Um estudo comparou água engarrafada e água tratada e encontrou mais micro e nanoplásticos nas garrafas, muitos vindos do frasco e da tampa. Entenda o que isso significa, como reduzir exposição e o que muda no Brasil.
A ideia de que água engarrafada é sinônimo de pureza virou hábito, e, em muitas casas, quase uma regra. Só que um estudo recente joga luz em uma contradição incômoda: quando o assunto são micro e nanoplásticos, a garrafa pode estar trazendo “companhia extra” para o copo.
Os pesquisadores compararam amostras de água tratada (de estações convencionais) com diferentes marcas de água engarrafada e encontraram concentrações de partículas maiores nas garrafas, especialmente nas menores, as mais difíceis de enxergar e de medir. O tema ganhou tração porque toca em duas ansiedades reais do cotidiano: saúde e confiança no que consumimos.
O invisível que importa: micro x nano
Microplásticos são partículas menores que 5 milímetros. Já os nanoplásticos são ainda menores (na escala de “frações de micrômetro”) e, por isso, levantam preocupações específicas: quanto menor a partícula, maior a chance de interagir com tecidos do corpo após a ingestão, algo que ainda está sendo estudado, mas já mobiliza a comunidade científica.
Neste trabalho, as partículas observadas variaram de cerca de 300 nanômetros até dezenas de micrômetros. O dado que chama atenção é que mais da metade das partículas detectadas em ambos os tipos de água estava na faixa de nanoplásticos; e, na água engarrafada, a proporção foi ainda maior.
Um detalhe importante evita alarmismo fácil: quando a comparação é feita por massa total de plástico, os autores não encontraram diferença significativa entre água tratada e engarrafada. Isso acontece porque partículas nanométricas são muitas, mas pesam pouco.
De onde vêm as partículas e o que dá para fazer hoje
A química também entrega pistas. Na água engarrafada, apareceram com destaque polímeros comuns do frasco e da tampa, como PET e polietileno, além de poliamida e até borracha, o que sugere contribuição de materiais do envase e de componentes elásticos (vedações, mangueiras, anéis) do processo industrial.
Em termos de números, a água tratada analisada ficou na casa de milhões de partículas por litro, enquanto as amostras de água engarrafada chegaram a valores bem mais altos, com diferença estatisticamente significativa para a contagem de partículas.
O que fazer com essa informação sem paranoia? A melhor leitura é prática: reduzir exposição é mais sobre hábitos e escolhas do que sobre “medo da água”. Algumas ações tendem a cortar risco sem complicar a vida:
- Preferir água filtrada (com filtros adequados e manutenção em dia) quando a qualidade local permitir
- Reduzir o uso de garrafas descartáveis no dia a dia e apostar em recipientes reutilizáveis
- Evitar deixar água engarrafada no calor (carro, sol), o que pode favorecer desgaste de materiais
- Minimizar o “abre e fecha” da mesma garrafa ao longo do dia, quando possível
- Cobrar transparência: rotulagem, controle e melhoria dos processos de envase e embalagem
Para onde vai a regulação do plástico
O assunto cai direto em duas realidades que convivem lado a lado: de um lado, regiões onde a população confia e usa a água tratada; de outro, lugares onde a percepção (ou a experiência) empurra as pessoas para a água engarrafada.
Vale comparar custo, praticidade e confiança, mas também entender que embalagem e cadeia de envase entram na conta. Para o país, o recado é maior: investir em qualidade e comunicação da água tratada, ampliar acesso a filtragem confiável e reduzir a dependência de plástico descartável não é só pauta ambiental, é pauta de saúde pública, consumo e infraestrutura.
No fim, a pergunta que rende manchete (e conversa de família) continua de pé: vale pagar mais por uma garrafa se ela pode trazer mais partículas?
Referência da notícia
What’s in your water? A comparative analysis of micro- and nanoplastics in treated drinking water and bottled water. 10 de Janeiro, 2026. Megan, N., et al.
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