Chuvas quase diárias no norte de Mato Grosso atrasam a colheita da soja e elevam grãos ardidos e brotados. Com descontos que passam de 20%, produtores veem a margem sumir. Entenda o mecanismo e o que fazer.

A colheita da soja em Mato Grosso costuma ser sinônimo de ritmo acelerado e filas nos armazéns. Neste início de fevereiro, porém, a chuva no norte do estado, desde meados de janeiro, fez a soja madura “passar do ponto” e colocou a qualidade do grão no centro do prejuízo.
Quando a soja fica pronta e permanece dias sob alta umidade, ela pode fermentar, escurecer, perder peso e até brotar dentro da vagem. É daí que vem o termo que domina conversas no campo: “grão ardido”. Para quem compra alimentos, parece detalhe; para quem vende soja, vira desconto e, com a saca pressionada em muitas praças do estado, a margem some rápido.
Quando a chuva vira desconto no silo
No campo, a sequência é direta: a vagem abre e fecha com as pancadas, a umidade sobe e desce, e o grão maduro sofre microdanos. Com calor e água juntos, a deterioração acelera. Em municípios do norte de MT, como Matupá e Guarantã do Norte, produtores relatam lotes com cerca de 30% de grãos avariados (ardidos, fermentados e brotados), o que derruba o valor recebido na entrega.

A penalização ocorre porque o mercado trabalha com limites de tolerância para “avariados”. Acima desse teto, o desconto cresce rápido, e ainda se somam abatimentos por umidade e impurezas, comuns quando a colheita acontece “no intervalo” entre chuvas. Resultado: uma soja que seria padrão de exportação pode perder destino e exigir mistura de lotes ou redirecionamento para uso interno.
O efeito dominó
O gargalo não termina na lavoura. Grão úmido exige secagem imediata, e secar custa energia, tempo e capacidade. Em um estado que colhe muito ao mesmo tempo, chuva persistente vira fila, trava recepção e eleva o custo por tonelada entregue.
Os pontos que mais pesam na conta, em semana chuvosa, costumam ser:
- Mais “avariado” (ardido/fermentado/brotado), com desconto progressivo na classificação.
- Umidade alta na entrega, que exige secagem e aumenta o risco de quebra do grão.
- Impurezas acima do normal, que viram abatimento direto e travam a recepção.
- Maior risco de aquecimento no armazenamento se a gestão do lote falhar.
Armazéns e tradings também entram em modo defensivo: precisam cumprir especificações e, ao mesmo tempo, lidar com produto fora do padrão. Quando a qualidade cai, segregar fica mais difícil e a logística encarece. Parte do grão que iria para exportação pode ser empurrada ao esmagamento (óleo e farelo), mudando rotas e custos, sem recuperar a margem de quem produz.
O que esperar nas próximas semanas
A chave agora é o “timing” do tempo firme. No melhor cenário, fevereiro abre janelas mais longas de sol, a colheita avança e os talhões ainda em boas condições preservam qualidade. No caso-base, as chuvas seguem intercaladas: dá para colher, mas com perda pontual de padrão, sobretudo no norte.
Para reduzir perdas adicionais, o caminho passa por decisão rápida (colher no primeiro intervalo seguro), manejo pós-colheita (segregar e secar imediatamente) e planejamento estrutural (capacidade de secagem e armazenagem compatível com o pico da safra).
O aprendizado vale para todo o Brasil: chuva na fase certa é aliada; chuva na colheita vira custo, e alguns dias de atraso podem mudar o resultado financeiro de uma temporada inteira.
Referência da noticia
Monitoramento semanal das lavouras. 2 de fevereiro, 2026. CONAB.
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