Há homens que constroem impérios com tijolo, cimento e planilha. E há os que erguem castelos com o material mais leve — e, por isso mesmo, mais perigoso — da vida pública: o encanto. Daniel Bueno Vorcaro, empresário e economista, parece ter entendido cedo que, no Brasil, capital é importante; mas capital social é a moeda que abre portas que nem o Banco Central consegue destrancar com facilidade. E assim, antes de virar assunto fora do “andar de cima”, ele já era desses personagens que não precisam se apresentar: basta entrar, sorrir, apertar duas mãos certas e o ambiente entende “quem ele é”. Empresário com atuação no financeiro, imobiliário, saúde e varejo, sua fama circulava sobretudo no topo da pirâmide social — onde networking é tratado como ciência exata e “coincidência” é agenda bem-feita.
O país passou a pronunciá-lo com mais curiosidade quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master no fim de 2025, jogando luz sobre o que até então era mais conhecido pelos círculos seletos do poder do que pelo público em geral. A partir daí, vieram as suspeitas de fraude em escala bilionária, investigações e o tipo de narrativa que costuma transformar “empreendedor arrojado” em “protagonista de dossiê”: apurações, diligências e análises que recolocam o personagem no mundo prosaico dos fatos, dos papéis e das versões. Como se o enredo precisasse de capítulo extra, outra liquidação no conglomerado também entrou no radar, reforçando a sensação de que o castelo, afinal, tinha rachaduras.
Mas, se o espanto popular mira o tamanho do negócio e o estrondo do colapso, a perplexidade política costuma mirar outra coisa: o trânsito. O que surpreende na vida de Vorcaro não é apenas o volume de suas operações, e, sim, o extraordinário networking com figuras importantes do Judiciário, do Executivo e do Legislativo — como se a República, vez ou outra, confundisse credencial com carisma. Aqui, o atributo “sedução” deixa de ser metáfora romântica para virar ferramenta de gestão: o poder de convencimento que atrai autoridades, aproxima decisores e torna negócios arriscados — e supostamente ilícitos — mais fáceis de circular, como se a mera proximidade com gente relevante funcionasse como selo de normalidade.
É por isso que “Vorcaro, o homem sedutor”, não é só um título: é uma chave de leitura. Bourdieu chamaria isso de capital social, Weber lembraria a força do carisma como forma de dominação, Baudrillard provocaria que a sedução opera no plano do simbólico — e Goffman resumiria tudo como teatro social, com palco, bastidor e figurino impecável. No Brasil, o figurino costuma ser metade do argumento e o convite, metade do contrato; o beneplácito, muitas vezes, aparece como silêncio elegante que não assina nada, apenas legitima o clima. E quando a música para, o charme precisa conversar com o processo — porque, por mais sedutor que seja o protagonista, a realidade tem um defeito terrível: ela exige prova. Quanto ao “homem sedutor”, talvez a lição seja menos sobre um indivíduo e mais sobre o ambiente que o torna viável. No Brasil, o grande ativo não é apenas ter negócios — é ter trânsito. E, quando o trânsito vira blindagem informal, a República descobre tarde que a sedução também pode ser um modo perverso de captura.
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