Em 4 de fevereiro foi celebrado o Dia Mundial do Câncer, movimento liderado pela UICC (União Internacional para o Controle do Câncer), com aval da OMS (Organização Mundial da Saúde).
Nas duas últimas décadas, a oncologia entrou em um admirável mundo novo, e uma série de boas notícias traz perspectivas positivas e esperança.
Saímos aos poucos de um tripé que sustentou historicamente a base do tratamento do câncer —cirurgia, radioterapia e quimioterapia— para um arsenal em expansão, com terapias-alvo, imunoterapia, conjugados anticorpo-droga, estratégias celulares e combinações cada vez mais sofisticadas orquestradas pela jornada molecular do câncer.
Esse avanço é real, rápido, muito bem-vindo e, para uma parte dos pacientes, já mudou o destino: pessoas que antes teriam meses de vida hoje convivem com a doença por anos, trabalhando, criando filhos, envelhecendo com mais qualidade.
O problema é que a mesma velocidade científica que salva vidas está ampliando um dilema ético e econômico: vamos seguir avançando em tratamentos altamente complexos e caros, acessíveis a poucos, ou vamos investir em novos caminhos para democratizar o cuidado oncológico em grande escala? A pergunta não é retórica. Define o cenário para quem vive com câncer, quem não vai sobreviver à doença e o que consideramos um sistema de saúde “justo”.
Por que o custo do tratamento importa para todo mundo?
A medicina de precisão depende de diagnóstico sofisticado, equipes altamente treinadas, infraestrutura e medicamentos com preços elevados. Quando somamos isso ao aumento da incidência (em parte por envelhecimento populacional e, sobretudo, por fatores ambientais e de estilo de vida), o resultado é uma pressão contínua sobre sistemas públicos e privados.
No Brasil, há um ponto que costuma entrar com parcimônia no debate da saúde, mas é preciso encará-lo com objetividade: os recursos financeiros são finitos e certas escolhas acabam sendo inevitáveis.
Dados de estudos sobre gastos do SUS (Sistema Único de Saúde) mostram que o custo direto do tratamento do câncer (excluindo promoção e prevenção) chegou a cerca de R$ 3,9 bilhões em 2022, com a maior parte concentrada em tratamento ambulatorial (como quimioterapia e radioterapia). Isso não é um “argumento contra” a tecnologia; é um alerta sobre como a conta fecha ou não fecha.
Enquanto isso, políticas que deveriam proteger o paciente seguem desafiadas pela realidade. A lei que assegura início do 1º tratamento no SUS em até 60 dias depois do diagnóstico existe desde 2012. Quando prazos não são cumpridos, a doença avança, o tratamento se torna mais caro e a chance de cura diminui. Ineficiência, aqui, não é apenas desperdício: é sofrimento que poderia ser evitado.
Em dezembro de 2023, o Brasil sancionou a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, um marco ao estabelecer diretrizes para reduzir incidência, mortalidade e desigualdades, além de organizar a linha de cuidado. É um passo relevante, mas política pública não se sustenta apenas no papel. Sem financiamento estável, governança, metas e monitoramento, a perspectiva positiva diante da nova lei tende a aprofundar a frustração.
Um falso dilema: “ou inovação ou acesso”
Muito se fala sobre essa discussão como um cabo de guerra: de um lado, inovação; do outro, acesso. Mas essa pode ser uma forma equivocada de enxergar o problema. A questão não é escolher entre ciência e equidade. É garantir que a ciência gere equidade.
Isso passa por 3 mudanças de rota:
- Incorporar com responsabilidade Nem toda tecnologia precisa ser usada em todos os pacientes. O avanço da personalização permite escolher melhor e usar melhor. O que precisamos é de um modelo de incorporação baseado em valor (benefício real, custo-efetividade, impacto orçamentário), com negociação de preços e contratos de desempenho quando possível. É assim que se protege o sistema e o paciente.
- Reequilibrar o investimento: prevenção e diagnóstico precoce não são coadjuvantes
O câncer é, em grande parte, prevenível. Vacinação (como HPV), rastreamento bem organizado, combate ao tabagismo, redução de obesidade e sedentarismo: isso evita novos casos, reduz tratamentos tardios e libera recursos para quem realmente precisa de terapias avançadas. A inovação mais “escalável” costuma ser a que impede a doença de aparecer ou a detecta cedo.
O tabu do câncer diminuiu, mas não acabou. O medo do diagnóstico e a desinformação ainda atrasam exames e vacinas, especialmente em nichos sociais específicos. Quando a cultura empurra o paciente para longe do cuidado, o sistema paga mais —e tarde demais.
O caminho possível
O admirável mundo novo da oncologia não deve ser um clube exclusivo. Se a ciência continuar avançando sem um projeto claro de acesso, entraremos na rota de uma medicina brilhante mas injusta. A alternativa é encarar, de frente, a acomodação necessária: econômica, organizacional e cultural.
A principal homenagem a quem vive com câncer, e a quem perdemos, é trocar o entusiasmo solitário com a inovação por um compromisso coletivo com escala, prioridade e impacto. Porque, no fim, não basta tratar melhor. É preciso tratar mais gente, a tempo, e com qualidade.
Este texto foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o original aqui.
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