No momento em que uma onda de protestos atinge o Irã, a repressão às mulheres que desobedecem às rígidas regras do regime voltou a ganhar destaque. Mulheres queimando foto do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país, e acendendo um cigarro com as chamas viraram um dos símbolos dos atos.
As manifestações tiveram início no fim de dezembro de 2025 e o governo respondeu com uma forte repressão. Segundo a Hrana (Human Rights Activists News Agency), os atos já deixaram 544 mortos e 10.681 presos.
Os protestos foram motivados inicialmente pela grave crise econômica, com inflação elevada, desvalorização acentuada da moeda e aumento dos preços de bens essenciais.
Com o passar dos dias, centenas de pessoas se juntaram aos atos, exigindo reformas políticas e do sistema judiciário, reivindicando maior liberdade e se manifestando contra o governo do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país.
Desde 1979, o Irã é uma teocracia na qual o líder supremo, o aiatolá, governa sob os preceitos do Alcorão (livro sagrado do islamismo). Na época, diferentes grupos da sociedade se uniram para derrubar o xá Mohammad Reza Pahlavi (1919-1980). O objetivo era interromper seu governo autocrático e ocidentalizado.
Sob o regime dos aiatolás, passaram a ser comuns os relatos de violação de direitos humanos, liberdades sociais restritas e economia prejudicada (por sanções estrangeiras).
A mudança do tratamento das mulheres iranianas é uma das principais reivindicações de opositores do governo –e de parte da comunidade internacional.
“Quando o 2º Xá foi derrubado pela Revolução Islâmica, foi algo totalmente negativo para as mulheres. Tudo se tornou antimulheres”, afirmou ao Poder360 a professora em entrevista publicada em julho do ano passado.
Logo depois da tomada do poder, o então líder supremo Ruhollah Khomeini (1902-1989) revogou o pacote de Leis de Proteção à Família, implementado em 1967 e atualizado em 1975. O conjunto garantia uma série de direitos às mulheres.
A suspensão levou à redução da idade mínima de meninas para casamentos: passou de 18 anos para 9 anos. Uma década depois, feministas e ativistas conseguiram mudar para 13 anos.
O regime também tornou obrigatório o uso do hijab, véu que cobre os cabelos. A abaya, que cobre grande parte do corpo, também se tornou acessório obrigatório para todas as mulheres a partir dos 9 anos de idade.
As leis islâmicas foram aplicadas à esfera pública. Isso significa que mulheres e homens só poderiam andar juntos em público se fossem casados, irmãos ou pai e filha.
Integrantes da Guarda Revolucionária (divisão das forças armadas iranianas criada durante a revolução) poderiam prender quem violasse as regras, e podiam entrar nas casas se suspeitassem de interações não permitidas e o consumo de álcool. A Guarda Revolucionária também é conhecida como a polícia da “moralidade”.
A VIDA DAS IRANIANAS
De acordo com a organização Iran Human Rights, em 2025, as iranianas ainda enfrentavam as seguintes circunstâncias:
- acesso limitado ao divórcio;
- proibição de viajar internacionalmente sem autorização do marido;
- necessidade de autorização do pai, maridos ou promotores para obterem passaportes;
- punições mais severas em crimes, incluindo morte em casos de adultério. Homens podem argumentar que estavam em casamentos temporários;
- idade mínima de 13 anos para casar-se, mas pode ser menor ainda com o consentimento dos responsáveis;
- necessidade de usar hijab e roupas folgadas em público;
- obrigação de dirigir cumprindo os códigos de vestimenta;
- repasse de metade de valores de herança;
- impossibilidade de serem líderes supremas e representatividade limitada na política;
- metade do direito de herança previsto para homens.
HISTÓRICO DE RESISTÊNCIA
Em setembro de 2022, Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos, foi detida pela Guarda Revolucionária por não usar “corretamente” o véu islâmico. Três dias depois, morreu em um hospital na capital. O Estado afirmou que a jovem teve um ataque cardíaco, mas sua família diz que a causa da morte foi um espancamento.
A morte de Amini deu origem ao movimento “Mulher, Vida, Liberdade”. A discussão sobre direitos das mulheres se tornou mais ampla.
Para Nayereh, deve-se manter uma perspectiva otimista. “Uma coisa que não puderam impedir foi a educação pública. E as mulheres se tornaram muito ativas em obter educação. A matrícula de mulheres nas universidades é maior que a dos homens. É de pelo menos 52%”, disse a professora.
O apoio internacional também ajudou a valorizar a luta feminista, segundo a acadêmica. “[Os governantes] não puderam censurar tudo. Então as mulheres se tornaram muito conscientes de seus direitos, e gradualmente começaram a se rebelar”, declarou.
Segundo Nayereh, os homens estão desempenhando um papel importante. “Principalmente homens mais jovens, mas também homens de meia-idade. Pais, muitos pais dessas jovens feministas que são ativas no movimento as apoiavam. Não apenas mães, mas também pais”, disse.
“A política de gênero e as relações de gênero no Irã mudaram. Não para todos, mas houve uma mudança paradigmática muito importante. Homens começaram a sentir a mesma necessidade de autonomia corporal que as mulheres reivindicam. Homens jovens já foram atacados por terem cabelo longo, não se vestirem de um jeito másculo. Isso afetou a todos”, declarou.
Leia a entrevista completa neste post do Poder360.
PROTESTOS NO IRÃ
Imagens de mulheres em todo o mundo acendendo cigarros com as chamas provenientes de uma foto queimada do líder supremo do Irã viraram um dos símbolos dos atos desencadeados no fim de 2025.
How about the video pic.twitter.com/A5L6JO22mq
— Morticia Addams (@melianouss) January 9, 2026
Segundo a Hrana, os protestos se dão em todas as 31 províncias do Irã. A organização disse que o bloqueio da internet no país, que já dura mais de 80 horas, aumenta as preocupações sobre a repressão severa.
Conforme a entidade, a NetBlocks relatou que a conectividade do Irã com o mundo exterior permanece em cerca de apenas 1% do nível normal, o que “limita o acesso público à informação e a capacidade das pessoas de se comunicarem entre si”.
A Hrana disse que os 544 mortos se dividem da seguinte forma:
- 47 integrantes das forças militares ou segurança;
- 483 manifestantes;
- 8 menores de 18 anos (não incluídos nos números acima);
- 1 promotor;
- 5 civis não participantes dos protestos.
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