Em 2024, ao abordar a centralidade da cadeia produtiva do carnaval no Amapá em artigo nesta coluna, destaquei a necessidade de superar a visão reducionista que tratava o desfile das escolas de samba apenas como entretenimento subvencionado. A visita da Corte do Carnaval à quadra da Universidade de Samba Boêmios do Laguinho, com a presença da Liga das Escolas de Samba do Estado do Amapá (LIESAP), simbolizou um ponto de inflexão institucional: o discurso econômico passou a integrar a narrativa cultural. À época, relembrou-se pesquisa da Secretaria de Turismo, de 2015, que apontava a geração de 10 mil postos de trabalho, sendo 2 mil diretos, evidenciando que o investimento público não era despesa supérflua, mas indutor de circulação de renda. Para 2026, a expectativa é que essa compreensão avance do plano retórico para o planejamento estratégico estruturado.
A cadeia produtiva do carnaval, quando analisada sob a ótica da economia criativa, revela um ecossistema complexo: costureiras, ferreiros, cenógrafos, músicos, coreógrafos, técnicos de iluminação, soldadores, marceneiros, designers, publicitários, motoristas, seguranças, ambulantes e profissionais do trade turístico. Trata-se de uma engrenagem que opera meses antes do desfile e cujo impacto extrapola a avenida. Em 2026, com a possibilidade concreta de retorno do fomento do Governo Estadual em bases mais robustas, projeta-se não apenas a ampliação dos postos de trabalho, mas a qualificação dessa mão de obra, com profissionalização de ateliês, contratos formais e integração com políticas de microcrédito e capacitação. O carnaval deixa de ser evento episódico e se consolida como arranjo produtivo sazonal estratégico.
Paralelamente, o aprimoramento estético do espetáculo desponta como vetor de competitividade turística. O investimento consistente tende a refletir-se em alegorias mais ousadas, acabamento técnico refinado, evolução coreográfica sofisticada e narrativas enredísticas mais coesas. O desfile das escolas de samba, se concebido com planejamento artístico e rigor técnico, transforma-se em produto cultural exportável, capaz de dialogar com o circuito nacional e atrair visitantes. A estética não é luxo; é ativo econômico. Um espetáculo visualmente impactante amplia cobertura midiática, fortalece marcas patrocinadoras e eleva o padrão de expectativa do público, criando um ciclo virtuoso entre qualidade artística e retorno financeiro.
Nesse contexto, 2026 pode marcar a consolidação do carnaval como elemento estruturante do turismo no Amapá. Inserido em calendário previamente divulgado, articulado com operadoras, rede hoteleira, bares, restaurantes e transporte aéreo, o desfile oficial pode converter-se em âncora de fluxo turístico regional e interestadual. O Amapá, frequentemente percebido como destino periférico no mapa nacional, tem no carnaval a oportunidade de afirmar identidade cultural singular e dinamizar seu trade. A execução do fomento estadual, acompanhada de transparência, mensuração de impacto e estratégia de marketing territorial, não será apenas apoio à cultura, mas política pública de desenvolvimento econômico, capaz de transformar o espetáculo em plataforma de geração de riqueza, imagem e pertencimento.
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