Desde a repressão brutal aos protestos nacionais em janeiro até os recentes ataques de Israel e dos Estados Unidos, o Irã está no centro das atenções internacionais há semanas. Reportar sobre o Irã é desafiador, tanto de dentro do país quanto de fora. Durante períodos de agitação e turbulência política, torna-se ainda mais difícil e restritivo.
A paisagem midiática do Irã está dividida entre veículos intimamente afiliados ao Estado e aqueles considerados reformistas. Os veículos alinhados ao Estado incluem organizações como a IRIB (Radiodifusão da República Islâmica do Irã), Tasnim, Fars News e Mehr News.
Esses veículos conservadores frequentemente promovem narrativas que apoiam o establishment clerical governante do Irã. Sua cobertura frequentemente se alinha com as visões de líderes linha-dura como o líder supremo Ali Khamenei, que foi morto nos ataques iniciais em 28 de fevereiro. Outros veículos afiliados ao Estado, incluindo o Mizan, que está ligado ao judiciário iraniano, publicam de forma semelhante coberturas que retratam a República Islâmica como vítima de agressão estrangeira no conflito atual.
Há também um grupo menor de publicações reformistas, como Shargh Daily, Ham-Mihan e Donya-e-Eqtesad, que tendem a oferecer cobertura mais analítica e crítica de questões políticas e econômicas no país.
Mas os jornais reformistas operam sob pressão constante. Durante o auge dos protestos no início de janeiro, as autoridades iranianas impuseram um severo bloqueio da internet e das comunicações. Muitos veículos de notícias domésticos tornaram-se inacessíveis online. Um pequeno número de veículos linha-dura, como Fars e Tasnim, continuou a distribuir informações através de canais do Telegram.
Por mais de 2 semanas, grande parte das informações que saíam do Irã minimizava a escala da repressão do governo aos manifestantes. Em vez disso, as narrativas oficiais enfatizavam a suposta interferência estrangeira, culpando a agitação pelos EUA e Israel.
Veículos reformistas que desafiam essa narrativa frequentemente enfrentam retaliação. Jornalistas são frequentemente presos e jornais são suspensos ou fechados. As autoridades fecharam o Ham-Mihan em janeiro de 2026 depois que seu editor-chefe publicou um artigo de opinião refletindo sobre a atual agitação política e a revolução de 1979 que acabou com a monarquia.
Essas restrições significam que os veículos de mídia alinhados ao Estado frequentemente dominam a narrativa que sai do Irã, moldando como os eventos dentro do país são apresentados ao mundo exterior.
DESAFIOS PARA A MÍDIA INTERNACIONAL
As organizações de mídia internacional enfrentam um conjunto diferente, mas igualmente complexo, de obstáculos. Jornalistas estrangeiros têm presença limitada dentro do Irã, em grande parte devido aos riscos envolvidos.
Vários repórteres trabalhando para grandes veículos como The Washington Post e The New York Times foram detidos pelas autoridades iranianas no passado, criando um clima de cautela entre as organizações de notícias internacionais.
Como resultado, apenas um pequeno número de veículos mantém repórteres no país. Organizações como o Financial Times e a Al Jazeera têm representação limitada no terreno, enquanto muitas outras operam escritórios regionais na Turquia ou nos Emirados Árabes Unidos. Agências como Reuters, Bloomberg, CNN e CNBC frequentemente dependem desses centros regionais, enquanto outras reportam sobre o Irã da Europa ou da América do Norte.
Mesmo de fora, reunir informações confiáveis permanece difícil. Muitas fontes dentro do Irã têm medo de falar com a mídia estrangeira, já que as autoridades rotineiramente intimidam ou prendem indivíduos que se comunicam com jornalistas internacionais. Funcionários do governo também relutam em falar com repórteres estrangeiros.
Os bloqueios da internet durante protestos e tempos de guerra complicam ainda mais a reportagem. Com as comunicações frequentemente restritas, os jornalistas devem confiar em informações de organizações de direitos humanos, redes de ativistas e contas oficiais de mídia social.
Organizações de mídia da diáspora, que operam fora do Irã mas transmitem e publicam em persa, desempenham um papel crucial no preenchimento de algumas das lacunas de informação. Esses veículos alcançam audiências tanto dentro quanto fora do país. Exemplos incluem Iran International, BBC Persian, IranWire, Manoto e Voice of America. Embora a Voice of America tenha sido desfinanciada e desativada pelo governo do presidente Donald Trump (Partido Republicano), suas notícias em persa ainda estão operando e fornecendo notícias dos EUA ao público. No entanto, foi acusada por alguns de seus funcionários de censurar a cobertura do príncipe herdeiro exilado do Irã, Reza Pahlavi, que emergiu como a principal figura de oposição durante a última revolta.
Pahlavi aparece frequentemente em outros veículos da diáspora, que fornecem uma plataforma para vozes de oposição que raramente aparecem na mídia doméstica do Irã, a menos que seja para serem desacreditadas.
Como mantêm extensas redes de fontes dentro do Irã, os veículos da diáspora frequentemente estão entre os primeiros a receber vídeos, imagens e relatos de testemunhas oculares de protestos ou atividade militar. Depois da verificação, esse material é frequentemente usado por organizações de mídia internacional como The New York Times, CNN e BBC World.
Eles também reportam mais sobre as nuances que podem ser menos óbvias para jornalistas estrangeiros, como os iranianos se sentem sobre a guerra ou a morte do líder supremo. Enquanto veículos internacionais focaram naqueles que lamentavam a morte do aiatolá Ali Khamenei, a realidade é que muitos iranianos comuns estavam celebrando.
Seja trabalhando para jornais reformistas dentro do Irã, organizações de notícias internacionais no exterior ou veículos de mídia da diáspora, jornalistas que cobrem o país enfrentam pressões extraordinárias. Muitos são submetidos a tentativas de hacking, assédio online e, em alguns casos, ameaças físicas. O trabalho é emocionalmente exigente, particularmente para jornalistas iranianos que estão reportando sobre eventos que impactam seu próprio país, comunidades e famílias.
Texto traduzido por Isabella Luciano. Leia o original em inglês.
O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.
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