*por Joshua Benton
Uma das minhas newsletters semanais favoritas se chama Weeklypedia; eis aqui a edição de 9 de janeiro de 2026. Cada e-mail contém duas listas: os 20 verbetes da Wikipedia que foram editados mais vezes na semana anterior e os 10 verbetes criados na semana anterior que receberam mais edições. Se acompanharmos a newsletter por tempo suficiente, começamos a notar as subcategorias em que a maioria desses artigos se enquadra –e a quantidade de trabalho voluntário que eles recebem.
Existem listas muito específicas que algum editor meticuloso da Wikipedia assumiu como desafio. (Na semana de 9 de janeiro, por exemplo, a “Lista de capítulos da Phi Alpha Honor Society” foi editada 257 vezes por apenas 2 autores. “Mortes em março de 1982”, foi editada 398 vezes por 5 autores.)
Há os torneios esportivos e reality shows que exigem atualizações minuto a minuto. (Na semana de 9 de janeiro, houve 268 edições no texto “2026 Malaysia Open (badminton)” e 605 em “Bigg Boss –série de TV Tamil– temporada 9”.
Há também as biografias de personalidades que algum usuário decidiu que mereciam ser lembradas. (Na semana de 9 de janeiro, Mary Mark Ockerbloom criou o artigo sobre o abolicionista quaker John Vickers e o editou 161 vezes. O usuário pigsonthewing, também conhecido como Andy Mabbett, fez o mesmo para o artista Charles Shepard, mais conhecido por fazer cartazes para a indústria de turismo britânica. Ele editou esse artigo só 90 vezes.)
Porém, o gênero mais comum da Wikipedia toda semana é o de notícias. Quando algum evento grande é registrado no mundo, algum “wikipedista” começa um artigo –e em poucos minutos, editores usam reportagens como matéria-prima para construir um artigo enciclopédico. Aqui está o top 10 da semana de 9 de janeiro –o ranking é assustadoramente próximo a um resumo das manchetes da semana:
- “Ataques dos Estados Unidos na Venezuela em 2026” (3.057 mudanças por 575 autores);
- “Tiros do ICE em Minneapolis contra manifestante em 2026” (1.068 mudanças por 220 autores);
- “Assassinato de Renée Good” (1.067 mudanças por 220 autores);
- “Protestos do Irã 2025–2026” (762 mudanças por 155 autores);
- “Nicolás Maduro” (647 mudanças por 242 autores);
- “Incêndio no bar Crans-Montana em 2026” (597 mudanças por 167 autores);
- “Ataques aéreos em Caracas em 2026” (3.058 mudanças por 575 autores);
- “Mortes em 2026” (574 mudanças por 108 autores);
- “Delcy Rodríguez” (548 mudanças por 207 autores);
- “Reações internacionais aos ataques de 2026 dos EUA na Venezuela” (530 mudanças por 149 autores).
A Wikipedia completou 25 anos este mês. Em 15 de janeiro de 2001, às 14h27 (17h27 em Brasília), Jimmy Wales fez sua 1ª edição: “Esse é o novo WikiPedia!” (Desde então, eles melhoraram).
Para celebrar, é possível fazer o teste: “Que Wikipedia do futuro você é?”. Eu nem preciso completar o quiz para saber qual eu sou: a Wikipedia respeitada como fonte de notícias.
Os primeiros anos do site foram marcados por forte indignação da imprensa em relação a uma suposta fonte de “verdade” que qualquer um podia editar. E sim, qualquer um poderia agora mesmo incluir na biografia do político Happy Chandler que ele era um reptiliano.
Mas as camadas de responsabilização que o site construiu ao longo dos anos provavelmente reverteriam essa edição em apenas alguns minutos. Se esses minutos forem o custo de criar, talvez, a maior fonte de informação da humanidade, eu estou disposto a pagar por eles –que me perdoem os descendentes de Happy Chandler.
Aqui estão algumas lições que as empresas jornalísticas poderiam aprender com a Wikipedia:
- Notícia nem sempre é o que acabou de acontecer
Depois de algumas décadas na web, isso pode parecer óbvio. Mas em 2001, as empresas jornalísticas ainda eram geralmente construídas em torno da produção de jornais diários e telejornais noturnos. Os ritmos de produção dirigiam tudo, desde a seleção de reportagens até o estilo de escrita, passando pelas estratégias de gerar receita.
A Wikipedia foi o 1º site que deu à maioria dos jornalistas a ideia de que um “artigo” pode ser constantemente atualizado e não precisa ser reescrito com um novo lide no dia seguinte. Se houver um detalhe importante, por exemplo, na investigação do incêndio no bar da Suíça, ele será usado para melhorar o artigo atual da Wikipedia –não para criar uma nova URL única a ser compartilhada.
Quaisquer que sejam as perguntas que o jornalismo responde hoje, as pessoas provavelmente ainda estarão fazendo-as no dia seguinte, na próxima semana e no próximo ano. A Wikipedia é otimizada para atualizar os leitores sobre notícias que eles perderam na 1ª vez.
- Construir processos significa construir cultura
A Wikipedia deu certo, porque possui um conjunto central de padrões e práticas que seus editores tratam como se fossem uma escritura sagrada:
- “Sem pesquisa original”;
- “ponto de vista neutro”;
- “nem toda fonte é igualmente confiável”;
- “sem sockpuppetry (contas falsas)”; “
- não atrapalhe a Wikipedia para provar um argumento” –mas “presuma boa-fé”.
A maioria (embora não todos) se alinha perfeitamente com os princípios do jornalismo. Mas eles foram construídos: trata-se de um conjunto codificado de padrões editoriais, um ethos coletivo que guia toda a operação.
Para a Wikipedia funcionar, deve haver consenso sobre como as coisas são feitas, e isso exige construir uma cultura entre os editores. Por que tantos outros sites baseados em wikis falharam? Eles nunca constroem a cultura que sustenta os processos.
- Não quebre links
A menos que um artigo tenha sido removido completamente, quase todos os links para páginas da Wikipedia criadas nos últimos 25 anos ainda funcionam. O artigo sobre Nicolás Maduro ainda está no mesmo lugar de quando foi criado em 2006, com 4.493 edições. Quantas reportagens publicadas on-line em 2006 ainda estão no mesmo endereço? Pouquíssimas. Se pensarmos nos artigos como algo que permanece no tempo, percebemos o alto custo de quebrar uma URL perfeitamente boa.
- Documente seu trabalho
Leia um desses artigos jornalísticos da Wikipedia, como esse sobre o assassinato de Renée Good. Atualmente tem 5.352 palavras. Foi lido 1,8 milhão de vezes. Um total de 331 pessoas fez 2.204 edições nele. Sua página de discussão inclui mais de 1.000 comentários assinados de usuários da Wikipedia debatendo a inclusão ou exclusão de algo. (O título da página deve se referir a Renee Good ou Renée Good, com acento? Devemos registrar a data em que o atirador foi identificado publicamente pela 1ª vez? Este artigo deve incluir detalhes sobre os protestos anti-ICE realizados depois do assassinato ou isso deve estar em um artigo separado?)
O artigo apoia suas afirmações em 201 notas de rodapé ligadas a fontes de notícias e declarações oficiais. E todo esse trabalho está disponível para qualquer um ver. Os debates na página de discussão permitem que o leitor acompanhe quais pontos de vista estão sendo ouvidos e debatidos. E qualquer pessoa pode clicar em um link para confirmar se uma fonte é citada corretamente. Esse grau de transparência não é prático para todo trabalho jornalístico –mas é inegável a confiança construída quando operado publicamente.
*Joshua Benton é escritor sênior e ex-diretor do Nieman Lab, que fundou em 2008.
Texto traduzido por Bruna Carvalho. Leia o original em inglês.
O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.
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