Há textos que, quanto mais antigos, mais atuais se tornam. Sempre que retorno a “A República”, de Platão, tenho a sensação desconfortável de que não estou lendo um livro escrito há mais de dois mil anos, mas um comentário ácido sobre o nosso próprio tempo. Entre os muitos diálogos e conceitos apresentados na obra, há um pequeno relato que nunca me abandona, a qual quero dividir com todos vocês, a história do Anel de Giges.
Volto a ela não porque seja longa ou complexa, ao contrário, é simples, mas porque carrega uma pergunta que insiste em me perseguir “sou justo porque acredito na justiça ou apenas porque sou observado?“
Platão apresenta Giges como um pastor comum, alguém sem grande poder ou relevância. Após um terremoto, ao explorar uma fenda aberta na terra, ele encontra um anel que lhe concede invisibilidade. Bastava girá-lo no dedo. Invisível, Giges atravessa todas as fronteiras morais que antes o contiveram, seduz a rainha, assassina o rei e toma o trono. Não porque o anel o transformou, mas porque revelou o que estava latente.
Sempre que leio esse trecho, percebo que Platão não está interessado em Giges. Ele está interessado em mim. Em nós.
O anel não cria o mal, ele remove o medo da punição em ser pego. E essa diferença é crucial. Platão parece nos dizer que grande parte daquilo que chamamos de virtude não passa de um comportamento condicionado. Somos justos enquanto a justiça é conveniente. Éticos enquanto somos vistos. Honestos enquanto há consequências claras para a desonestidade.
Essa constatação me inquieta porque desloca a ética do campo externo das leis, das normas, das instituições, para o campo interno, silencioso e muito menos confortável, o da consciência. Afinal, “quem somos quando não precisamos prestar contas a ninguém?”
Costumo pensar que o Anel de Giges é menos um objeto mágico e mais um experimento mental. Ele testa a solidez da nossa moral. Se retirarmos o olhar do outro, o que permanece? Um caráter formado ou apenas um conjunto de hábitos sociais bem ensaiados?
Platão escreve A República em busca da justiça, mas não de uma justiça meramente jurídica. Ele quer compreender a justiça como harmonia da alma. Para ele, o homem justo não é aquele que apenas cumpre regras, mas aquele cuja alma está ordenada, em equilíbrio, governada pela razão. O injusto, ainda que poderoso e impune, vive em desordem interior.
Confesso que essa visão, embora bela, me parece difícil de sustentar quando observo o mundo à minha volta. Vivemos em uma sociedade profundamente marcada pela aparência. Aprendemos a parecer corretos antes mesmo de aprender a ser corretos. O discurso moral tornou-se um recurso retórico, uma ferramenta de autopromoção, muitas vezes desvinculada da prática.
Nunca foi tão fácil parecer virtuoso. Basta um posicionamento público, uma frase bem colocada, uma indignação oportuna. Mas o Anel de Giges moderno se manifesta nos bastidores, longe das câmeras, longe das redes sociais, longe do julgamento coletivo. Ele aparece no “ninguém vai saber”, no “todo mundo faz”, no “isso não faz diferença”. E é aqui que, inevitavelmente, penso na sociedade brasileira contemporânea.
Em períodos eleitorais, essa reflexão se torna ainda mais incômoda. O discurso da justiça se intensifica. Fala-se em ética, renovação, compromisso com o bem comum. Todos parecem defensores intransigentes da moralidade pública. No entanto, basta um pequeno giro no anel para que a prática revele outra face.
A compra e a venda de votos talvez sejam a expressão mais cristalina dessa moral condicionada. Sempre me chamou a atenção o fato de que, nesse processo, raramente alguém se vê como injusto. O político que oferece vantagens acredita estar apenas “jogando o jogo”. O eleitor que aceita convence-se de que está apenas aproveitando uma oportunidade. Ambos se sentem invisíveis. Ambos justificam seus atos. Ambos acreditam que a responsabilidade é sempre do outro.
Platão, certamente, não se surpreenderia.
O problema é que, quando a justiça se reduz à conveniência, ela deixa de ser um valor e passa a ser uma estratégia. Não se faz o certo porque ele é certo, mas porque ele é útil ou porque o errado é arriscado demais. A ética, nesse cenário, não orienta o comportamento, apenas o regula superficialmente.
E isso não se limita à política institucional. O Anel de Giges se manifesta nas pequenas corrupções diárias, nas vantagens indevidas aceitas em silêncio, nas transgressões discretas, na flexibilização seletiva das regras. São gestos aparentemente pequenos, quase insignificantes, mas que, somados, constroem uma cultura.
Uma cultura onde a justiça é exigida dos outros, mas relativizada em relação a si mesmo.
Platão acreditava que a injustiça corrói a alma do injusto, ainda que ele jamais seja punido externamente. Gosto dessa ideia porque ela devolve a ética ao seu lugar mais profundo: não como um código imposto, mas como uma condição do ser. A injustiça, nesse sentido, não é apenas um erro social; é uma desordem interior.
Talvez por isso seja tão difícil romper com certos padrões. Quando a injustiça se normaliza, ela deixa de ser percebida como tal. O anel já não precisa mais ser girado. A invisibilidade torna-se permanente.
Quando penso nisso, compreendo que o maior desafio da democracia não é apenas institucional, mas moral. Nenhum sistema político se sustenta quando seus cidadãos apenas simulam virtude. Nenhuma sociedade se torna justa quando a justiça depende exclusivamente da vigilância e da punição.
O Anel de Giges obriga a cada um de nós amapaenses a encarar uma pergunta que preferimos evitar, “se eu tivesse poder absoluto e nenhuma consequência, quem eu escolheria ser?”
Talvez a resposta a essa pergunta explique mais sobre o nosso país do que qualquer pesquisa, discurso ou promessa eleitoral.
Seguimos tentando parecer justos. Mas a justiça verdadeira, aquela que não depende de plateia ainda nos escapa. Enquanto isso, continuamos a girar o anel, esperando que ninguém esteja olhando, sem perceber que, no fim, somos nós mesmos que passamos a viver na escuridão.
O post O ANEL DE GIGES E O QUE FAZEMOS QUANDO NINGUÉM ESTÁ OLHANDO apareceu primeiro em A Gazeta do Amapá.
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