A Venezuela promoveu um redirecionamento estratégico de sua rede diplomática meses antes da operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro e de sua mulher, Cília Flores. É o que mostram telegramas da Embaixada do Brasil em Caracas obtidos via LAI (Lei de Acesso à Informação) pelo Poder360.
A partir de outubro de 2025, o governo venezuelano fechou embaixadas na Noruega e na Austrália para abrir representações em Burkina Faso e no Zimbábue. A mudança consolidou a aposta do líder chavista na África como alternativa ao cerco imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano).
A diplomacia brasileira interpretou a guinada africana como “parte do esforço concentrado” de Caracas “para angariar apoios e alianças no Sul Global e, assim, minimizar o risco de isolamento internacional”, conforme os telegramas.
Com o redirecionamento, a Venezuela passou a ter a 3ª maior rede diplomática na África entre países latino-americanos, ficando atrás só de Brasil e Cuba. O país deve chegar a cerca de 20 representações ativas ou em processo de abertura no continente. Entre elas, os novos postos em Uagadugu (Burkina Faso) e Harare (Zimbábue).
No cargo desde 2023, o chanceler venezuelano, Yván Gil, já fez 7 viagens ao continente africano desde o início de sua gestão. Visitou Egito, Etiópia, Guiné Equatorial, Namíbia, República do Congo, Ruanda e Uganda. Alguns desses países mais de uma vez, segundo os documentos brasileiros.
A estratégia venezuelana tem relação indireta com a política externa do Brasil. O país mantém relações diplomáticas ativas na África, onde lidera a rede de embaixadas latino-americanas, com 34 unidades. Em 2025, o governo brasileiro também ampliou sua presença em blocos de cooperação com países africanos, na tentativa de consolidar acordos Sul-Sul em paralelo à negociação do Acordo UE-Mercosul.
ITAMARATY ALERTOU PARA RISCO DE CONFRONTO MILITAR
Os documentos diplomáticos obtidos pelo Poder360 mostram que o Brasil acompanhou com apreensão o agravamento das tensões entre Venezuela e EUA ao longo de 2025.
“Esse movimento está em curso há anos, mas se torna particularmente urgente no atual cenário de graves tensões com os EUA, no qual uma confrontação militar direta é considerada plausível”, diz telegrama de 17 de outubro de 2025.
A escalada militar de Trump no Caribe já vinha sendo construída desde agosto de 2025. O governo norte-americano enviou 4.000 marinheiros e fuzileiros navais, navios de guerra e um submarino de propulsão nuclear para a região sob o pretexto de combater o narcotráfico.
Em 18 de agosto de 2025, Maduro anunciou a convocação de 4,5 milhões de integrantes da Milícia Nacional Bolivariana, um braço armado formado por voluntários, reservistas e civis, integrado às Forças Armadas. Apresentou a medida como parte do “plano de paz” do governo. Os números foram considerados irreais por especialistas.
A convocação coincidiu com a notícia de que 3 navios de guerra norte-americanos se encaminhavam para águas venezuelanas. Eram os contratorpedeiros USS Gravely, USS Jason Dunham e USS Sampson. O propósito declarado era combater o narcotráfico.
Os ataques a embarcações no Caribe começaram em setembro. Deixaram mais de 80 mortos até novembro. Em novembro, o secretário de Guerra, Pete Hegseth, anunciou a operação Lança do Sul. A operação intensificou a presença militar com a chegada do USS Gerald R. Ford, o maior e mais moderno porta-aviões de propulsão nuclear do mundo.
O Brasil adotou atitude de cautela diplomática enquanto a Venezuela buscava alianças na África e no Sul Global. Desde 19 de agosto de 2025, as Forças Armadas brasileiras monitoravam o deslocamento das forças norte-americanas. A preocupação era com possíveis impactos na fronteira com Roraima e um eventual êxodo migratório.
O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, disse em agosto de 2025 que acompanhava com “preocupação” a mobilização militar no sul do Caribe. “Somos, sobretudo, contra a intervenção externa”, declarou durante audiência na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.
Em 4 de setembro, o Brasil assinou com outros 19 países latino-americanos e caribenhos uma declaração conjunta. O documento reafirmou a América Latina e o Caribe como “Zona de Paz”. Rejeitou “a ameaça ou o uso da força” na região. Foi uma referência indireta ao envio de tropas pelos EUA.
Amorim afirmou em agosto que via com “preocupação” navios de guerra dos EUA perto da Venezuela
INVASÃO MILITAR E CRISE ATUAL
A tensão culminou em 3 de janeiro de 2026. Os Estados Unidos realizaram uma operação militar em território venezuelano. A ação resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro e de sua mulher, Cília Flores. O governo venezuelano classificou a operação como uma “agressão criminosa, ilegítima e ilegal” que deixou mais de uma centena de mortos.
O Brasil rotulou a invasão como “grave” durante reunião extraordinária do Conselho Permanente da OEA. O embaixador Benoni Belli disse que o episódio evoca “tempos considerados ultrapassados, mas que voltam a assolar a América Latina e o Caribe”.
O Itamaraty manteve articulação intensa depois da invasão. O chanceler Mauro Vieira entrou em contato com autoridades de ao menos 11 países: Venezuela, Uruguai, México, França, África do Sul, Colômbia, Espanha, Canadá, Noruega, Irã e Holanda.
Em 10 de janeiro, o Brasil anunciou que deixaria de representar os interesses diplomáticos da Argentina na Venezuela. Exercia a função desde agosto de 2024. A decisão ocorreu após tensões com Buenos Aires sobre a crise venezuelana.
Em 9 de janeiro de 2026, a Venezuela anunciou o início de um “processo exploratório diplomático” com os EUA. O objetivo é o restabelecimento das relações diplomáticas, rompidas desde 2019.
A Venezuela quer abordar “a agressão e o sequestro do presidente da República e da primeira-dama”.
O Ministério das Relações Exteriores brasileiro disse que “não há escalada de tensão entre o Brasil e os Estados Unidos”. Declarou que a posição adotada é “coerente com a tradição da política externa e com a Constituição“.
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