Um tribunal chinês condenou Tang Yijun, ex-ministro da Justiça do país, à prisão perpétua, marcando a mais recente queda de um alto funcionário na implacável campanha anticorrupção do país. O Tribunal Popular Intermediário de Xiamen, na província de Fujian, anunciou o veredicto na 2ª feira (2.fev.2026), considerando Tang culpado de aceitar subornos que totalizam mais de 137 milhões de yuans (US$ 19 milhões).
A sentença de Tang o torna o 1º alto funcionário envolvido em um caso com valor superior a 100 milhões de yuans a ser condenado em 2026, sinalizando que o expurgo de Pequim contra a elite financeira e política continua intenso. O tribunal revogou os direitos políticos de Tang para sempre e ordenou a confisco de todos os seus bens pessoais. Todos os ganhos ilícitos e juros acumulados serão recuperados e entregues ao Tesouro do Estado.
Desde o início de 2026, 6 quadros de gestão centralizada –altos funcionários monitorados diretamente pela liderança central– receberam sentenças de 1ª instância. Tang é o mais notório entre eles por causa da magnitude de seu esquema de suborno e do seu antigo cargo como responsável pela administração da justiça na China. Os outros funcionários condenados este ano incluem Zhao Jinyun, Wang Hao, Chen Xiaobo, Zhang Gengsheng e Zhang Xiaolian.
O tribunal constatou que as atividades corruptas de Tang se estenderam por quase duas décadas, começando em 2006, durante seu mandato na cidade portuária de Ningbo, e continuando durante seu período como Ministro da Justiça até 2022. Os investigadores revelaram que Tang explorou seus diversos cargos para garantir benefícios para empresas e indivíduos.
De acordo com o veredicto, Tang facilitou assuntos relacionados à abertura de capital de empresas, recompra de terrenos, empréstimos bancários e condução de processos judiciais. Em troca, ele aceitou ilegalmente bens e fundos avaliados em mais de 137 milhões de yuans.
O tribunal descreveu o valor do suborno como “particularmente enorme”, causando prejuízos significativos aos interesses do Estado e da população. No entanto, o juiz concedeu clemência porque Tang confessou seus crimes, revelou fatos sobre suborno desconhecidos pelos investigadores, expressou remorso e devolveu ativamente todos os ganhos ilícitos.
Tang, de 64 anos, declarou-se culpado durante seu julgamento em 11 de setembro de 2025. Sua queda se soma à turbulenta história do Ministério da Justiça da China, um órgão que se tornou cada vez mais perigoso para seus ocupantes.
Desde o 18º Congresso Nacional do Partido Comunista, vários altos funcionários ligados ao ministério foram investigados, incluindo os ex-ministros Wu Aiying e Fu Zhenghua, o ex-vice-ministro Liu Zhiqiang e o ex-diretor do Departamento Político Lu Enguang.
Nascido em março de 1961 em Rizhao, província de Shandong, a trajetória profissional de Tang inicialmente parecia emblemática da meritocracia da era pós-Mao. Ele passou o final da adolescência como um “jovem enviado para trabalhar” na zona rural da província de Zhejiang, de 1977 a 1980.
Ingressou no corpo docente da Escola do Partido da Prefeitura de Lishui e, posteriormente, estudou economia política. Em 1991, conquistou um cargo no Gabinete Geral do Comitê Provincial do Partido de Zhejiang, chegando a ocupar o cargo de secretário-geral do Comitê Municipal do Partido de Zhoushan.
Tang passou 12 anos em Ningbo, uma cidade subprovincial e importante centro econômico, que ele mais tarde chamou de sua “2ª cidade natal”. Sua ascensão política se intensificou significativamente depois do 18º Congresso do Partido.
Em 2016, um vácuo político em Ningbo permitiu que Tang assumisse 3 funções cruciais simultaneamente: prefeito interino, secretário municipal do partido e integrante do comitê permanente do comitê provincial do partido. Essa rápida consolidação do poder abriu caminho para sua promoção a governador de Liaoning em 2017.
Em abril de 2020, Tang foi nomeado ministro da Justiça, sucedendo Fu Zhenghua. Durante seu mandato, o ministério passou por uma reestruturação significativa, absorvendo o Gabinete de Assuntos Legislativos do Conselho de Estado.
Apesar de ocupar um dos cargos jurídicos mais importantes do país, Tang continuou suas atividades ilícitas. Ele passou a exercer o cargo de principal órgão consultivo político da província de Jiangxi no início de 2023, atuando como presidente até que sua investigação fosse oficialmente anunciada em abril de 2024. Ele foi expulso do partido e de cargos públicos em outubro de 2024.
A investigação contra Tang expôs um sofisticado modelo de “corrupção familiar”, detalhando como funcionários públicos ocultam subornos por meio de cônjuges e instrumentos financeiros complexos. Detalhes desses mecanismos foram divulgados em um documentário anticorrupção televisionado, “Anticorrupção para o Povo”, transmitido em janeiro de 2025.
A esposa de Tang, Xuan Minjie, desempenhou um papel central no esquema. Ex-executiva de empresas estatais que migrou para o setor privado em 2005, Xuan controlava uma rede de empresas de fachada. Tang usou sua influência política para garantir oportunidades lucrativas para empresários que, por sua vez, repassavam os lucros para Xuan.
O documentário destacou um caso de desenvolvimento imobiliário em Ningbo, no qual Xuan “investiu” zero capital. Tang pressionou os departamentos competentes para garantir cotas de terrenos para construção para uma construtora. Assim que o projeto foi aprovado, a empresa de Xuan alegou um lucro enorme –nominalmente por se retirar do projeto ou transferir participação acionária– embolsando mais de 5 milhões de yuans sem contribuir com um único centavo.
“Empresários me abordaram com o que pareciam ser ofertas legítimas de investimento ou cooperação”, disse Xuan no documentário. “Eles estavam de olho no poder que eu exercia. Eu não apenas repassava os pedidos para Tang Yijun; eu os apresentava a ele.”
Para evitar ser descoberta, Xuan raramente detinha ações em seu próprio nome. “Meu nome nunca apareceu em registros industriais e comerciais, nem como a pessoa física final nas estruturas de capital”, declarou ela. Em vez disso, ela utilizava parentes distantes e associados de confiança como representantes para deter participações em dezenas de empresas.
A CCDI (Comissão Central de Inspeção Disciplinar) superou essas táticas de ocultação ao empregar análises de dados avançadas. Zhou Shengjiao, vice-diretor da CCDI, revelou que os investigadores analisaram mais de 10 milhões de registros, incluindo cadastros corporativos e dados de combate à lavagem de dinheiro, vinculados a centenas de empresas e indivíduos associados a Xuan.
Ao rastrear os fluxos de capital através de múltiplas camadas, as autoridades identificaram que a beneficiária final e tomadora de decisões por trás da rede era Xuan.
O casal também utilizou “capital de risco” como disfarce para suborno –uma tendência que as autoridades identificam como uma forma crescente de “corrupção de novo tipo”.
Em um caso, uma empresa de tecnologia que buscava abrir capital foi adquirida por uma empresa menor controlada por Xuan. Ela obteve 4,5 milhões de ações originais. Tang, então, usou sua posição para facilitar o processo de IPO da empresa. Depois da abertura de capital, o valor da participação de Xuan disparou, rendendo à família mais de 40 milhões de yuans.
Outro método envolvia esquemas de “baixo valor e alto investimento”, nos quais empresários injetavam capital nas empresas de Xuan com avaliações muito acima da realidade do mercado.
“A parte excedente é uma transferência de benefícios”, disse Xuan diante das câmeras. “Se eu valho um yuan e eles investem dois, o que posso retribuir? A ajuda que o poder de Tang Yijun pode lhes proporcionar.”
O caso de Tang destaca o foco crescente do governo chinês nos familiares de altos funcionários. Em 2022, o Gabinete Geral do Comitê Central do Partido Comunista emitiu regulamentos exigindo que os principais funcionários relatem honestamente as atividades comerciais de seus cônjuges e filhos.
As regras impõem penalidades severas para aqueles que usam laranjas ou investimentos paralelos para burlar as proibições de atividades comerciais, sinalizando que o modelo de “corrupção familiar” empregado por Tang agora é um alvo prioritário dos reguladores.
Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pela Caixin Global em 3.fev.2026. Foi traduzida e republicada pelo Poder360 sob acordo mútuo de compartilhamento de conteúdo.
Powered by WPeMatico
