confundir eficiência com segurança. Revisões científicas mostram que a espécie foi introduzida repetidas vezes, escapou para fora das áreas de cultivo e, em vários países europeus, se estabeleceu e se espalhou rapidamente, um roteiro clássico de invasão quando o organismo encontra clima e alimento favoráveis. Hoje, protocolos mais rígidos exigem avaliação de risco, quarentena e acompanhamento após a liberação.
Quando a ajudante vira invasora
No Reino Unido, por exemplo, a joaninha-arlequim foi registrada pela primeira vez em 2004 e avançou em poucos anos, acompanhada por campanhas de monitoramento com participação do público, que ajudaram a mapear a expansão. O padrão se repetiu em outras regiões: onde ela chega, muitas vezes passa a dominar jardins, parques e áreas agrícolas.

A preocupação principal é o “efeito colateral” sobre espécies nativas. Ela compete por alimento e abrigo e pode predar ovos e larvas de outras joaninhas, reduzindo a diversidade local. Esse sucesso costuma vir de uma combinação de vantagens:
- dieta ampla (não depende de uma única presa)
- reprodução rápida e várias gerações na estação
- boa tolerância a frio e calor
- dispersão eficiente
- comportamento oportunista, inclusive predando outros insetos
No lado urbano, no outono e no inverno ela pode se aglomerar em casas e galpões, causando incômodo e manchas. E, em áreas vitivinícolas, há um efeito menos óbvio: se joaninhas vão junto na colheita e são esmagadas com as uvas, podem deixar aromas e sabores indesejados no vinho, associados a compostos do grupo das metoxipirazinas.
O que isso ensina ao Brasil
Essa história não é distante. No Brasil, o primeiro registro de Harmonia axyridis ocorreu em 2002, em Curitiba (PR), e estudos posteriores discutiram seu potencial de expansão e o risco de pressão sobre joaninhas nativas. Em outras palavras: decisões “verdes” mal calibradas podem criar um problema novo, difícil e caro de reverter.
A lição não é abandonar o controle biológico, e sim fazer direito. Para a agricultura brasileira, isso significa apostar no manejo integrado de pragas, favorecer inimigos naturais já presentes no agroecossistema, usar produtos seletivos quando necessário
Também vale o alerta para jardins e hortas: não existe “soltura inocente” de espécie exótica. O desafio é manter produtividade com menos química sem criar novas invasões.
A oportunidade está em fortalecer pesquisa e produção de agentes com espécies nativas, ampliar a vigilância (inclusive com registros do público) e agir rápido quando um invasor ainda está no começo da expansão. É ciência aplicada, mas prudência vem antes sempre.
