A moda e a arte se encontram em muitos momentos da vida. A relação entre os dois campos sempre me intrigou. Não à toa o meu TCC na faculdade de Design de Moda foi sobre o uso das cores nas obras de Matisse, enquanto na faculdade de História da Arte foi sobre a relação entre arte e moda a partir da performance artística em desfiles do estilista britânico Alexander McQueen.
Estou sempre no meio da moda e da arte, transitando entre as duas áreas, frequentemente ali e aqui e as pessoas sabem que sou pesquisadora e entusiasta desses assuntos e dos seus desdobramentos. Por isso, ao longo da última semana, recebi inúmeras mensagens de conhecidos, me encaminhando publicações sobre o tema do próximo Met Gala: moda é arte.
Como se fosse simples, uma associação óbvia, os comentários dos posts estavam sempre fazendo alguma graça sobre a escolha do tema. Porém, como pesquisadora, apesar de acreditar que moda pode, sim, ser arte, eu sei que não é continuamente que a relação entre os campos é estabelecida.
Todas as vezes que me questionam sobre isso, eu devolvo a pergunta: o que é moda e o que é arte? Para você, moda é ou não é arte? Não que eu não tenha a minha resposta, mas porque, muitas vezes, quem pergunta sobre a relação desses campos espera uma resposta objetiva e pronta, enquanto, para de fato entendermos a relação entre eles, precisamos transitar pelo subjetivo, pela história, pelas coisas que não são tão óbvias assim e, claro, lembrar que não existe um consenso sobre isso dentro da academia. É um assunto muito complexo para caber apenas em uma página do jornal!
Primeiro, precisamos entender que foi criado um grave afastamento entre as duas áreas ao longo da história: no século XVIII, houve a tentativa de separar as artes e os ofícios e, nessa hierarquia, a costura ocupou a segunda categoria, fazendo com que a moda também fosse incluída no mesmo lugar.
O estilista inglês Charles Frederick Worth (1825-1895) ficou conhecido por ser o “pai da alta-costura” e por ter lutado para que os estilistas fossem reconhecidos como artistas. No século XIX, ele muda completamente a perspectiva do que é a moda porque vai contra essa ideia de que ela andaria apenas ao lado da costura, revolucionando o mercado.
Realmente, a moda e a arte não são tão diferentes assim. Podemos, por exemplo, falar do termo alemão ‘zeitgeist’, popularizado por Hegel, que significa “espírito de época” ou “espírito do tempo”. A partir dele, é possível afirmar que a arte é capaz de refletir, por si própria, a cultura da época em que teria sido produzida. A moda, assim como a arte, materializa as ideias, os conceitos, as dores, as questões estéticas e os movimentos políticos e sociais de um contexto histórico e, por isso, é possível concluir que a moda também pode ser considerada o espírito de um tempo e, portanto, ser entendida como uma forma de expressão artística.
Segundo Svendsen, a moda se relaciona com a expressão da nossa individualidade, como a arte faz. Seguindo essa lógica, o vestuário não é, portanto, algo externo à identidade pessoal. Artistas e designers podem exprimir a sua individualidade naquilo que criam e talvez essa seja uma outra grande aproximação entre os campos que discutimos aqui.
Na era moderna, a forma como as pessoas se vestem e se relacionam com a moda também comunica questões pessoais que, claro, interferem na esfera social e refletem o que elas pensam, consomem, fazem, leem, escutam… Falo da era moderna, especificamente, porque a moda foi um marco para a modernidade. Baudelaire, por exemplo, a relaciona com o início da modernidade, exatamente porque ela foi capaz de abolir as tradições e trazer novas perspectivas sobre o tempo e sobre o indivíduo.
Importante citar, aqui, as vanguardas do século XX, que exploravam o efêmero, o provocador e o não convencional dentro da criação artística, não se limitando apenas aos campos da arte. Nesse momento, a relação entre a moda e a arte se estreita, porque designers como Schiaparelli e Yves Saint Laurent passam a fazer coleções inteiras em diálogo ou em parceria com o trabalho de artistas, como Dalí e Mondrian.
Nessa época, a necessidade de que as roupas fossem mais práticas e funcionais, até por conta das guerras, não só mudaram as funções sociais, como mexeram com toda a estrutura fabril, desde a mão de obra até a disponibilidade de recursos. A moda varejista, como conhecemos hoje, vem da necessidade básica de vestir o corpo e atender às demandas do cotidiano, nos protegendo, comunicando e indicando valor social. A moda pode ser, especialmente nesta era do fast fashion, resumida a consumo e roupa.
No entanto, no meu TCC de História da Arte, falo que “a moda se aproxima da arte porque também dá forma e tridimensionalidade para ideias e conceitos, construindo narrativas e criando identidades a partir de desejos do indivíduo e da sociedade que, inúmeras vezes, expressam a subjetividade humana”. A moda, então, também é um dispositivo cultural que, assim como a arte, produz linguagem e, como falo no meu trabalho, incorpora “cores, tamanhos e texturas diferentes, sendo profundamente capaz de emocionar, de conectar e de fazer refletir”.
Se a gente considera que a arte e a moda desenvolveram uma relação simbiótica ao longo da história, podemos refletir que essa interação pode soar mais como um dueto. A sociedade, contudo, fez e continua fazendo questão de separar as duas áreas, especialmente quando a moda é reduzida a simples vestuário, consumo e tendências, tendo o seu potencial simbólico e expressivo esvaziado. Falo muito disso aqui, mas porque é fundamental sempre lembrarmos o que é a moda!
Na história, existiram alguns fatores que reforçam essa separação. Como o fato de que o campo da moda não tem uma área de crítica associada, ao passo que existe esse campo reconhecido e instituído dentro das artes. Também, porque a própria história da arte não abriu espaço para a moda e manteve a ideia dos grandes artistas, da hierarquia, da arte erudita, das belas artes.
Svendsen fala que “os estilistas contemporâneos também empreenderam projetos de alta qualidade artística”, provando que, às vezes, um artista e um estilista podem ocupar uma mesma mente criativa e habitar um mesmo corpo. Se olharmos com atenção para o que falamos, é possível perceber as aproximações entre a moda e a arte. Mais do que isso: fica evidente que é possível fazer só moda, fazer só arte e, às vezes, unir os dois e produzir grandiosidades do vestir.
Enquanto escrevo, sou tocada pela lembrança de que, em 2020, quando encerrava a faculdade de moda, tive um professor que já faleceu, chamado Leo Caldi, que escreveu a seguinte frase: “que sejamos projetistas, mas não esqueçamos nunca da arte e tenhamos sempre algo a dizer”. No meu coração, ainda bem, a moda e a arte andam bem juntinhas, de mãos dadas.
O post Quando a moda é arte? apareceu primeiro em A Gazeta do Amapá.
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