Um levantamento nacional estima que a agricultura brasileira perdeu 1,4 Pg de carbono do solo nos primeiros 30 cm. Cerrado e Atlântica concentram o déficit. Entenda o que isso significa e quais manejos ajudam a recompor estoques.

O carbono orgânico do solo é parte do que mantém produtividade, infiltração de água e resistência a secas. Quando ele cai, o solo perde estrutura, fica mais suscetível à erosão e tende a exigir mais insumos para sustentar o rendimento. Por isso, “solo saudável” também pode ser medido em estoque de carbono.

Uma síntese nacional de dados de campo comparou áreas agrícolas com áreas sob vegetação nativa e estimou o tamanho desse déficit. A ideia é simples: se o uso agrícola reduz o carbono do solo, isso afeta a fertilidade e também o balanço de CO2, já que parte desse carbono deixa o sistema ao longo do tempo.
O tamanho da dívida de carbono do solo
No recorte de 0–30 cm, a perda agregada estimada é de 1,4 ± 0,1 Pg de carbono (cerca de 1,4 bilhão de toneladas) em relação ao estoque sob vegetação nativa, o que equivale a cerca de 5,2 Pg de CO2.
O estudo também indica onde o tema é mais estratégico. Cerrado e Mata Atlântica concentram grande parte do potencial teórico de recuperação: cerca de 0,53 Pg C e 0,48 Pg C, respectivamente, somando aproximadamente 72% do total estimado.
Para políticas públicas e crédito rural, isso sugere que iniciativas nessas regiões tendem a entregar maior retorno por hectare quando o objetivo é recuperar carbono e qualidade do solo, sem perder de vista diferenças de clima e tipo de solo.
O que o manejo já indica como caminho
A boa notícia é que o déficit não é uma sentença definitiva. Em média, sistemas mais diversificados e intensificados perdem menos carbono do que monoculturas e, em algumas comparações, chegam a apresentar ganhos. É importante lembrar que são médias de muitos estudos: o “quanto recupera” depende de histórico de uso, textura do solo, clima e tempo de adoção, e o efeito do manejo costuma ser mais forte na camada superficial, onde entram palhada e raízes finas.
Entre os achados com leitura direta para o campo, destacam-se:
- Plantio direto, em média, reduz a perda relativa de carbono (cerca de −11,4%) em comparação ao preparo convencional (aprox. −21,4%).
- Rotação/consórcio tende a superar monoculturas, com ganho médio estimado em torno de +8,9% nas comparações analisadas.
- Sistemas integrados (como ILP/ILPF, Integración Lavoura-Pecuaria-Floresta) aparecem entre os melhores desempenhos, com ganhos médios próximos de +12,5% em relação à monocultura em parte das análises.
Como isso vira ação
Na prática, transformar potencial em resultado depende de tempo e consistência. Carbono do solo não sobe do dia para a noite: a recomposição leva anos e pode regredir rapidamente se o manejo piora.
O Brasil tem vantagem por já ter experiência com plantio direto, recuperação de pastagens e integração lavoura-pecuária. O desafio é escalar com qualidade, adaptando ao bioma, ao tipo de solo e ao clima local, e evitando que a pressão por curto prazo leve a retrocessos.
Com instrumentos como assistência técnica, linhas de crédito condicionadas a boas práticas e monitoramento simples (amostragem de solo e indicadores de cobertura), recarbonizar o solo significa produzir com mais resiliência e transformar manejo em indicador mensurável de sustentabilidade, sem abrir mão de produtividade.
Referência da notícia
Soil carbon debt from land use change in Brazil. 26 de Janeiro, 2026. Villela, J.M., Damian, J.M., Gonçalves, D.R.P. et al.
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