Desde o princípio dos tempos, o homem entendeu que tudo o que morre, mas contém alma imortal, prevalece de alguma forma. Mas, para essa prevalência, deve responder primeiro pela forma que tomou até o momento do fechamento de sua história.
Funciona assim com homens, mulheres e crianças, mas a regra se estende, por analogia, a tudo aquilo que esses seres criam, moldam e animam: mais ou menos como dizem que Deus soprou nas narinas de um bonequinho de barro, e este então se tornou Adão, o primeiro homem — antes mesmo da criação dos substantivos coletivos.
Pois se Adão, de ser inanimado a alma imortal, constrói uma cadeira, essa pobre cadeira — humilde, calada e sem hálito — torna-se também uma obra julgável. E julgável sob quais princípios? Ora, sob os princípios básicos exigidos de uma cadeira! Não esperamos que ela voe, nem que lave a louça depois do café ou que calcule o raio da Terra: queremos que ela sustente nosso corpo sem incômodo e que, por favor, também dê alívio à nossa coluna.
Uma cadeira requer um julgamento bastante simples, por critérios igualmente simples. Julgamento que já seria insuficiente para os padrões superiores de uma poltrona reclinável e totalmente inadequado para a missão vital que assume um freezer de açougue. Imagine, então, que profundidade de critério pede um poema de Drummond! Como nos resolveremos, pior ainda, com a tragédia de Macbeth? Quem será homem — homem-adjetivo-másculo — para meter-se com os nervos ressaltados de Davi no mármore branco?
Pois sinto que sou mulher suficiente, ao menos, para julgar uma obra adâmica pós-queda como Stranger Things 5: a última temporada da série mais bem-sucedida da Netflix e, quem sabe, a mais vista de “todos os tempos” — termo que, nos convencidos padrões televisivos, significa apenas das últimas décadas para cá. Julgarei Stranger Things com um pouco de tudo: a modéstia da cadeira, o nível de Drummond, o desafio de Shakespeare e o pasmo ante o Davi.
Começo pelo veredicto e logo desenrolo o papiro: esta temporada é a pior entre as cinco e, com o tempo, ficará ilustre como a mais fraca da série. Seria duro, de fato, fazer frente ao brilhantismo das duas primeiras, fiéis aos princípios básicos que fizeram da história o auge criativo da última década: temas conspiratórios, senso de deslumbramento ante o desvendar de mistérios, quebra de estereótipos, formação de laços incomuns — e, claro, a redescoberta da máxima imbatível de que a união faz a força.
A última temporada também não é superior à penúltima, que marcou a reinvenção de Stranger Things quando o enredo parecia finalizado. Foi a passagem bem-sucedida das tramas infantis para abordagens mais densas e adultas. Como se, na prateleira da estante, a fita de E.T. se transubstanciasse na de O Iluminado, entra Vecna, novo ente do Mundo Invertido, mais inteligente e cruel que qualquer monstro prévio, invadindo mentes e torturando vítimas pelo vislumbre de suas culpas passadas. Mais luciferiano que isso, só mesmo o diabo.
E, para a surpresa geral, o quinto capítulo de Stranger Things não termina superior sequer à terceira temporada, considerada uma “mesotemporada” de verão, regida por dramas pré-adolescentes, cores oitentistas e fugas cômicas que tomam metade do tempo de tela, com pouco a acrescentar à mitologia do segmento. Mesmo assim, aquela conseguia apavorar, apresentar novos personagens, construir novos laços e meter a turma de amigos em situações suficientemente envolventes.
Como último capítulo de uma história que durou dez anos para ser contada por inteiro (um ponto fora da curva de uma época sedenta por rapidez), Stranger Things 5 prometeu a terra, o céu e todas as leis físicas que os sustentam em três dimensões diferentes, mas veio a pecar justamente no simples. Falhou logo no feijão com arroz: os diálogos parecem não ter encaixe, a sucessão de cenas já não tem a sincronia habitual, a adrenalina permanece alta enquanto a sensação de expectativa permanece nula. A química, o maravilhamento e a mágica anteriores perderam-se no vácuo entre as dimensões.
Mas não se trata de uma perda total que daria ao conto da cidade de Hawkins o imerecido infortúnio de terminar sem desfecho: pois teve um, e dos mais dignos. O último episódio, com pouco mais de duas horas de duração, embora não deixasse de incorrer no pecado usual das perguntas sem resposta, foi tão superior em acertos, em química, em enredo, em mistério e expectativa (a pura alma de Stranger Things) que os defeitos, inclusive os da temporada inteira, acabaram um tanto neutralizados.
Vecna (ou Henry, ou 001), apresentado desde o princípio como arquiteto de seus próprios crimes, não é absolvido, apesar dos traumas de seu passado: a série lembrou ao mundo o que é o mal deliberado, o mal por escolha, que o nosso tempo parece desconhecer. Então Winona Ryder faz as honras e dá-lhe a machadada final — já que nada mais lhe confiaram durante a temporada. Last but not least, Eleven (Onze) se sacrifica, matando-nos com ela, porém sem sinal de amargura ou de esquecimento do amor que um dia conhecera. Os criadores da série ao menos alcançaram a audácia da morte. E da eternização que chega por meio dela.
Julgo bem? Há quem julgue melhor. Mas qualquer meritíssimo que se preze há de notar uma virtude rara em Stranger Things: numa época em que o cinema só respira por aparelhos e só se alimenta, via sonda, de caldos requentados, os irmãos Duffer já devem ser congratulados apenas pela coragem de criar universos novos, regras novas, mitologias próprias e personagens inesquecíveis.
Como diriam em Hawkins: Holy shit, Stranger Things!
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